A Argentina serve hoje como um laboratório a céu aberto dos estragos provocados pelo ultraliberalismo radical. Sob o comando de Javier Milei, o país vizinho acumulou o fechamento de 32.290 empresas entre a posse de Milei, no final de 2023 e julho de 2026, uma queda de 6,3% no número de empregadores, segundo dados da Superintendência de Riscos do Trabalho (SRT).
A política econômica de choque e austeridade fiscal radical — apelidada por ele próprio de “modelo motosserra” — vem deixando uma espessa esteira de destruição no setor produtivo do país vizinho. O número de empregadores ativos no sistema de seguro recuou 6,3%, registrando uma inédita sequência de 18 meses consecutivos de queda. Fábricas históricas, como a de sapatos Kioshi e a química Clariant, fecharam as portas ou demitiram massivamente, incapazes de competir com a avalanche de produtos estrangeiros e o custo elevado do crédito.
O resultado prático da “motosserra” mileísta é o aumento da pobreza, a destruição da indústria nacional e a precarização do trabalho. O fenômeno argentino converteu-se em um espelho incômodo para o debate político brasileiro. O programa de governo de Flávio Bolsonaro (PL) projeta replicar uma política de austeridade fiscal de magnitude inédita no Brasil, prevendo um “tesouraço” de R$ 250 bilhões em cortes de gastos públicos para o próximo ciclo orçamentário.
Economistas e analistas do setor industrial alertam que a aplicação desse modelo de “ajuste de choque” corre o risco de desencadear no mercado interno brasileiro a mesma paralisia comercial, desemprego e desmonte empresarial observados na Argentina. O “tesouraço” nos gastos públicos, na prática, significará a “argentinização” da economia brasileira.
A morte do mercado interno e a desindustrialização
O colapso das pequenas e médias empresas (PMEs) argentinas não ocorreu por acaso. O modelo econômico de Milei baseia-se em um superávit fiscal obtido à custa do sufocamento do mercado interno. O corte drástico de subsídios, o aumento de tarifas e a abertura indiscriminada às importações criaram um ambiente hostil para as pequenas e médias empresas (PMEs) e para a indústria local.
Com a eliminação drástica de subsídios públicos para tarifas de energia, gás e transporte, aliada ao arrocho salarial que não acompanhou a alta acumulada dos preços, as famílias argentinas viram seu orçamento ser corroído. O consumo das famílias despencou, atingindo em cheio o comércio e os serviços locais.
As compras de bens de consumo do exterior na Argentina cresceram 34,7% no primeiro semestre de 2026, enquanto a produção industrial recuou 12%. Sem crédito acessível e arcando com contas de energia e aluguel inflacionadas, milhares de pequenos negócios não resistiram. A fábrica de calçados Kioshi, nos arredores de Buenos Aires, tornou-se o símbolo do setor: reduziu seu quadro de 120 funcionários para apenas 14, operando em galpões às escuras para poupar energia.
O que o governo de Milei celebra como “ganho de competitividade” é, na verdade, um processo acelerado de desindustrialização. A economia argentina se transformou em um modelo de “duas velocidades”: de um lado, os setores de exportação (agronegócio, mineração, energia e finanças), que geram dólares; do outro, o comércio, a indústria e os serviços voltados para o consumo interno, que encolhem e demitem.
Pobreza em alta e a crueldade como política de Estado
O custo social da austeridade fiscal é devastador caso seja executado por meio de um corte cego e imediato de gastos públicos e fim de incentivos à indústria nacional, repete a mesma premissa fiscalista que paralisou a economia argentina. No primeiro semestre de 2026, a pobreza na Argentina subiu de 28,2% para 32,3%, atingindo 9,7 milhões de pessoas. A indigência também avançou, chegando a 7,5% da população. O desemprego formal bateu 7,9%, e quase metade da força de trabalho está agora na informalidade, sobrevivendo de “bicos” e aplicativos de transporte.
De acordo com levantamentos do setor, a indústria de manufatura argentina já perdeu mais de 90 mil postos de trabalho diretos desde agosto de 2023. No total, o setor privado formal perdeu mais de 240 mil vagas com carteira assinada.
A resposta de Milei ao sofrimento de seu povo revela a face mais cruel desse projeto econômico. Ao ser questionado sobre a dificuldade de 80% dos argentinos para sobreviver, o presidente afirmou: “Com o que eles vão viver, ar? O que eles vão comer, ar? O que eles vão beber, ar?”. Para o líder ultraliberal, o fechamento de empresas e a perda de empregos formais são apenas um “efeito colateral” natural: “Aqueles que estão em pior situação, se não se adaptarem, irão à falência”, declarou.
O “Tesouraço” de Flávio Bolsonaro: O mesmo projeto para o Brasil
É exatamente esse modelo de Estado mínimo, desmonte de políticas públicas e submissão aos interesses do capital financeiro especulativo que Flávio Bolsonaro promete para o Brasil, ao ser executado por meio de um corte cego e imediato de gastos públicos e fim de incentivos à indústria nacional. O “tesouraço” de R$ 250 bilhões anunciado por sua campanha não é um simples ajuste fiscal; é uma demolição planejada.
Para cortar um quarto de trilhão de reais, Flávio Bolsonaro terá necessariamente que atacar os pilares que sustentam a economia brasileira e a vida do trabalhador: o Bolsa Família, o reajuste do salário mínimo, o Farmácia Popular, o Minha Casa Minha Vida e os investimentos em universidades e institutos federais.
Assim como na Argentina, o corte de R$ 250 bilhões retirará poder de compra da base da pirâmide. Sem dinheiro no bolso, o consumo das famílias brasileiras despencará. Sem consumo, as pequenas e médias empresas brasileiras — que são responsáveis pela maior parte dos empregos formais no país — enfrentarão o mesmo destino das fábricas argentinas: falência em massa.
Enquanto o governo Lula aposta na reindustrialização, no fortalecimento do mercado interno e na geração de empregos de qualidade, Flávio Bolsonaro e sua ideologia mileísta querem transformar o Brasil em um país de exportadores de commodities e importadores de manufaturados, com uma massa de trabalhadores precarizados, sem direitos e sem poder de consumo.
A eleição de 25 de outubro, portanto, não é apenas uma disputa entre dois candidatos. É a escolha entre um Brasil que protege sua indústria, valoriza o trabalho e garante direitos, ou um Brasil que aceita o desastre argentino como destino, com 32 mil empresas a menos, mais pobreza e um presidente que, diante do desemprego e da fome oferecerá a escandalosa fila do osso do governo de seu pai, Jair Bolsonaro.