Alison dos Santos, o Piu, escreveu nesta quinta-feira (27) um dos capítulos mais importantes do atletismo brasileiro. Na etapa de Zurique da Diamond League, o brasileiro venceu os 400 metros com barreiras em 45s80 e estabeleceu o novo recorde mundial da prova. A marca ainda depende da ratificação oficial, procedimento padrão da World Athletics.
O feito ganha dimensão ainda maior porque Piu derrubou um dos recordes mais emblemáticos do atletismo contemporâneo. O antigo, de 45s94, pertencia ao norueguês Karsten Warholm, obtido na final olímpica de Tóquio, em 2021. Alison baixou a marca em 14 centésimos de segundo.
E Warholm estava na pista para testemunhar a própria queda. O norueguês terminou em segundo, com 46s69, enquanto o brasileiro cruzou a linha muito à frente dos adversários.
Piu supera o dono do recorde na própria pista
A façanha tem um componente simbólico: durante anos, a prova foi dominada pelo duelo entre Warholm, o norte-americano Rai Benjamin e Alison dos Santos. Os três protagonizaram algumas das finais mais rápidas da história dos 400 m com barreiras.
Em Tóquio, Warholm estabeleceu o então inacreditável recorde de 45s94, com Benjamin em segundo e Piu em terceiro. Naquela ocasião, Alison correu 46s72. Cinco anos depois, voltou a enfrentar Warholm em uma situação completamente diferente: desta vez, foi ele quem estabeleceu a referência que os demais terão de perseguir.
O triunfo em Zurique foi também a quinta vitória de Alison sobre Warholm na temporada de 2026, consolidando uma mudança na hierarquia da prova.
A evolução que culmina no recorde
A marca de Zurique não surgiu de forma repentina. Campeão mundial em 2022 e medalhista olímpico em Tóquio e Paris, Piu já havia demonstrado nesta temporada que atravessava um momento excepcional.
Antes da corrida suíça, o brasileiro era o líder mundial de 2026, com 46s43, marca obtida em Chorzów, na Polônia. Em Zurique, porém, reduziu seu melhor tempo em mais de seis décimos e entrou pela primeira vez na casa dos 45 segundos.
O desempenho também representa uma evolução extraordinária em relação ao recorde pessoal anterior de 46s29, registrado no título mundial de 2022. Em uma prova na qual diferenças de poucos centésimos podem separar o campeão do quarto colocado, Alison retirou quase meio segundo de sua antiga melhor marca.
Técnica, maturidade e domínio da prova
A corrida em Zurique mostrou um atleta que conseguiu combinar velocidade e eficiência técnica ao longo de toda a volta. Segundo a World Athletics, Alison neutralizou a vantagem de distância de Warholm já na metade da prova e continuou aumentando a vantagem até a chegada.
O resultado é particularmente significativo nos 400 m com barreiras porque não basta correr rápido. O atleta precisa administrar ritmo, número de passadas, passagem pelas dez barreiras e desgaste físico durante uma volta completa.
A evolução técnica de Piu inclui justamente uma adaptação do número de passadas entre as barreiras ao seu porte físico. Seu técnico, Felipe Siqueira, destacou a eficiência desse modelo de corrida, enquanto especialistas apontam também a evolução mental do brasileiro como um dos fatores de sua ascensão.
O Brasil no topo do atletismo mundial
O recorde também rompe uma barreira histórica para o atletismo do continente. Alison tornou-se o primeiro sul-americano a estabelecer um recorde mundial em uma prova de pista, colocando o Brasil no ponto mais alto da hierarquia internacional da modalidade.
Mais do que uma medalha ou uma vitória em uma etapa da Diamond League, o resultado representa a chegada de um atleta brasileiro ao lugar reservado aos grandes nomes da história da prova.
Piu já havia sido campeão mundial e medalhista olímpico. Agora, passa a ser também o homem mais rápido de todos os tempos nos 400 m com barreiras.
De promessa brasileira a recordista mundial
A trajetória torna o resultado ainda mais expressivo. Alison sofreu queimaduras graves na infância e chegou a pensar em abandonar o atletismo por vergonha das cicatrizes. Incentivado por professores de um projeto social em São Joaquim da Barra, no interior paulista, prosseguiu na modalidade até alcançar o cenário internacional.
Em 2021, conquistou o bronze olímpico em Tóquio. No ano seguinte, tornou-se campeão mundial. Em Paris, voltou ao pódio olímpico. Agora, aos 26 anos, alcança a marca que faltava para transformar uma carreira já vitoriosa em uma trajetória histórica: o recorde mundial.
E o momento pode ainda não ser o ponto final. Alison segue para a final da Diamond League, em Bruxelas, nos dias 4 e 5 de setembro, como líder do ranking da temporada.
Aos 45s80, Piu não apenas venceu uma corrida em Zurique. Ele mudou o limite do que o mundo considera possível nos 400 metros com barreiras.