“O mandato precisa ser instrumento da sociedade”, diz Manu Mirella

Com uma trajetória construída no movimento estudantil e na defesa da educação pública, Manu Mirella chega à disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados com a proposta de levar para o Congresso uma agenda que, para ela, precisa combinar desenvolvimento, soberania e redução das desigualdades. Nascida em Olinda e criada em Maranguape I, em Paulista, Manu foi a primeira pessoa de sua família a chegar ao ensino superior público e, desde então, passou por diferentes espaços de organização estudantil até chegar à presidência da União Nacional dos Estudantes (UNE).

A candidatura pelo PCdoB parte dessa experiência, mas olha para além da educação. Para Manu, Pernambuco precisa recuperar protagonismo no Nordeste a partir de um projeto capaz de conectar sua capacidade de produzir conhecimento à indústria, à inovação e à geração de empregos qualificados, sem deixar de enfrentar problemas como a violência contra as mulheres, a precarização do trabalho e as desigualdades entre a Região Metropolitana e o interior. “Pernambuco precisa voltar a pensar grande”, afirma.

Foi no ambiente universitário que Manu construiu parte importante de sua atuação política. Presidiu seu centro acadêmico, o DCE da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), a União dos Estudantes de Pernambuco e a UNE. Nesse percurso, participou de mobilizações pela renovação da Lei de Cotas, pela ampliação da assistência estudantil e pela defesa do orçamento das universidades.

Foto: @uiseepitacio

A experiência também marcou sua compreensão sobre o papel das políticas públicas. Manu só conseguiu permanecer na universidade porque teve acesso à assistência estudantil e hoje relaciona diretamente essa trajetória às lutas que ajudou a construir. Entre as conquistas que destaca está a aprovação da Lei nº 14.914/2024, que transformou a Política Nacional de Assistência Estudantil em uma política instituída por lei. “Quando eu falo que a educação transforma vidas, não é uma frase abstrata: eu sou resultado de uma política pública”, diz.

Para ela, disputar uma vaga na Câmara não significa abandonar essa trajetória, mas ampliar o espaço de atuação. A candidata afirma querer um Congresso que reflita melhor a composição da sociedade brasileira. “Quero disputar um Congresso que tenha mais trabalhadores, mais mulheres, mais jovens, mais gente que conhece a universidade pública não pelos discursos, mas porque precisou dela para mudar sua própria vida”, afirma.

Ciência, indústria e desenvolvimento

A proposta de Manu para Pernambuco parte de uma crítica à ideia de que o desenvolvimento estadual possa se resumir à chegada de novas empresas. O estado, em sua avaliação, já possui universidades, institutos federais, centros de pesquisa, capacidade industrial e um ecossistema de inovação que precisam ser articulados em uma estratégia de desenvolvimento.

A candidata defende uma política industrial conectada à ciência, à tecnologia e à inovação. A prioridade seria construir cadeias produtivas, desenvolver tecnologia dentro do próprio estado, gerar empregos qualificados e garantir que parte da riqueza produzida permaneça em Pernambuco.

Em 2026, cita Manu, o Governo Federal anunciou ações de ciência e inovação voltadas à redução das desigualdades regionais, incluindo R$ 150 milhões em subvenção para pesquisa, desenvolvimento e inovação no Nordeste.

Para ela, o Estado precisa ter capacidade de planejamento e indução do desenvolvimento. “Eu quero um Estado forte, planejador e soberano. Um Estado que compreenda que investir em ciência não é gasto: é estratégia de desenvolvimento”, afirma.

Essa concepção também muda a maneira como a candidata enxerga outros problemas do estado. Desenvolvimento, para ela, não pode ser medido apenas pela atividade econômica quando parte da população continua sem segurança, serviços públicos ou oportunidades. “Não existe desenvolvimento de verdade quando uma mulher não consegue andar na rua com segurança, quando uma família não tem acesso a serviços públicos ou quando um jovem precisa deixar sua cidade porque não encontra oportunidade”, diz.

Violência contra mulheres exige política pública

A violência contra as mulheres, na avaliação de Manu, precisa ser enfrentada como um problema estrutural e não apenas a partir de respostas posteriores aos crimes. Ela defende o fortalecimento da rede de proteção, a ampliação dos serviços especializados, políticas de prevenção e medidas voltadas à autonomia econômica.

Renda, educação, moradia, saúde e uma rede de proteção mais estruturada, segundo a candidata, aumentam as condições para que mulheres consigam romper ciclos de violência.

A segurança pública também deve ser pensada de forma mais ampla. Manu defende combinar prevenção, inteligência e presença do Estado com iluminação, urbanização, educação, cultura, esporte e oportunidades para a juventude.

A dimensão territorial é parte dessa discussão. Para a candidata, não é possível construir um projeto de desenvolvimento para Pernambuco concentrado na Região Metropolitana. Agreste, Zona da Mata e Sertão precisam ter acesso às mesmas possibilidades de formação, produção de conhecimento, cultura e emprego qualificado.

Juventude quer mais que sobreviver

A permanência dos estudantes na universidade é uma questão especialmente próxima de Manu. Sua própria experiência com a assistência estudantil está na origem da defesa de políticas que garantam não apenas o ingresso, mas a conclusão dos cursos.

“A primeira coisa que precisamos compreender é que não basta colocar o jovem dentro da universidade. É preciso garantir que ele consiga permanecer e concluir o curso. Eu vivi isso na prática”, afirma. A candidata defende que a assistência estudantil seja tratada como política de Estado, com ações de permanência, alimentação, moradia, transporte e acessibilidade capazes de enfrentar as desigualdades que levam à retenção e à evasão.

Mas ela também chama atenção para os jovens que estão fora das universidades. Educação básica, educação profissional, institutos federais, ciência e tecnologia e trabalho decente precisam fazer parte de uma política mais ampla para essa geração.

“A juventude não quer apenas sobreviver. Não queremos mais nossos jovens no subemprego, com mochila de iFood nas costas”, afirma.

Para Manu, o problema não se resume à renda. Os jovens querem estudar, trabalhar, morar, constituir família, produzir ciência, fazer cultura e construir o próprio futuro. Dar condições para isso também significa pensar o país a partir de sua capacidade de formar e reter uma nova geração.

“Não existe soberania sem uma juventude bem formada e não existe desenvolvimento sustentável se o país não consegue oferecer perspectivas para sua própria geração”, diz.

Renovação também passa pelas mulheres

A renovação política defendida pela candidata não é apenas uma questão de idade. Manu considera que a chegada de uma nova geração aos espaços de decisão pode alterar também quem participa deles e a forma como as instituições enxergam as necessidades da população. “Juventude não é apenas idade. É disposição para questionar estruturas que parecem imutáveis e coragem para imaginar um país diferente”, afirma.

Nesse debate, a presença das mulheres ocupa lugar central. Embora sejam maioria do eleitorado, elas continuam sendo minoria nos espaços de poder. Para Manu, ampliar essa presença é parte da própria renovação democrática. “Quando uma mulher deixa de ocupar um espaço de decisão, esse espaço não fica vazio: alguém o ocupa”, diz.

A candidata defende que meninas e mulheres reconheçam a política como um espaço que também lhes pertence e questiona a concentração da representação entre homens brancos, ricos e empresários. Para ela, os espaços de decisão precisam refletir a diversidade do povo brasileiro.

Um estado que não termine na Região Metropolitana

A interiorização das políticas públicas também aparece entre as prioridades da candidata. Manu parte da ideia de que Pernambuco não pode ser tratado como um território homogêneo e defende que as políticas sejam adaptadas às características de cada região.

“Eu acho que o primeiro passo é entender que não existe um único Pernambuco. Cada região tem suas características, suas potencialidades e seus problemas.”

Para ela, levar políticas públicas para outras regiões não significa simplesmente reproduzir um modelo da Região Metropolitana. É preciso identificar o que funciona e adaptar as iniciativas às necessidades de cada território. A proposta envolve saúde, educação, cultura, ciência, tecnologia, infraestrutura e desenvolvimento econômico. “Se queremos interiorizar oportunidades, precisamos também interiorizar conhecimento e capacidade produtiva.”

Manu cita Petrolina, Caruaru, Garanhuns e Araripina como exemplos de regiões que precisam ampliar o acesso a oportunidades de formação, inovação, emprego e produção. O objetivo, afirma, é permitir que os jovens tenham condições de construir seus projetos de vida em seus próprios territórios, sem precisar necessariamente migrar para a Região Metropolitana.

Um mandato conectado aos territórios

Se eleita, Manu afirma que pretende manter a relação com universidades, comunidades, sindicatos, movimentos de mulheres, organizações juvenis, municípios e territórios. A experiência acumulada no movimento estudantil mostrou que reivindicações só chegam ao Congresso quando existe mobilização social, organização e capacidade de transformá-las em políticas públicas.

“Eu não acredito em mandato que se encerra dentro do gabinete. Se um dia eu estiver em Brasília, quero continuar sendo a mesma pessoa que veio das ruas, da universidade e dos movimentos sociais”, afirma.

A ideia é fazer do mandato uma ponte entre Pernambuco e Brasília e, ao mesmo tempo, manter uma relação permanente de prestação de contas com a sociedade. “O mandato não pode ser propriedade de quem foi eleito. Ele precisa ser instrumento da sociedade”, diz.

A disputa de 2026, para Manu, também envolve uma escolha sobre os rumos do país. De um lado, um Brasil dependente, que exporta apenas matéria-prima, convive com a precarização do trabalho e concentra riqueza. De outro, um projeto capaz de produzir tecnologia, garantir trabalho digno, enfrentar desigualdades e ampliar a soberania nacional.

“Eu acredito em um Brasil capaz de combinar democracia, soberania, desenvolvimento e justiça social. E acredito que Pernambuco tem condições de ser parte central dessa construção.”

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