Por uma consciência tecnológica em prol da soberania nacional, por Samuel Penteado Urban

Por uma consciência tecnológica em prol da soberania nacional

por Samuel Penteado Urban

Como apontam os pesquisadores Hernán Thomas e Guillermo Santos[i], todas as tecnologias são políticas. Destaca-se, nesse sentido, que elas podem ser produzidas em favor da democratização do poder e da distribuição equitativa de riqueza — a exemplo das manifestações tecnológicas desenvolvidas dentro de movimentos sociais ligados à produção agroecológica[ii] — ou para a concentração de poder e riqueza. Desse modo, diferindo da compreensão que erroneamente tem sido difundida socialmente, as tecnologias não são neutras e, assim, são produzidas com base em determinados conhecimentos e intencionalidades.

Os pesquisadores ainda afirmam que as tecnologias são conjuntos de ações realizadas conscientemente pelos seres humanos para alterar ou prolongar o estado das coisas. Essas ações constituem dimensões da vida humana e, por isso, regem a organização política de qualquer sociedade, perpassando pela dimensão dos conhecimentos que geram e se incorporam em artefatos, os quais são utilizados e operados em certas práticas.

A dimensão artefatual é a parte mais visível das tecnologias, materializando-se por meio de maquinários e armamentos até aparelhos celulares, redes sociais e toda uma gama de espaços virtuais que utilizamos cotidianamente para o trabalho ou lazer. Esses elementos medeiam, de maneira direta ou indireta, tanto a vida individual, em escala micro, quanto as estruturas sociais na escala macro — o que tem resultado, inclusive, em mudanças geopolíticas e de governos pelo mundo. Em relação ao Brasil, esses artefatos tem proporcionado livremente a disseminação de desinformações, teorias da conspiração, apologia a misogenia, ao racismo e a homofobia. A exemplo disso, não é difícil perceber o quanto as relações sociais têm sido alteradas, sobretudo com o protagonismo das redes sociais, dos aplicativos de mensagem instantânea e da constituição do YouTube como a nova televisão.

As redes sociais deram destaque à aparência, fazendo até mesmo com que pessoas arrisquem suas próprias vidas por uma postagem, já que o mundo das aparências virou fonte de renda. Os aplicativos de mensagem instantânea, que por um lado facilitaram a comunicação interpessoal, acabam por exigir respostas extremamente rápidas das pessoas para o aumento da produtividade nas atividades laborais, fazendo com que trabalhem muito além dos seus expedientes. O YouTube, sendo a nova televisão, ao mesmo tempo que deu voz a alguns grupos progressistas, também deu oportunidade para a disseminação de desinformação e da misoginia por meio de grupos redpill, bem como tem sido essencial para a massiva propagação dos sites de aposta esportiva, as bets.

Em se tratando das redes sociais e do YouTube, pouco se avançou em prol da regulamentação desses artefatos tecnológicos, o que tem propiciado a disseminação da desinformação, a propagação do racismo, da homofobia e da misoginia, bem como em mudanças de governos, como aconteceu no Brasil com o golpe realizado contra a presidenta Dilma Roussef, e em outras localidades do mundo onde o governo de interesse não se submetia aos mandos e desmandos dos Estados Unidos, incluindo aqui a recente tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro de 2023.

Nesse sentido, é de interesse das Big techs a ausência de regulação e a manutenção do que Paulo Freire aponta como visão ingênua de mundo. Isto é, quanto menor for a compreensão das pessoas acerca das tecnologias (de forma apartada da sociedade), mais facilmente elas acreditarão em notícias falsas, mais facilmente serão manipuladas pelas propagandas de apostas esportivas e mais facilmente viverão numa realidade paralela de aparências, do individualismo e até mesmo de dissociação da realidade como fruto das mais diversas teorias da conspiração, em que muitas delas poderiam ser cômicas, se a situação não fosse trágica.

É inegável que esses artefatos tecnológicos podem ser utilizados para a melhoria de vida do trabalhador ou mesmo em processos educativos de divulgação científica, de luta contra o racismo, contra a homofobia e contra a misoginia, bem como geram empregos. A utilização das reuniões virtuais pode vir a melhorar a vida das pessoas, sobretudo porque, com essas plataformas, muitos trabalhadores não precisam se deslocar para o local de trabalho, possibilitando-lhes algumas horas a mais do dia para o lazer, para a dedicação à família, amigos, saúde, etc. Mas, sendo essas manifestações tecnológicas criadas por empresas capitalistas, o objetivo central é o lucro e, desta forma, a prática do trabalho virtual tem a ver com mais produtividade, e a qualidade de vida para o trabalhador é algo secundário. Num mundo justo e democrático, o desenvolvimento tecnológico deveria servir para melhorar a vida do ser humano e, por conseguinte, fazer com que as pessoas pudessem trabalhar menos, ou seja, viver, e não apenas sobreviver, mas não é isso que acontece.

Não se trata aqui de demonizar as tecnologias, mas sim de apontar para a necessidade de se compreender que a produção e a disseminação desses artefatos tecnológicos que se manifestam por meio das tecnologias digitais, têm como objetivo principal o lucro e também a concentração de poder. Ou alguém acredita que o desenvolvimento tecnológico produzido por essas empresas capitalistas têm como objetivo a democratização do poder e a distribuição equitativa de riqueza?

Apontando para a necessidade de uma educação tecnológica que propicie às pessoas a compreensão das dimensões da tecnologia na relação com a sociedade, precisamos repensar a compreensão social acerca das tecnologias. E isso é algo que requer ações de curto, médio e longo prazo. A médio e longo prazo, a educação tecnológica precisa ser pensada no ambiente escolar, para que se desenvolva uma alfabetização tecnológica, que pense as tecnologias nas diversas escalas, isto é, como parte da nossa vida, mas que não reduza essa reflexão apenas a percepção individual ou micro, mas que proponha reflexões que tratem da não neutralidade tecnológica, dos conhecimentos, das intencionalidades e dos resultados sociais da produção/utilização tecnológica.

Também, a médio e longo prazos, o exemplo chinês de possuir um ecossistema digital próprio, é algo possível de ser desenvolvido no Brasil, sobretudo se houver financiamento para que pesquisas sejam realizadas pelas universidades públicas brasileiras, englobando as ciências exatas, mas também a ciências geográfica, as ciências da educação e as ciências sociais. Sobre o caso chinês, destaca-se o aplicativo de mensagens instantâneas WeChat, a plataforma de compartilhamento de vídeos Bilibili, a plataforma de buscas Baidu, dentre outros artefatos que não entregam dados e informações às Big Techs estadunidenses.

A curto e médio prazos, faz-se necessário que haja um processo educativo não escolarizado, por meio de uma massiva campanha governamental em paralelo a uma consistente e séria regulamentação das redes sociais e da atuação das Big techs como um todo, a exemplo da Network Enforcement Act (NetzDG), desenvolvida na Alemanha e que tem sido difundida para a União Europeia, visando ser um referencial jurídico que obriga, através de prazos rígidos, a remoção de conteúdos de discursos de ódio e notícias falsas, por exemplo. Obviamente, não se trata aqui de propor uma mera cópia da NetzDG para o contexto brasileiro, mas sim de propor e buscar a construção dessa regulação junto à sociedade civil, em especial com as universidades e com a participação de grupos que historicamente vem sofrendo com as mais diversas formas de opressão e violência, potencializadas nos últimos anos pelas tecnologias digitais.

Portanto, precisamos compreender e promover processos de conscientização que abordem de maneira aprofundada a relação da tecnologia com a sociedade. E isso precisa estar acompanhado de uma séria regulamentação em conjunto com o desenvolvimento de artefatos tecnológicos próprios. E isso tem a ver com a construção de um Brasil que seja de fato soberano.


[i] Thomas, Hernán; Santos, Guillermo, Tecnologías para incluir: ocho análisis sociotécnicos orientados al diseño estratégico de artefactos y normativas. Carapachay: Lenguaje Claro Editora, 2016.

[ii] Urban, Samuel Penteado. Educação Popular e Tecnologia Social no Timor-Leste: o Instituto de Economia Fulidaidai-Slulu. 2020. 174 f. Tese (Doutorado em Educação Científica e Tecnológica) – Universidade Federal de Santa Catarina, 2020.

Samuel Penteado Urban – Docente da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte

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