“Temos que proibir tudo”: Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP defende fim das apostas online

Na noite de quinta-feira (24), véspera do dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende lançar uma Medida Provisória para acabar com as “bets” no país, o médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, Gonzalo Vecina, concedeu uma entrevista ao jornalista Luís Nassif onde classificou a proliferação das apostas online como uma verdadeira tragédia para a saúde pública. Ele argumentou que o jogo virtual é altamente viciante e impossível de resistir uma vez iniciado, destacando que a ilusão de enriquecer ou pagar dívidas por meio dessas plataformas é inexistente. Para o especialista, a reativação desse sistema de apostas representa um crime que atinge de forma devastadora a parcela mais sofrida e pobre da população.

Do ponto de vista sanitário, Vecina defendeu que a única alternativa viável para poupar o povo brasileiro é a proibição total das apostas online. Embora reconheça que a medida possa alimentar um mercado paralelo, ele ressaltou que o Estado deve utilizar os instrumentos de repressão previstos em lei para combatê-lo. O médico explicou que, como as transações do jogo clandestino ocorrem por meio de contas correntes ou cartões de crédito, o Banco Central possui plena capacidade tecnológica para mapear e bloquear essas operações financeiras, aproveitando que o sistema bancário nacional é altamente informatizado e avançado em termos de controle.

Ao analisar o vício sob a ótica médica, Vecina explicou que a dependência do jogo possui manifestações neurológicas semelhantes a outras adições, como o tabagismo ou o uso de substâncias químicas. O que alimenta o jogador é a emoção e a expectativa de ganho, estímulos produzidos pelo próprio organismo que o impulsionam a continuar jogando até esgotar seus recursos financeiros. Ele apontou que existem tratamentos psicoterápicos e medicamentos capazes de diminuir a sensação de prazer e a aflição de jogar, mas enfatizou que a recuperação depende fundamentalmente da vontade individual do paciente em querer parar, classificando clínicas de isolamento forçado como uma bobagem que apenas piora a situação.

Por fim, o médico destacou que o Sistema Único de Saúde (SUS) precisa se preparar melhor, capacitando psicólogos e psiquiatras para acolher essa imensa população de viciados. Vecina comparou o desafio atual das “bets” com o histórico de combate à AIDS no Brasil, lembrando que o sucesso do tratamento público e gratuito pelo SUS só foi alcançado porque a sociedade civil e as organizações não governamentais se mobilizaram e exigiram uma postura firme do Estado. Para ele, a superação dessa nova crise sanitária também dependerá da conscientização e da pressão da sociedade para complicar o acesso aos jogos e garantir assistência terapêutica adequada.

Proibição por Lula

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva prepara uma Medida Provisória (MP) que poderá proibir as plataformas de apostas on-line, conhecidas como bets, no Brasil. O texto ainda estava em elaboração nesta quinta-feira (24), e a possibilidade de uma proibição total, incluindo apostas esportivas e jogos on-line, como o chamado “Tigrinho”, era apontada como o cenário mais provável. A medida poderia ser assinada por Lula nesta sexta-feira (25).

A proposta representa um endurecimento em relação ao modelo criado pela Lei nº 14.790, de 2023, que regulamentou as apostas de quota fixa no país. O governo avalia estabelecer um prazo curto para que as empresas encerrem as operações. Também está em discussão o alcance das restrições sobre publicidade e outras formas de atuação das plataformas.

O debate ocorre em meio a uma série de dados que apontam para o crescimento das apostas e seus efeitos sobre a renda das famílias. Segundo o Boletim Fiscal dos Estados, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado, as famílias brasileiras tiveram uma perda líquida estimada em R$ 62,5 bilhões com as bets em 2025. No mesmo período, as plataformas movimentaram cerca de R$ 351 bilhões em transações via Pix.

Assista à entrevista completa abaixo:

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