Voltar às bases, por Edgar Silva dos Anjos

Voltar às bases

As duas lacunas geracionais onde se entrincheira a disputa eleitoral

por Edgar Silva dos Anjos

“Faz lembra do discurso do Brown.
Tá perdido? Volta pra base.
Que a esquerda precisa pensa nos preto não só quando for pro front.
Que é melhora o amanhã, faz um favor pra si, aprenda com o ontem.”
Música de Rashid, Chico César e DJ Caique, Diário de Bordo 6 (2021)

A advertência que atravessa o discurso de Mano Brown e reaparece alguns anos depois em Diário de Bordo 6 conserva uma atualidade incômoda. Voltar às bases nunca significou apenas retornar ao território quando as pesquisas pioram, procurar novamente quem se afastou ou recuperar uma linguagem popular perdida. Há uma exigência anterior: perceber o que aconteceu com aqueles que continuamos chamando pelo mesmo nome depois que suas vidas já mudaram.

Toda força política corre o risco de conhecer melhor o movimento do adversário do que as transformações ocorridas dentro de sua própria base social. A polarização agrava esse desvio porque organiza a política como confronto permanente, obriga cada campo a responder ao outro e cria a impressão de que a eleição se resolve entre mobilizar os convencidos e disputar uma pequena faixa de indecisos. Algumas margens eleitorais, porém, revelam transformações sociais maiores do que os próprios percentuais. É o que parece ocorrer hoje entre os brasileiros mais jovens.

O Datafolha de agosto oferece uma fotografia reveladora. Entre 16 e 24 anos, Lula registra 37%, Flávio Bolsonaro 31% e Renan Santos chega a 11%, muito acima de seu desempenho no conjunto do eleitorado. Na faixa imediatamente seguinte, entre 25 e 34 anos, a composição muda: Flávio aparece com 35%, Lula com 34%, Renan cai para 6% e branco ou nulo alcança 9%. A Quaest, trabalhando com outro recorte e outra metodologia, também encontra forte redução da vantagem lulista entre eleitores de 16 a 34 anos e chega ao empate no segundo turno.

Poucos anos separam duas experiências políticas distintas. Entre os mais novos há uma disputa intensa pela formação de repertórios, identidades e pertencimentos, num ambiente cultural fragmentado e menos fixado nos polos tradicionais. A partir dos 25, outra tensão começa a se impor. A vida deixa progressivamente de ser uma promessa aberta e cobra resultados daquilo que foi acumulado até ali. Trabalho, moradia, renda, família, dívida, cuidado e patrimônio passam a ocupar simultaneamente o presente. São duas lacunas contíguas: uma se abre enquanto a visão de mundo ainda está sendo formada; a outra, quando a própria experiência começa a colocar em dúvida a promessa recebida.

A primeira lacuna tem características próprias que merecem ser descritas antes de seguir adiante. O desempenho de Renan Santos entre os mais jovens já aparecia antes da rodada atual. Em março, ele registrava entre 6% e 10% na faixa de 16 a 24 anos, contra apenas 3% no conjunto da população, enquanto sua candidatura concentrava parte importante da comunicação nessa geração, com vídeos, temas polêmicos e uma linguagem desenhada para circular no ambiente digital. Os 11% de agosto dão continuidade, portanto, a um movimento que já podia ser observado alguns meses antes.

O ambiente informacional dessa faixa ajuda a qualificá-lo. Levantamento BTG/Nexus divulgado em agosto aponta que 82% dos jovens de 16 a 24 anos usam internet, portais e páginas online para acompanhar notícias sobre a eleição, o maior percentual entre todas as faixas etárias, e o DataSenado encontra, entre 16 e 29 anos, 72% com os meios digitais como principal fonte de notícias. A primeira lacuna combina menor cristalização nos dois polos tradicionais, exposição política intensamente mediada por plataformas e maior abertura a atores novos, cuja formação política ocorre num ecossistema menos dependente das trajetórias partidárias convencionais. Esses elementos não estabelecem uma relação causal direta entre uso das redes e voto em Renan, mas ajudam a compreender uma faixa em que a disputa permanece mais aberta e na qual uma candidatura orientada deliberadamente para esse ambiente consegue circular muito acima de sua média nacional. O fenômeno revela algo além da transferência de votos entre Lula e Flávio: existe ali espaço eleitoral fora dos dois polos que organizam o restante da disputa.

A faixa de 25 a 34 anos reúne mais de 30 milhões de eleitores, quase um quinto do eleitorado brasileiro. O tamanho já justificaria atenção eleitoral, mas sua biografia social torna o fenômeno mais relevante. Quem tem 25 anos hoje tinha 15 em 2016; quem tem 34 tinha 24. A passagem decisiva dessa geração para a vida adulta ocorreu entre a crise econômica, o impeachment de Dilma Rousseff, o governo Temer, os quatro anos de Jair Bolsonaro, a pandemia e o retorno de Lula. Também coincidiu com a expansão das plataformas, dos vínculos de trabalho fragmentados, do MEI, da renda complementar e de uma comunicação política organizada cada vez mais pelos fluxos personalizados das redes.

Para parte dos brasileiros hoje com 50 ou 60 anos, os primeiros governos Lula pertencem à memória adulta. Emprego, salário mínimo, universidade, crédito, consumo e aquisição patrimonial puderam ser vividos diretamente como experiência de expansão. Quem hoje tem 29 anos conhece essa história, muitas vezes dentro da própria família, mas sua memória econômica pessoal começa num país diferente. Lula 1 e Lula 2 pertencem sobretudo à infância. A vida adulta chegou durante a crise.

Isso ajuda a compreender por que conquistas historicamente vinculadas ao campo progressista podem permanecer presentes numa trajetória sem produzir a mesma identificação subjetiva. A política dificilmente funciona como contabilidade acumulada de benefícios. Cada geração julga o presente a partir da relação que consegue estabelecer entre aquilo que faz hoje e aquilo que acredita poder construir amanhã.

A renda mostra onde essa tensão ganha maior nitidez. Entre famílias que vivem com até dois salários mínimos, Lula alcança 46% no Datafolha, contra 27% de Flávio. Na faixa seguinte, de dois a cinco salários, Lula cai para 30% enquanto Flávio chega a 39%. A Quaest apresenta percentuais diferentes, mas encontra a mesma perda acentuada de vantagem quando se deixa a base mais pobre da pirâmide. A escolaridade oferece outro indício: Lula preserva vantagem muito grande entre quem possui ensino fundamental, perde entre os eleitores com ensino médio e volta a se tornar mais competitivo entre aqueles que chegaram ao ensino superior.

Antes de nomear essa região, é preciso uma advertência. Idade, renda e escolaridade não podem ser cruzadas, nas tabelas públicas, até isolar uma única pessoa que reúna todas as características. O que proponho a seguir é, portanto, uma chave de leitura, não a fotografia de um segmento fechado. Mas há um motivo para que precise ser assim: a política não encontra as pessoas na interseção das planilhas, e sim na vida, onde idade, trabalho, escolaridade e origem se apresentam juntos numa mesma biografia. Os três recortes são apresentados separadamente e apontam, ainda assim, para uma região semelhante: a vantagem lulista cede quando se sobe da base mais pobre, cede quando se passa do fundamental ao médio, cede quando se entra na faixa dos 25 aos 34. A repetição desse movimento em dimensões diferentes oferece um indício forte de uma experiência social que merece ser investigada como tal. É com o alcance e também com o limite desse indício que trabalho a seguir.

É nesse ponto que a ideia de mobilidade interrompida ganha força. A expressão preserva aquilo que a categoria genérica da precariedade tende a apagar: houve movimento. Muitos estudaram mais que seus pais, chegaram à universidade, ampliaram repertórios, acessaram serviços e tecnologias antes distantes da família, compraram veículos, abriram pequenos negócios ou chegaram a posições profissionais que representavam algum avanço sobre a geração anterior. O conflito aparece quando escolarização deixa de se converter com a mesma facilidade em carreira, trabalho oferece pouca previsibilidade, renda encontra dificuldade para virar patrimônio e autonomia passa a significar também assumir individualmente riscos cada vez maiores.

A história educacional torna essa contradição visível. Quem hoje tem entre 30 e 34 anos chegou à idade universitária durante a expansão do Reuni, do Prouni e do Fies. Os novos contratos do Fies saltaram de 76 mil em 2010 para mais de 700 mil em 2014, enquanto universidades federais ampliavam vagas e campi e milhões de jovens atravessavam uma porta que permanecera inacessível para suas famílias. Quem hoje está entre 25 e 29 anos encontrou outra conjuntura: chegou aos 18 depois de 2015, quando o Fies encolhia, a economia entrava em recessão e a crise política reorganizava expectativas profissionais. É mais um recorte, e obedece ao mesmo padrão dos anteriores, apontando para a mesma região que os outros já vinham indicando.

Dentro da mesma faixa etária convivem, assim, uma metade que alcançou a idade universitária durante a expansão e outra que encontrou seu refluxo. As duas foram socializadas sob uma promessa semelhante: estudar, trabalhar e avançar formavam uma sequência inteligível de mobilidade. Aos 18, a pergunta era como atravessar a porta. Aos 30, ela muda de natureza. O diploma virou carreira? O trabalho sustenta uma casa? A renda acumulada produz patrimônio? A autonomia diminuiu a insegurança? O esforço realizado ao longo de uma década encontra correspondência na vida que se tornou possível construir?

Essa pergunta econômica possui inevitavelmente uma dimensão existencial. A faixa de 25 a 34 anos concentra o momento em que expectativas juvenis começam a ser comparadas com os resultados efetivos da vida adulta. É também uma idade de formação de famílias, nascimento de filhos, saída definitiva da casa dos pais, separações, financiamento de moradia e maior responsabilidade sobre outras pessoas. O problema deixa de caber inteiramente dentro do indivíduo.

Essa segunda lacuna tampouco é socialmente homogênea. As desigualdades de raça e gênero reaparecem dentro dela e modificam a forma como a pressão é vivida. Pretos e pardos têm peso majoritário nas gerações mais jovens, enquanto renda e inserção no trabalho preservam uma hierarquia conhecida: homens brancos ocupam as posições mais favoráveis, mulheres negras acumulam as maiores desvantagens e homens negros apresentam forte presença no trabalho acompanhada de maior informalidade. A mobilidade interrompida não interrompe todos no mesmo ponto.

A formação familiar torna essa diferença mais concreta. Para muitos homens, trabalho e renda passam a carregar também expectativa de provisão e patrimônio. Para muitas mulheres, especialmente as negras, a mesma pressão econômica se combina com maternidade, cuidado, creche, deslocamento e disputa pelo tempo. Quando filhos entram nessa equação, a insegurança deixa de ser apenas uma pergunta sobre como sustentar a própria vida e passa a incluir a vida que será possível oferecer a quem depende dela.

A transformação do trabalho aprofunda esse sentimento. A maioria dos brasileiros entre 25 e 34 anos evidentemente não trabalha para aplicativos, mas o perfil do trabalhador plataformizado concentra características do período: forte presença entre 25 e 39 anos, maioria masculina, escolarização intermediária, trabalho por conta própria e informalidade elevada. A uberização tornou-se socialmente maior que o contingente de motoristas e entregadores porque sua lógica atravessa MEI, PJ, freelancer, bico, renda complementar e ocupações sob demanda. Autonomia e risco passaram a caminhar juntos. Também aqui o dado não desenha um grupo, mas ilumina mais uma face da mesma condição: a de quem ganhou autonomia e, no mesmo gesto, herdou o risco que antes era repartido.

Pesquisas recentes sobre jovens trabalhadores encontram essa ambivalência. Salário permanece como principal critério profissional, enquanto uma parcela grande aceitaria ganhar menos para viver com menor estresse. Muitos já abandonaram voluntariamente empregos e uma proporção expressiva imagina trabalhar de maneira autônoma no futuro. Ao lado das expectativas otimistas sobre os próximos anos permanece o medo de não conseguir pagar as contas com tranquilidade. A aspiração continua viva; o que perdeu força foi a confiança numa estrada capaz de ligá-la ao futuro.

Essa experiência ajuda a compreender também uma forma cotidiana de individualização. Score de crédito, metas, produtividade, avaliações, reputação digital, algoritmos, promoções e comparação permanente ensinam que cada pessoa precisa administrar cuidadosamente sua performance e suas escolhas. Essa pedagogia pode conviver com consciência da desigualdade, defesa do SUS, uso da escola pública, pertencimento territorial e solidariedade familiar. Seu produto político mais importante talvez seja uma frase mais simples que qualquer doutrina meritocrática: eu tenho que me virar.

A frase contém orgulho, dignidade, ansiedade e abandono e convive com vínculos comunitários fortes. Pesquisas nas periferias mostram pertencimento ao bairro, à família, à igreja e às redes locais enquanto a trajetória econômica é vivida de maneira crescentemente individualizada. O sujeito permanece coletivo onde encontra comunidade e assume sozinho o peso justamente onde as formas de proteção perderam presença.

A religião entra nesse quadro como importante estrutura de organização. Aproximadamente 28% dos brasileiros entre 25 e 39 anos são evangélicos, proporção insuficiente para explicar sozinha o comportamento eleitoral da geração, mas com forte efeito político. Flávio possui ampla vantagem entre evangélicos, enquanto Lula conserva liderança expressiva entre católicos. A igreja oferece também comunidade, reconhecimento e uma narrativa capaz de conectar sofrimento, disciplina, família e expectativa.

A política disputa essa mesma necessidade de organizar a experiência. Uma pessoa de 30 anos pode viver simultaneamente renda instável, aluguel elevado, filho pequeno, dívida, deslocamento longo, insegurança e frustração profissional. A direita brasileira construiu respostas particularmente eficientes porque produz relações causais curtas entre sofrimento, responsável e saída: o Estado cobra demais, a burocracia impede quem quer trabalhar, a impunidade produz violência, o governo prometeu prosperidade e entregou supermercado caro. Sua potência depende da aderência a experiências já existentes.

Nikolas Ferreira compreendeu esse mecanismo. Num vídeo recente, percorre um supermercado, escolhe produtos cotidianos, inclui a picanha e apresenta uma compra de mais de duzentos reais. Parte da reação progressista concentrou-se em provar que alguns itens poderiam ser encontrados por preços inferiores ou que a composição da cesta inflava o resultado. A verificação factual é necessária, mas a cena já havia produzido outro efeito.

Quem compra comida reconhece o gesto de trocar uma marca, retirar algum produto, antecipar mentalmente o valor do caixa e comparar a sacola de hoje com a do mês passado. Nikolas ocupa essa sensação e lhe atribui uma causalidade política. Quando a resposta se limita ao preço correto da picanha, a esquerda pode terminar discutindo o recibo enquanto o adversário permanece falando da experiência que faz o recibo doer.

Há uma assimetria adicional. Para a direita, responsabilizar Lula pelo presente tem baixo custo narrativo porque ele governa hoje. A resposta progressista não pode ser fabricar a caricatura inversa, creditando a um só governo todo o mérito e a outro toda a culpa. A mediação honesta é mais trabalhosa e precisa ser feita à vista: a instabilidade que essa geração vive não nasceu em 2023. A precarização já avançava desde a crise de 2015 e 2016 e ganha um novo marco regulatório com a reforma trabalhista de 2017, sob Temer; a informalidade cresce nos anos seguintes e o trabalho por plataformas amplia sua presença. Nada disso isenta quem governa agora da cobrança por respostas. Mas mostrar a cadeia, em vez de apontar um culpado no fim dela, é o que distingue análise de propaganda. Recusar a causalidade curta vale para os dois lados, inclusive para o meu.

Isso dialoga com uma eleição estruturada pelo desgaste. Em outro ensaio, descrevi a disputa como uma guerra de imposição de custos, na qual cada campo procura obrigar o outro a responder, defender-se e gastar energia. A geração que estamos observando acrescenta uma camada a esse argumento: chega à guerra eleitoral previamente desgastada. Trabalho, trânsito, cuidado, dívida, preço, insegurança e excesso de informação já consumiram boa parte da atenção antes que a campanha comece.

A simplificação encontra terreno fértil nesse ambiente, mas a captura definitiva continua difícil. Essa geração é mais escolarizada, intensamente digital, habituada a comparar bancos, produtos, empregos e plataformas e submetida a múltiplos universos informacionais. Pode aderir rapidamente a uma interpretação e abandoná-la quando ela deixa de explicar sua experiência. Flávio chega ao empate entre 25 e 34 anos sem transformar essa faixa numa fortaleza ideológica. Permanecem votos alternativos, branco e nulo, indecisão e baixa fixação.

É aqui que as duas lacunas voltam a se encontrar. Entre 16 e 24 anos está aberta uma disputa pela formação da visão de mundo, pelas linguagens capazes de organizar o presente e pelos pertencimentos que darão sentido à política nos próximos anos. Entre 25 e 34 está em disputa uma geração que já atravessou alguns degraus da mobilidade e começa a desconfiar da continuidade da escada. Uma ainda procura referências; a outra começa a cobrar resultados.

Para a esquerda, perceber isso exige mais que aperfeiçoar comunicação eleitoral. Exige reconhecer que a própria base mudou. E reconhecer que a base mudou é diferente de concluir que a base se perdeu. A primeira afirmação é análise; a segunda é derrotismo, e é uma leitura que este ensaio recusa. O objetivo não é constatar uma fuga e lamentá-la, mas entender um deslocamento para poder acompanhá-lo. Grande parte dessas pessoas vive em famílias transformadas pela universidade, pela formalização, pelas políticas habitacionais, pela valorização do salário, pelo SUS, pela ampliação do consumo e dos direitos. Essa história permanece, mas perde força política quando deixa de organizar a expectativa presente. Uma geração não pode construir pertencimento apenas com a lembrança do caminho percorrido pelos pais. Precisa reconhecer sua própria trajetória dentro do projeto que ajuda a construir.

As políticas atuais alcançam esse grupo. A ampliação da isenção do Imposto de Renda devolve renda disponível, a renegociação de dívidas retira pressão e melhores condições habitacionais ajudam famílias que vivem com pouca margem. São respostas relevantes, mas grande parte delas chega como alívio depois que o aperto já se instalou. Para uma geração de mobilidade interrompida, respirar é indispensável, mas respirar não substitui a possibilidade de voltar a enxergar continuidade.

É nesse ponto que a esquerda pode reencontrar uma dimensão antiga de sua tradição. Proteção coletiva e autonomia individual pertencem ao mesmo projeto quando a primeira amplia a capacidade concreta da segunda. Creche devolve tempo para quem cuida, transporte devolve horas à vida, moradia transforma anos de trabalho em patrimônio e pertencimento, proteção ao trabalhador autônomo permite assumir riscos sem colocar uma família inteira diante do abismo, cultura e infraestrutura tornam o território onde alguém vive capaz de produzir futuro. O sentido político surge quando essas políticas deixam de formar um catálogo e passam a compor uma trajetória compartilhada.

A geração que diz “eu tenho que me virar” dificilmente se reconhecerá numa política que a trate como incapaz de conduzir a própria vida. Também continuará exposta ao abandono enquanto cada risco coletivo for transformado numa prova individual de mérito. A tradição progressista pode ocupar precisamente essa tensão, reconhecendo o esforço sem romantizar a solidão, defendendo autonomia sem confundi-la com desproteção e construindo segurança sem convertê-la em tutela.

Voltar às bases implica reconhecer que as próprias bases caminharam. Estudaram, trabalharam, ampliaram repertórios, formaram famílias, assumiram dívidas, experimentaram autonomia, sofreram novos riscos e construíram expectativas que a política precisa compartilhar. Retornar como se nada tivesse acontecido significaria voltar apenas ao endereço.

Há uma razão para que a advertência “volta pra base” atravesse o discurso de Mano Brown e reapareça numa música de outra geração. Base sempre foi mais do que um lugar social para onde dirigentes retornam em momentos de dificuldade. É o ponto em que a política encontra a vida antes que ela seja convertida em percentual, segmento ou estratégia.

As duas lacunas geracionais que aparecem nas pesquisas mostram precisamente essa disputa. De um lado, quem ainda procura uma linguagem para compreender o mundo; de outro, quem começa a perguntar por que tanto esforço produziu tão pouca segurança. Nas duas, uma parte decisiva da sociedade brasileira e da disputa política que se abre diante de nós.

Os mais novos ainda estão aprendendo a ler o mundo, e disputam qual linguagem vão usar para isso. Os que já entraram na vida adulta aprenderam a correr, e começam a perguntar por que correr tanto rendeu tão pouca segurança. Com os primeiros, a política precisa construir uma linguagem capaz de nascer também do encontro com as experiências, repertórios e formas de pertencimento que eles próprios já produzem. Aos segundos, precisa mostrar que correr não tem de significar correr sozinho, que autonomia pode existir junto com proteção e que horizonte não é uma promessa mantida à distância por quem governa, mas algo que se torna visível quando o caminho é construído em comum.

Voltar às bases talvez seja, no fundo, voltar a caminhar junto.

Fontes, pesquisas e referências

A seção abaixo reúne as fontes empíricas e referências de contexto utilizadas no ensaio, com informações metodológicas suficientes para refazer o caminho dos dados.

1. Datafolha — intenção de voto para presidente, agosto de 2026. Campo em 18 e 19 de agosto de 2026; 2.058 eleitores de 16 anos ou mais, em 128 municípios; entrevistas presenciais em pontos de fluxo; margem de erro de 2 pontos percentuais para o total da amostra; 95% de confiança; registro TSE BR-04496/2026. Fonte para os recortes centrais de intenção de voto por idade, renda, escolaridade e religião. Acessar fonte

2. Quaest — pesquisa nacional de intenção de voto, 14 de agosto de 2026. Campo de 10 a 13 de agosto de 2026; 2.004 entrevistas presenciais domiciliares em todo o país; margem de erro de 2 pontos percentuais; 95% de confiança; registro TSE BR-06773/2026. Usada como verificação independente do movimento eleitoral observado no Datafolha. Acessar fonte

3. Tribunal Superior Eleitoral — perfil do eleitorado das Eleições 2026. Dados oficiais do cadastro eleitoral: 14.990.259 eleitores de 25 a 29 anos e 15.178.204 de 30 a 34 anos, totalizando 30.168.463 eleitores nessas duas faixas. Acessar fonte

4. Ministério da Educação / Fies — série de contratos de financiamento estudantil. Relatório oficial referente ao exercício de 2014, com série histórica dos contratos: cerca de 76 mil em 2010 e mais de 732 mil em 2014. Utilizado na reconstrução da experiência educacional das coortes hoje entre 25 e 34 anos. Acessar fonte

5. Fundação Itaú / Itaú Educação e Trabalho — Juventudes e o Mundo do Trabalho. Pesquisa do Observatório Fundação Itaú e Itaú Educação e Trabalho, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva. Etapa quantitativa: 1.816 entrevistas presenciais com jovens de 16 a 29 anos de todas as classes econômicas, gêneros, raças e escolaridades; campo em maio de 2026. Fonte para expectativas profissionais, salário, estresse, trabalho autônomo e insegurança financeira. Acessar fonte

6. IBGE — PNAD Contínua, Trabalho por meio de plataformas digitais 2024. Módulo temático referente ao 3º trimestre de 2024. Estimou cerca de 1,7 milhão de trabalhadores em plataformas digitais no trabalho principal, equivalentes a 1,9% da população ocupada no setor privado, além de divulgar perfil por idade, sexo, escolaridade, posição na ocupação e informalidade. Acessar fonte

7. IBGE — Censo Demográfico 2022, identificação étnico-racial por sexo e idade. Resultados do universo sobre população por cor ou raça, sexo e idade. A população parda apresenta idade mediana inferior à branca, e pretos e pardos somam a maioria da população brasileira. Fonte para a caracterização racial das gerações mais jovens. Acessar fonte

8. Datafolha — intenção de voto, março de 2026 (recorte por idade). Entre os eleitores de 16 a 24 anos, Renan Santos registrou de 6% a 10% nos diferentes cenários testados, diante de 3% no conjunto do eleitorado. A publicação registra também a estratégia de sua candidatura dirigida ao público jovem, com forte uso de vídeos e temas polêmicos. Fonte para demonstrar que o desempenho de agosto é precedido por movimento identificável desde março. Acessar fonte

9. BTG/Nexus — pesquisa eleitoral e consumo de informação, agosto de 2026. Pesquisa realizada por telefone com 2.003 eleitores entre 14 e 16 de agosto, margem de erro de 2 pontos percentuais e registro TSE BR-03317/2026. Recorte por idade mostra que 82% dos eleitores de 16 a 24 anos recorrem a portais e páginas de notícias na internet para acompanhar a eleição, ante 61% no conjunto. Fonte primária | Recorte dos 82%

10. DataSenado — Fontes de informações e uso de meios digitais dos brasileiros. Pesquisa nacional com 5.039 pessoas de 16 anos ou mais, por entrevistas telefônicas. Entre 16 e 29 anos, 72% apontam meios digitais como principal fonte de notícias; entre 30 e 39, 71%. Fonte complementar sobre o ecossistema informacional das gerações mais jovens. Acessar pesquisa

11. IBGE — Censo Demográfico 2022, Religiões. As tabelas permitem desagregação por grupos de idade. Os evangélicos correspondem a aproximadamente 28% nas faixas que compõem o intervalo de 25 a 39 anos, sustentando a caracterização utilizada no ensaio. Acessar tabelas — IBGE/SIDRA

12. PNAD Contínua / desigualdades de raça e gênero no trabalho. Tabulações para pessoas de 25 a 29 anos mostram diferenças relevantes de rendimento médio entre homens brancos, mulheres brancas, homens negros e mulheres negras; dados oficiais de informalidade preservam também desigualdades por raça e gênero. Fontes para a hierarquia interna descrita na segunda lacuna. Tabulação PNAD | Informalidade por raça e gênero

13. Nikolas Ferreira — vídeo do supermercado e reação aos preços, agosto de 2026. Na composição apresentada por Nikolas Ferreira, os cinco produtos somavam R$ 255,96. A checagem de Guga Noblat encontrou os mesmos tipos de produtos por R$ 137,36. O episódio integrou disputa mais ampla nas redes sobre preços de alimentos durante a campanha. Checagem dos valores | Contexto da disputa

14. Políticas atuais citadas no ensaio — Imposto de Renda, Novo Desenrola Brasil e Minha Casa, Minha Vida. A Lei nº 15.270/2025 estabelece, a partir de janeiro de 2026, imposto devido igual a zero para rendimentos tributáveis mensais de até R$ 5 mil e redução decrescente até R$ 7.350. O Novo Desenrola Brasil foi instituído em 2026 para renegociação favorecida de dívidas. O Minha Casa, Minha Vida possui faixas e linha de classe média que alcançam famílias urbanas em diferentes patamares de renda. Lei nº 15.270/2025 | Novo Desenrola Brasil | Minha Casa, Minha Vida

15. IBGE — informalidade e trabalho por plataformas digitais. A taxa de informalidade estimada pelo IBGE passou de 39,0% em 2016 para 40,2% em 2017, 40,8% em 2018 e 41,1% em 2019. No trabalho por plataformas digitais, o contingente estimado passou de 1,3 milhão no quarto trimestre de 2022 para aproximadamente 1,7 milhão no terceiro trimestre de 2024. Fonte para a contextualização histórica do avanço da informalidade e da expansão do trabalho por plataformas, sem atribuir causalidade exclusiva a uma única mudança legislativa. Série de informalidade — IBGE | Trabalho por plataformas — IBGE

Edgar Silva dos Anjos é professor de filosofia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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