Xi chega aos EUA por estabilidade, mas cobra negociação em pé de igualdade

O presidente da China, Xi Jinping, reúne-se nesta quinta-feira (24) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. O líder chinês busca estabilizar a relação entre as duas maiores potências do globo, mas deixa claro que não aceitará tarifas e restrições tecnológicas como condição para negociar.

Xi desembarcou na quarta-feira (23) na Base Conjunta Andrews, nos arredores de Washington, acompanhado da primeira-dama Peng Liyuan. Trump foi pessoalmente ao aeroporto militar para recebê-los, uma deferência reservada a poucos visitantes estrangeiros.

A programação desta quinta começa com uma cerimônia de recepção na Casa Branca. Depois, Xi e Trump passam diante de uma formação de soldados no Jardim das Rosas, cerimônia conhecida como revista militar.

Em seguida, os dois terão uma reunião a portas fechadas, o principal compromisso político da visita. A conversa deve se concentrar na prorrogação da trégua comercial acertada no ano passado, nas tarifas impostas por Washington e nas restrições chinesas às exportações de terras raras. 

A disputa pelos chips usados em inteligência artificial, Taiwan e a guerra dos Estados Unidos contra o Irã também estarão na mesa.

A visita ocorre quatro meses depois de Trump ter sido recebido por Xi em Pequim. Será a terceira reunião presencial dos dois presidentes em menos de um ano — a primeira ocorreu em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025. Eles ainda poderão voltar a se encontrar nas cúpulas da Apec, em novembro, e do G20, em dezembro.

Pequim chama de “estabilidade estratégica construtiva” o tipo de relação que pretende estabelecer com Washington. A expressão foi incorporada pelos dois governos durante o encontro de maio e reapareceu nos textos publicados pela imprensa chinesa antes da chegada de Xi aos Estados Unidos.

A proposta parte do reconhecimento de que China e Estados Unidos continuarão divergindo, mas não precisam transformar cada disputa em uma crise. 

Em comentário publicado nesta quarta-feira (23), a agência Xinhua afirmou que “diferenças e atritos são inevitáveis” e defendeu que sejam tratados por meio de consultas em condições de igualdade.

Pequim rejeita que a relação seja organizada apenas em torno da chamada “competição estratégica”, expressão usada em Washington para justificar tarifas, sanções e limites ao acesso da China a tecnologias avançadas.

Na visão chinesa, estabilidade não pode significar a aceitação de medidas destinadas a frear o desenvolvimento do país.

Trump retomou o confronto comercial no ano passado com a imposição de novas tarifas sobre produtos chineses. As negociações abertas depois disso suspenderam parte das medidas, mas não encerraram a disputa. 

O republicano também já chegou a insunar, sem apresentar provas, que a China teria interferido na eleição de 2020, quando foi derrotado por Joe Biden — resultado que nunca reconheceu.

A restrição à venda de chips mostra como o conflito comercial passou a atingir diretamente a corrida tecnológica. Em abril de 2025, o governo Trump passou a exigir uma licença especial para a Nvidia vender à China o H20, processador usado no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. A exigência interrompeu as entregas.

Washington posteriormente liberou remessas limitadas de outro modelo, mas manteve fora do mercado chinês os chips mais avançados da empresa. O governo norte-americano invoca a segurança nacional para justificar as restrições. Pequim considera, no entanto, que os controles buscam preservar a supremacia tecnológica dos Estados Unidos e conter a ascensão de concorrentes chineses. 

Trump tratou essa disputa abertamente em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, na terça-feira (22). Foi a única passagem em que citou diretamente a China.

“Quem vencer na IA — ou na superinteligência — vence. Estamos muito à frente da China e de todos os outros, e vamos continuar assim”, afirmou.

O presidente norte-americano evitou usar a tribuna da ONU para ampliar os ataques a Pequim na véspera da visita. 

Trégua comercial é o resultado mais provável

A trégua tarifária acertada por Xi e Trump em Busan termina em 10 de novembro. Sua prorrogação é o resultado concreto mais provável da reunião desta quinta-feira.

A China quer um acordo de maior duração. O governo norte-americano discute uma extensão mais curta, de três a seis meses. Não há sinais de que os dois países estejam próximos de um tratado comercial amplo.

Um entendimento limitado poderia incluir novas compras chinesas de produtos dos Estados Unidos. Washington quer vender mais soja, carne bovina, energia e aviões da Boeing. Trump precisa apresentar resultados econômicos antes das eleições legislativas de novembro, enquanto produtores rurais norte-americanos pressionam pela recuperação do mercado chinês.

No caso da soja, a negociação também interessa ao Brasil. Se a China ampliar as compras nos Estados Unidos, parte das encomendas hoje atendidas por produtores brasileiros poderá voltar ao mercado norte-americano.

A China tem uma importante vantagem na negociação por controlar a produção e o processamento de terras raras, minerais essenciais para as indústrias de tecnologia, energia e defesa. O país restringiu as exportações depois do tarifaço de Trump e mostrou que também dispõe de instrumentos para responder às medidas de Washington.

Os Estados Unidos afirmam que o governo chinês não cumpriu integralmente os compromissos assumidos em Busan. 

Pequim sustenta que Washington foi o primeiro a romper o entendimento ao impor novas restrições a empresas chinesas. A negociação desta quinta deverá decidir se os dois lados suspendem parte dessas medidas ou iniciam outra rodada de retaliações.

Xi e Trump também podem anunciar a abertura de um canal para comunicar incidentes graves envolvendo inteligência artificial. A China se dispõe a discutir segurança e controle de riscos, mas rejeita normas que reservem aos Estados Unidos o comando sobre o desenvolvimento da tecnologia.

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