
O jornalista e escritor Zuenir Ventura, um dos grandes nomes da imprensa brasileira e conhecido por gerações de repórteres como “Mestre Zu”, morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos. Em mais de seis décadas de carreira, ele transformou episódios decisivos da história recente do país em reportagens e livros que ajudaram a compreender a ditadura, a desigualdade, a violência urbana e a luta pelos direitos humanos.
Nascido em Além Paraíba, Minas Gerais, em 1º de junho de 1931, Zuenir percorreu um caminho improvável até chegar às grandes redações. Foi pintor de paredes, office-boy, jogador de basquete, arquivista e professor. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo e, mais tarde, seguiu para o Rio de Janeiro, onde cursou Letras Neolatinas e teve professores como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.
O jornalismo começou quase por acaso. Enquanto estudava, conseguiu emprego no arquivo da Tribuna da Imprensa. Depois passaria por veículos como Correio da Manhã, Jornal do Brasil e pelas revistas Cruzeiro, Visão, Veja e Isto É. Paralelamente, ensinou e ajudou a formar uma geração de profissionais, origem do apelido carinhoso de Mestre Zu.
Sua obra mais conhecida, “1968 – o ano que não terminou”, lançada em 1988, reconstruiu o período de mobilização estudantil e repressão da ditadura militar. O livro tornou-se referência sobre aquela geração e inspirou a minissérie “Anos Rebeldes”.

Pouco depois, Zuenir mergulhou em outro capítulo decisivo da história brasileira. Em 1989, foi ao Acre investigar o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. A cobertura lhe rendeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog e transformou também sua vida pessoal.
Durante a apuração, conheceu Genésio Ferreira da Silva, então com 13 anos e testemunha ameaçada do assassinato. Zuenir acabou levando o garoto para sua própria casa. “Um dia, cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos. Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos”, relembrou.
Em 1994, voltou a fazer da reportagem uma ferramenta para interpretar o país com “Cidade Partida”. O livro nasceu de sua convivência com moradores de Vigário Geral depois da chacina de 1993, que deixou 21 mortos. A obra, vencedora do Prêmio Jabuti, tornou-se referência sobre violência, desigualdade e a fratura social do Rio de Janeiro.
A própria ditadura atravessou sua biografia. Em 1968, Zuenir e a mulher, a jornalista Mary Akiersztein, foram presos pelo regime militar. Ele permaneceu três meses encarcerado e dividiu a prisão com nomes como Ziraldo e Hélio Pellegrino.
Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL) e tomou posse no ano seguinte na cadeira 32, sucedendo Ariano Suassuna. Mesmo transformado em “imortal”, preservava o humor com a instituição e consigo próprio.
O otimismo também atravessou sua vida. Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, deixou uma espécie de síntese de sua maneira de encarar o mundo: “Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda”.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, os filhos Mauro e Elisa, e os netos Alice e Eric. Deixa também uma geração de jornalistas que continuou chamando-o pelo título que nenhuma academia precisou conceder: Mestre Zu.