A Uefa prepara uma denúncia criminal na Suíça contra Gianni Infantino pela tentativa de vender a investidores privados uma participação nos direitos comerciais da Fifa. O negócio previa a captação de US$4 bilhões em troca de uma fatia de 20% de uma nova empresa que concentraria receitas da Copa do Mundo e de outras competições.
O principal investidor seria a Thrive Eternal, ligada à Thrive Capital, de Joshua Kushner. Ele é irmão de Jared Kushner, genro e ex-assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Em documentos apresentados à Justiça norte-americana, a Uefa afirmou que prepara acusações contra Infantino e possivelmente outros dirigentes e assessores da Fifa por “gestão criminalmente danosa”.
A entidade busca acesso a documentos da Thrive Capital e da filial da Fifa nas Américas para reunir provas sobre a formulação e a avaliação do negócio.
Direitos avaliados abaixo do mercado
O projeto, chamado Fifa Forward Enterprise (FFE), avaliava a nova empresa em US$20 bilhões. A Uefa classificou esse valor como “absurdamente baixo” e sustenta que os direitos comerciais da Fifa valeriam mais de US$30 bilhões.
Segundo a entidade europeia, a proposta foi negociada sem concorrência entre investidores e sem uma avaliação independente dos ativos. A Uefa também acusa Infantino de conduzir as tratativas com um grupo restrito de assessores, sem consultar previamente o Conselho da Fifa e as federações nacionais.
A operação separaria as atividades comerciais da Fifa de suas atribuições como responsável pelas regras e pela organização do futebol mundial. O fundo de Joshua Kushner receberia uma participação permanente nas receitas produzidas pelas competições da entidade, sobretudo pela Copa do Mundo masculina.
A Fifa é formalmente uma organização sem fins lucrativos, mas movimenta bilhões de dólares com direitos de transmissão, patrocínios e venda de ingressos. Infantino afirmou durante a Copa de 2026 que a entidade arrecadaria mais de US$15 bilhões no ciclo de quatro anos encerrado neste ano.
Fifa admite erros, mas nega irregularidades
Infantino retirou a proposta em 31 de julho, depois da reação de federações e confederações.
“Ficou claro que o projeto criou divisões que já não atendem ao objetivo inicialmente estabelecido”, declarou de forma cínica na ocasião. O presidente da Fifa alegou que pretendia aumentar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol nos países mais pobres.
Dias depois, a direção da Fifa admitiu que houve erros na condução e na comunicação do projeto e reconheceu que o Conselho e as federações nacionais se sentiram excluídos. A entidade, no entanto, sustentou que todos os atos respeitaram suas normas internas e anunciou uma revisão própria do processo.
A Uefa rejeitou essa solução e cobrou uma investigação externa. “A Fifa não pode investigar a si mesma e esperar que a comunidade do futebol simplesmente aceite suas conclusões”, afirmou a entidade após uma reunião realizada na quinta-feira (27), em Mônaco.
Pressão pela saída de Infantino
A desistência levou a Uefa a suspender a ameaça de boicotar as competições da Fifa. As seleções europeias disputarão o próximo Mundial Feminino Sub-20, na Polônia, mas a entidade advertiu que poderá rever a decisão caso o projeto reapareça com outro formato.
A disputa agora se concentra na permanência de Infantino no comando da Fifa. A Uefa defende uma mudança na direção da entidade e prometeu procurar um candidato alternativo caso o dirigente concorra a um novo mandato.
Infantino ainda conta com o apoio de federações da África, da América do Sul e do Oriente Médio. A Arábia Saudita, escolhida para sediar a Copa do Mundo de 2034, manifestou apoio ao dirigente e afirmou que sua contribuição para o crescimento do futebol deve ser reconhecida.
A Fifa e a Thrive Capital não haviam respondido às acusações até a publicação das primeiras reportagens sobre os documentos judiciais.