Sob pressão dos EUA, Cuba recebe solidariedade e amplia resistência

A nova edição do Entrelinhas Vermelhas, programa do Portal Vermelho, coloca Cuba no centro do debate nesta terça-feira (22). Apresentado por Inácio Carvalho, o episódio recebe Ana Maria Prestes, secretária de Relações Internacionais do PCdoB, para discutir o agravamento das dificuldades enfrentadas pela população cubana diante das medidas de pressão econômica dos Estados Unidos. A conversa revelou não apenas os dados brutos da asfixia econômica, mas também o espírito de resistência popular que desafia a narrativa de colapso promovida pela mídia ocidental.

A conversa parte de uma entrevista recente do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, na qual ele descreve a tentativa de asfixiar economicamente o país como uma estratégia destinada a produzir uma crise social e pressionar pela ruptura com o governo cubano. No programa, a discussão se concentra menos em uma eventual ação militar direta e mais nos efeitos cotidianos do cerco econômico e energético.

Segundo o relato de Ana Maria Prestes, que esteve em Cuba duas vezes em 2026, inclusive por cerca de dez dias em agosto, o impacto da falta de combustível é visível na rotina de Havana. Ela descreve dificuldades de transporte, apagões prolongados e obstáculos para o funcionamento de serviços públicos.

Assista a íntegra da entrevista:

Energia no centro da crise

Ana Prestes classificou a atual conjuntura como uma “guerra sem bombas”, cujos efeitos são devastadores no cotidiano. “Você percebe um cenário de luta por sobrevivência diante de um ataque… Ele não é um ataque com bombas como Gaza, mas ele tem efeitos de uma guerra sem bombas”, afirmou a analista. Ela destacou apagões que chegam a 20 horas diárias, a ausência total de ônibus urbanos convencionais — substituídos por triciclos elétricos improvisados ou longas caminhadas de quilômetros — e o impacto direto na saúde pública, incluindo atrasos vacinais e dificuldades no acesso a tratamentos oncológicos e hemodiálise.

A entrevistada descreve também iniciativas adotadas pela população para lidar com a situação, entre elas o uso de energia solar, sistemas comunitários de armazenamento e diferentes formas de transporte alternativo. A instalação de placas fotovoltaicas teria se convertido, segundo ela, em uma das prioridades nacionais.

O quadro, entretanto, não é apresentado apenas como demonstração de capacidade de adaptação. Ana relata que encontrou também sinais de cansaço e dificuldades sociais crescentes. Ana relata ter ouvido reclamações da população sobre transporte, abastecimento, saúde e distância dos familiares. Entre os problemas mencionados na área da saúde estão falta de alimentos, dificuldades no atendimento médico, restrições a tratamentos de maior complexidade e problemas relacionados ao pré-natal e à vacinação.

A entrevista coloca, assim, duas dimensões simultâneas da realidade cubana: de um lado, a capacidade de organização diante da escassez; de outro, o desgaste produzido pela duração e pela intensidade das dificuldades.

Heroísmo cotidiano e criatividade cubana

Apesar do quadro sombrio, o relato de Ana Prestes evidenciou uma contradição fascinante: a alta disposição de viver e criar soluções coletivas. A delegação brasileira testemunhou o que chamou de “heroísmo prático”. Exemplos incluem a instalação massiva de placas fotovoltaicas residenciais, vistas como uma missão nacional para aproveitar o sol caribenho que “não pode ser bloqueado”, e técnicas comunitárias de conservação de alimentos usando gelo e caixas térmicas compartilhadas entre vizinhos.

A Feira do Livro de Havana foi citada como símbolo dessa resiliência. Realizada sem eletricidade adequada e em pleno calor intenso, a feira operou com sistemas manuais de venda e controle de estoque, demonstrando que a cultura permanece viva mesmo quando os recursos básicos escasseiam. “Tudo tem um ar de heroísmo… Eles estão fazendo isso aqui na base do heroísmo mesmo, porque não existe condição de fazer [de outra forma]”, observou ela, referindo-se também aos professores que percorrem até 15 km a pé para dar aulas.

Da ameaça militar à pressão social

A dirigente do PCdoB também compara suas duas viagens de 2026. Em março, segundo seu relato, havia entre os interlocutores cubanos uma preocupação maior com a possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos. Em agosto, sua percepção foi diferente: a pressão estaria mais concentrada na tentativa de provocar um quadro de insatisfação social.

A cientista política relaciona esse processo à atuação nas redes sociais e à circulação de conteúdos destinados a contrapor a realidade cubana à vida de cubanos emigrados. Ela interpreta essa disputa informacional como parte de uma estratégia mais ampla de pressão sobre o governo.

O programa também aborda as consequências do bloqueio sobre mercadorias que, segundo Prestes, permanecem em portos de países próximos sem conseguir chegar à ilha. Ela aponta a energia como o principal gargalo nesse processo.

Ao mesmo tempo, ela destaca mecanismos de solidariedade comunitária e iniciativas destinadas a manter serviços e atividades sociais funcionando. O contraste entre o agravamento das condições materiais e a continuidade da mobilização social constitui o eixo central da resistência.

O legado de Fidel e a ideia de resistência

O centenário de Fidel Castro, celebrado em agosto, ocupa outro espaço importante na conversa. Ela relata ter acompanhado em Havana eventos organizados em torno do centenário, incluindo o colóquio Fidel: Legado e Futuro e atividades culturais. Em sua avaliação, a programação procurou relacionar as ideias do líder cubano aos desafios contemporâneos, incluindo redes sociais e circulação de desinformação.

A cultura aparece no programa como uma dimensão particularmente significativa dessa resistência. Ana cita a realização da Feira do Livro, a abertura do ano escolar e apresentações artísticas realizadas mesmo em meio às dificuldades energéticas. Para ela, a manutenção dessas atividades expressa uma tentativa de preservar a vida social e cultural diante da crise.

Formas concretas de solidariedade

Outro eixo da entrevista é a rede internacional de solidariedade a Cuba. Ana relata ter encontrado manifestações de apoio à ilha durante sua participação, em agosto, de encontros políticos e atividades na Alemanha.

Ela menciona ainda a presença de Cuba em debates realizados no âmbito de organizações políticas e movimentos internacionais, assim como iniciativas de envio de equipamentos hospitalares e outros materiais para a ilha. O tema também é relacionado ao papel do Brasil e dos países do BRICS na discussão sobre formas de apoio a Cuba.

Diante desse panorama, o programa encerrou com um chamado à ação concreta. Prestes listou prioridades definidas pelos dirigentes cubanos: placas solares (energia), medicamentos e alimentos. Ela incentivou viagens turísticas solidárias, explicando que o gasto local ajuda a manter a economia circular ativa, além de sugerir o envio de itens via malas extras (medicamentos básicos, eletrônicos carregáveis) e contribuições financeiras específicas para campanhas de energia renovável.

“A gente calcula que só do Brasil já foram acima de 10 mil toneladas esse ano… Isso sociedade civil, sem falar governo”, pontuou Prestes, destacando o papel crucial do MST e de organizações populares brasileiras. A mensagem final reforçou que a vitória de Cuba não depende apenas de sua capacidade interna, mas da pressão global contra o bloqueio ilegal, mantendo a ilha “de pé, lutando sem se render”, conforme citação de Fidel Castro lembrada no fechamento da atração.

O episódio pode ser acompanhado pelos canais do Portal Vermelho no YouTube e no Spotify.

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