Sucateamento da segurança pública de SP faz policiais venderem rifa para manter delegacia

Policiais protestam por melhores condições de trabalho, no centro de SP (crédito: divulgação/Alesp)

Investigadores e escrivães da Polícia Civil do Estado de São Paulo, do município de Presidente Prudente, de 225 mil habitantes, foram solicitados pelos delegados de seus distritos a comercializar entre familiares e amigos bilhetes de rifa, no valor de R$ 10, com um prêmio de R$ 1.000 para o vencedor, no início deste mês.

O objetivo era recolher fundos e equipar as delegacias da cidade, que vêm enfrentando problemas com restrições orçamentárias, que teriam se tornado insustentáveis desde o início deste ano.

O governo de Tarcísio de Freitas aportou 48% menos recursos em investimentos na segurança pública, uma de suas principais bandeiras políticas, do que a gestão anterior, liderada por João Doria e Rodrigo Garcia.

Em alguns casos, essa queda de investimentos gerou revolta nos policiais civis, que se traduziu, por exemplo, em outdoors como os que foram espalhados na cidade de Sorocaba e região. Veja abaixo.

Outdoor na cidade de Sorocaba critica a falta de investimentos na Polícia Civil de SP (crédito: reprodução)

Já no caso de Presidente Prudente, a consequência da penúria orçamentária foi a busca por uma solução pouco ortodoxa e ilegal: a criação de uma rifa que promove prêmio em dinheiro, ou seja, uma APOSTA, sem qualquer regulamentação ou autorização emitida pelos órgãos competentes.

Assim, os policiais de Prudente passaram a tentar vender suas rifas para familiares e amigos. Um desses investigadores, da Delegacia de Proteção ao Idoso, fez até uma imagem, utilizando inteligência artificial, para sensibilizar os parentes. Segue abaixo.

Policiais civis em Presidente Prudente vendem rifas para obter recursos para a corporação (crédito: reprodução)

A tentativa de ajudar, pórém, gerou mais problemas do que os delegados de Prudente imaginavam. A reportagem do DCM conversou – sob a condição de manter a identidade das fontes preservadas, para evitar retaliações – com três poliviais civis de São Paulo e outro de Presidente de Prudente. Todos fizeram o mesmo relato:

– As rifas começaram a ser vendidas em Presidente Prudente no início do mês de agosto. Havia uma orientação clara de alguns dos delegados de polícia de Prudente para que as seus escrivães e investigadores vendessem as trifas de maneira discreta, apenas para amigos e parentes.

– Um dos policiais produziu uma imagem com inteligência artificial (acima) para auxiliar nas vendas. Esta imagem acabou vazando em grupos de Whatsapp de policiais civis da capital paulista.

– A rifa chegou ao conhecimento da cúpula da Polícia Civil, que ordenou que a vendagem de bilhetes e o sorteio ilegal em dinheiro fossem imediatamente interrompidos e cancelados. Quem já tivesse comprado os bilhetes, deveria receber seu dinheiro de volta.

Curiosamente, a Polícia Civil de São Paulo vem combatendo com afinco as quadrilhas que promovem rifas ilegais no estado. No ano passado, por exemplo, uma gangue desse tipo foi desbaratada pelos policiais no município de São José dos Campos.

Polícia Civil combate venda de rifas ilegais em São Paulo (Crédito: reprodução)

Procurada pelo DCM, para se manifestar a respeito do tema, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

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