
O jornalista Saeed Kamali Dehghan, ex-repórter do jornal britânico The Guardian, admitiu ter inventado uma entrevista exclusiva publicada pelo jornal em 2010 com Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana que havia sido condenada à morte.
Em uma declaração publicada em suas redes sociais, Dehghan afirmou que a conversa “nunca aconteceu” e que ele havia “inventado o artigo inteiro”.
“Quero confessar algo sobre uma reportagem de primeira página que escrevi para o Guardian, publicada em 7 de agosto de 2010. Ela foi apresentada como uma entrevista exclusiva com Sakineh Ashtiani. Essa entrevista nunca aconteceu. Eu fabriquei o texto inteiro. Era uma história falsa, completamente falsa, e assumo total responsabilidade”, escreveu.
Dehghan pediu desculpas aos leitores e afirmou que buscava, sobretudo, o perdão de Deus. Declarou não conseguir mais permanecer em silêncio diante da publicação de histórias que considera enganosas e falsas sobre o Irã.
A entrevista continua no ar, apesar da confissão de fraude do autor.
Sakineh, de fato, foi condenada em 2006 a 99 chibatadas por uma acusação de relacionamento ilícito fora do casamento. Posteriormente, um tribunal de Tabriz reabriu o processo e ela recebeu uma sentença de morte por apedrejamento relacionada à acusação de adultério.
Em julho de 2010, as autoridades iranianas anunciaram que ela não seria apedrejada naquele momento, mas havia incerteza sobre a manutenção da pena de morte por outro método. À época, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não considerava nenhum dos dois tipos de morte “humanamente aceitável”. Ele explicou que, por considerar bárbaro o apedrejamento, o Brasil receberia a iraniana “de braços abertos”.
Sakineh foi libertada em dezembro.
Mina Ahadi é uma exilada iraniana comunista que integra o comitê da Aliança Ateísta Internacional. Presumivelmente, ela tem poucas razões para querer melhorar a imagem da República Islâmica do Irã. Mas ela publicou uma crítica a Dehghan.
Afirmou que ele já havia lhe confessado a picaretagem em 2010 e implorado que ela não o denunciasse, temendo ser demitido e enviado de volta ao Irã.
“Você implorou e suplicou desesperadamente para que eu não contasse aos seus superiores no Guardian que a entrevista com Sakineh Mohammadi Ashtiani havia sido fabricada e era uma mentira. Você estava aterrorizado com a possibilidade de ser deportado e de o regime dos executores matá-lo”, afirmou em suas redes.
“Você me disse que, se eu contasse isso ao Guardian, poderia ser demitido, deportado e executado”.