Vote deputados do PSol para garantir legalidade da esquerda radical

A estratégia sem tática é o caminho mais lento para a vitória.
Tática sem estratégia é o ruído antes da derrota.
Sun Tzu, A arte da guerra

1 Quase ninguém sabe, mas para manter o acesso ao Fundo Partidário, ao Fundo de Financiamento de Campanha (FEFC/Fundo Eleitoral) e ao tempo gratuito de propaganda na televisão e no rádio após as eleições de 2026, os partidos políticos precisam superar os critérios da cláusula de barreira. As metas de votação foram aprovadas durante o mandato de Michel Temer em 2017. Na prática isso significa que, se o PSol não atingir essas metas, embora possa concorrer, estará fora da legalidade, porque sem esses recursos será “invisível”. Se o PSol não obtiver pelo menos 2,5% da votação nacional para deputados federais perde a legalidade. O que isso representa? O total de votos válidos para deputado federal no Brasil em 2022 somou 107.857.734 votos, de acordo com as estatísticas oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quantos serão em 2026? A rigor é imprevisível. Ao todo, serão 158,7 milhões de eleitores. Este número representa um crescimento de 1,46% em comparação com 2022, quando o país tinha 156,4 milhões eleitores. São 2,29 milhões de eleitores a mais. Já a taxa de abstenções – eleitores que não compareceram – foi 20,95% (32,77 milhões de eleitores) no primeiro turno e de 20,59% (32,20 milhões de eleitores) no segundo turno, mas a quebra da votação para deputado federal foi de mais cinco milhões. Pela primeira vez desde 1989 foi menor no segundo turno, quando meio milhão a mais apareceram.

2 Não é possível fazer previsão de quantos votos válidos para deputado federal o PSol vai precisar, em 2026, mas é razoável calcular que serão necessários em torno de três milhões, talvez um pouco menos, para superar os 2,5% com alguma folga. O PSol obteve 3.590.155 votos em 2022 o que permitiu superar bem a cláusula de barreira. Mas Guilherme Boulos em São Paulo recebeu sozinho 1.001.472 votos, e este ano não é candidato. Uma votação nesta escala responde ao apelo do candidato, não somente do partido. Mas o desafio é ainda mais complicado porque esses três milhões de votos não podem estar concentrados: devem estar distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação (9 estados ou 8 estados + Distrito Federal). Em cada uma dessas unidades da Federação, o partido precisa obter ao menos 1,5% dos votos válidos. Nas eleições de 2022, o PSOL superou a marca de 1,5% dos votos válidos para deputado federal em 12 estados, isoladamente. Se contabilizado o desempenho conjunto da Federação PSOL REDE, esse patamar de 1,5% foi superado em 14 estados. Mas ninguém pode prever o que vai acontecer agora em 2026. Além de São Paulo e Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Brasília, será fundamental garantir, pelo menos. Sergipe, Santa Catarina, Espírito Santo e Paraíba. Ninguém se iluda que isso será fácil.

3 O PSol precisa de uma grande votação para deputado federal para preservar a plena legalidade. Seja qual for o desfecho das eleições presidenciais, as lutas sociais e populares vão precisar, também, do PSol. Se Lula vencer o Psol será necessário para defender a legitimidade da vitória diante da mais do que provável contestação que o bolsonarismo irá fazer com um apoio anunciado do governo Trump. Se Lula perder o Psol será necessário na construção de uma oposição firme e combativa que terá de ser construída em condições muito difíceis, porque devemos ser conscientes que um segundo mandato da extrema-direita será mais devastador ainda do que o primeiro. O perigo de uma desmoralização terrível na esquerda será imenso. O PT permanece ainda o partido de esquerda mais influente no Brasil. A rigor é um dos maiores do mundo em que vivemos. Atravessou os últimos quarenta e cinco anos com grandes transformações. Mas há um campo de esquerda que compartilha simpatia tanto pelo PT como pelo PSol, e vota em candidaturas majoritárias do PT como Lula e Haddad, ou Patrus e Benedita, e proporcionais do PSol, porque é uma ferramenta combativa para dar voz e apoiar as demandas dos trabalhadores, do movimento estudantil, LGBT’s, indígenas, ambientais, negros, feministas e de direitos humanos.

A esquerda brasileira é plural, mas a preservação do PSol como partido independente se confirmou, mais do que nunca, necessária desde a eleição de Lula em 2022. Foi essencial a presença de um partido da esquerda radical na legalidade para alertar sobre os limites do arcabouço fiscal, sobre o perigo da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, para denunciar a ameaça da explosão de violência contra as mulheres, inclusive a epidemia de feminicídios, entre tantas causas justas

4 A esquerda brasileira é plural, mas a preservação do PSol como partido independente se confirmou, mais do que nunca, necessária desde a eleição de Lula em 2022. Foi essencial a presença de um partido da esquerda radical na legalidade para alertar sobre os limites do arcabouço fiscal, sobre o perigo da exploração de petróleo na Foz do Amazonas, para denunciar a ameaça da explosão de violência contra as mulheres, inclusive a epidemia de feminicídios, entre tantas causas justas. Ao longo do ano passado o PSol foi fundamental na construção das quatro grandes mobilizações de massas de 2025. Foi assim no 30 de março quando liderou a convocação dos Atos de 30 de março para denunciar o golpe militar de 1964. De novo, foi assim na preparação das manifestações de 10 de julho, contra o tarifaço de Trump, 21 de setembro contra a anistia dos golpistas, 7 de dezembro nas marchas Mulheres Vivas, e contra a PEC da blindagem de 14 de dezembro. Foi o PSol, também, que assumiu a iniciativa da campanha pelo fim da Jornada 6×1. Este protagonismo não teria sido possível sem a conquista da representação institucional. Nestas eleições quatro partidos da esquerda radical apresentaram candidaturas à presidência: UP, PSTU, PCB e PCO. Nenhum deles conseguiu um mínimo de expressão pública. São várias as razões para esta invisibilidade, mas o bloqueio de acesso não é a menor delas. A eleição de deputados federais é essencial para garantir um mínimo de usufruto da legalidade.

A votação para o Senado responde a uma necessidade vital, porque conquistar maioria é a segunda prioridade da extrema-direita. Recordemos como foi importante, durante a pandemia, a instalação da CPI da covid, porque o bolsonarismo não tinha o domínio do Senado. Não será diferente para proteger a governabilidade de Lula

5 A influência do Psol cresceu nos últimos quatro anos, e é possível esperar que, mais uma vez, as exigências da cláusula de barreira serão superadas. Mas trata-se de um desafio, e devemos ter a mente alerta de que a luta se decidirá na última semana. Não se ganha eleição por antecipação. Será somente na última semana que a imensa maioria dos eleitores de esquerda irá escolher seus candidatos proporcionais. O Psol tem até candidaturas muito bem localizadas disputando a eleição para o Senado. Este ano cada eleitor poderá votar em duas candidaturas para o Senado, mas são muito poucos que sabem desta dupla escolha e, embora sejam majoritárias, não têm segundo turno. Ainda que as pesquisas para o Senado sejam limitadas pela margem de erro, Manuela D’Ávila permanece em primeiro lugar no Rio Grande do Sul. Áurea Carolina em Minas e Monica Benício no Rio de Janeiro pontuam bem, assim como Luizianne Lins pela Rede no Ceará. A votação para o Senado responde a uma necessidade vital, porque conquistar maioria é a segunda prioridade da extrema-direita. Recordemos como foi importante, durante a pandemia, a instalação da CPI da covid, porque o bolsonarismo não tinha o domínio do Senado. Não será diferente para proteger a governabilidade de Lula. O PSol é a esquerda radical que defende a necessária unidade da esquerda, ampliada a outras forças progressistas, contra a catastrófica ameaça do neofascismo. Mas, o PSol precisa ser preservado. Seria um erro estratégico fundir, organicamente, o PSol ao PT por meio de federações permanentes. Manter o PSOL independente garante a existência de uma alternativa à esquerda do PT. Nas condições da luta política do Brasil, a construção de um partido socialista amplo e de tendências organizadas – como o PSOL – é o projeto mais promissor para unificar a esquerda radical no país, diante do triste impasse da dispersão das organizações revolucionárias isoladas.

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