A demagogia da candidatura da extrema direita não tem limites. Pressionado pelo desgaste eleitoral e acuado pela adesão massiva do povo trabalhador à Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/2019), que extingue a escorchante escala 6×1, o senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) protagonizou uma das viradas de casaca mais descaradas da história recente.
Nesta terça-feira (13), às vésperas da votação em Plenário no Senado, Flávio declarou à imprensa que votará a favor do fim da escala 6×1. Há exatamente uma semana, porém, o mesmo candidato da extrema direita vocalizava o desprezo da burguesia financeira e patronal ao classificar a PEC como “oportunista”.
A súbita “conversão” de Flávio Bolsonaro não é convicção; é puro medo da derrota nas urnas. Trata-se do desespero de quem percebeu o abismo entre o seu projeto de precarização e os anseios do povo trabalhador.
Flávio promete o “sim”, mas assina a PEC da escravidão moderna
Ao mesmo tempo em que tenta acenar aos trabalhadores para capturar seus votos, a assinatura de Flávio Bolsonaro está cravada na PEC 12/2026, conhecida popularmente como a PEC da escravidão moderna das horas trabalhadas.
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Apresentada por seu padrinho político e coordenador de campanha, Rogério Marinho (PL-RN), a PEC 12/2026 altera o artigo 7º da Constituição para liquidar os pilares da CLT. Na prática, a proposta que Flávio coassina traz consequências devastadoras.
A proposta da escravidão moderna subverte a lógica da proteção trabalhista ao introduzir o pagamento exclusivo por hora efetivamente trabalhada, fazendo com que o patronato remunere apenas os minutos em que o trabalhador estiver ativamente produzindo no chão de fábrica ou no balcão. Esse modelo liquida a previsibilidade salarial e transforma o tempo de disposição ao emprego em uma mercadoria fragmentada e incerta.
Na prática, a medida promove a destruição de conquistas históricas da classe trabalhadora, reduzindo o 13º salário, as férias remuneradas e o FGTS a parcelas proporcionais e irrisórias, calculadas estritamente sobre a jornada picotada. Como golpe final, o texto aniquila o papel dos sindicatos ao impor a prevalência do contrato individual “flexível” sobre as convenções e acordos coletivos, deixando o trabalhador isolado e sem força de negociação diante das exigências do empresariado.
Enquanto a PEC 221/2019 garante dois dias de folga semanais com salário integral, o projeto real da chapa bolsonarista institucionaliza o bico permanente e a jornada sob medida do empregador.
Como se não bastasse, na mesma entrevista em que anunciou apoio à proposta de alívio para a jornada laboral, Flávio defendeu que o Estado transfira recursos públicos para indenizar o empresariado: “quem vai pagar essa conta vai ser o governo, porque os empresários estão sufocados”. Ou seja: arrocho para quem trabalha, bolsa-empresário com o dinheiro dos impostos do povo.
O DNA do retrocesso: Os patrões no comando da campanha
A hipocrisia da candidatura bolsonarista fica ainda mais evidente ao se analisar a composição do seu núcleo duro. O comandante de sua campanha é ninguém menos que Rogério Marinho, o nefasto relator da Reforma Trabalhista de 2017 (Lei 13.467/2017), responsável por rasgar direitos, multiplicar a precarização e enfraquecer a negociação coletiva no país.
Marinho, inclusive, foi um dos quatro senadores de extrema direita que votaram contra o relatório de Omar Aziz na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), tentando barrar a tramitação do fim da escala 6×1 até o último minuto.
Alem disso, o histórico do próprio candidato fala por si. Em 2019, Flávio Bolsonaro votou favoravelmente e com entusiasmo à Reforma da Previdência (PEC 6/2019), empurrando a aposentadoria para longe da realidade da maioria dos brasileiros.
Virar o voto na rua para derrotar o oportunismo
Não há garantia alguma de que, se eleito, Flávio manterá o compromisso assumido por mero cálculo eleitoral. Reportagens da imprensa já indicam articulações nos bastidores com a bancada patronal e empresários para “revisar e desidratar” os pontos centrais da 6×1 em caso de vitória no pleito.
A mudança súbita de postura de Flávio Bolsonaro deixa uma lição central para a reta final da campanha: a força da classe trabalhadora organizada e a pressão das ruas dobram até os mais ferrenhos defensores do patronato.
Se Flávio pode mudar o voto a favor do fim da escala 6×1 só para não perder votos, é totalmente possível virar o voto de quem votou nele no primeiro turno. É hora de ocupar os locais de trabalho, as periferias e as redes para desmascarar a farsa, dialogar com quem foi enganado no 1º turno e mostrar que o verdadeiro caminho da dignidade passa pela garantia e ampliação dos direitos históricos do povo brasileiro.