O escritório de advocacia de Michel Temer (MDB) firmou um contrato de até R$ 30 milhões com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, para tentar viabilizar a venda da instituição financeira ao Banco de Brasília (BRB). As informações foram publicadas pelo jornal O Globo, nesta quarta-feira (14), a partir de documentos e mensagens trocadas entre ex-banqueiro e o publicitário Elsinho Mouco, interlocutor do ex-presidente.
O acerto, assinado em 3 de setembro de 2025, previa o pagamento de R$ 10 milhões em honorários iniciais, divididos em duas parcelas de R$ 5 milhões, e uma taxa de êxito de R$ 20 milhões condicionada à aprovação da transação pelo Banco Central (BC). A operação, no entanto, acabou vetada pela autoridade monetária.
Procurados, nem Temer nem Mouco se manifestaram.
Estratégia regulatória e pressão jurídica
O contrato previa a atuação da banca jurídica em frentes estratégicas para destravar a negociação com o banco público do Distrito Federal. Entre as atribuições do escritório estavam o acompanhamento de ações judiciais e o pedido de mediação junto a órgãos reguladores.
A banca também deveria atuar em uma representação no Tribunal de Contas da União (TCU) distribuída ao ministro Jhonatan de Jesus. A denúncia havia sido apresentada pelo Bluebank, integrante do mesmo grupo financeiro do Master.
Outra meta descrita no documento visava anular eventuais decisões do BC que tivessem a participação do diretor Renato Lemos. A instituição atribuía a Lemos uma conduta “equivocada e prejudicial à negociação”, apontando-o como responsável pela demora na análise do processo.
Cobranças e ligações diretas com o ex-presidente
A troca de mensagens aponta que a formalização do acordo foi seguida por cobranças frequentes de honorários feitas por Mouco. Registros mostram pedidos de comprovantes de transferência e apelos à tesouraria do Master.
Em 4 de setembro de 2025, o publicitário enviou mensagem a Vorcaro: “Assim que assinar o contrato e fizerem a transferência me envia o comprovante. Vamos à luta!”. Já em 11 de novembro, Mouco confirmou o recebimento parcial de valores ao escrever que “entrou a metade”. A documentação, contudo, não permite confirmar se houve o pagamento integral das parcelas iniciais.
Além do papel de intermediação exercido por Mouco, os registros revelam contatos telefônicos diretos entre Temer e Vorcaro. Em 5 de setembro, dois dias após o envio do contrato, o ex-presidente enviou uma mensagem pedindo contato: “Qdo pud er me ligue”. Naquele mesmo dia, ambos conversaram por telefone durante dois minutos e 16 segundos, ligação repetida em outras datas daquele mês.
Encontros no exterior e desfecho das negociações
A aproximação entre as partes resultou ainda na organização de agendas internacionais. Em novembro de 2025, Temer articulou reuniões para Vorcaro nos Emirados Árabes Unidos.
Em mensagem enviada ao banqueiro, o ex-presidente indicou o agendamento de compromissos no Hotel Raffles, em Dubai, reunindo interlocutores locais e do Iraque.
As tratativas foram interrompidas em 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, enquanto tentava embarcar para Dubai. A prisão ocorreu após o fracasso de uma nova tentativa de negociação do Master, desta vez com o grupo Fictor, também travada por objeções do Banco Central.
A relação de negócios antecedia a crise da instituição. As conversas entre os investigados remontam a outubro de 2023, quando a família de Vorcaro, por meio do fundo Moriah Asset, adquiriu uma cota de R$ 1 milhão para patrocinar o documentário “963 Dias”, obra sobre a trajetória política de Temer produzida a um custo total de R$ 12 milhões.