Um novo capítulo da relação da família Bolsonaro com a milícia carioca foi revelado. Investigação da Polícia Federal (PF) aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, destinou uma emenda parlamentar de quase R$ 200 mil (R$ 199.999,79) a uma ONG sob intermediação do miliciano Robson Calixto, o “Peixe”, preso por integrar a organização criminosa responsável pela morte da vereadora Marielle Franco, em 2018.
Em diálogos obtidos pela PF, uma assessora de Flávio tratou, em 2023, do envio do valor para a ONG Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop). A suspeita é de que a negociação entre Peixe e Maria de Fátima Bezerra Castro (chamada nas mensagens de “Fafa Flávio Bolsonaro”) seria para o repasse do valor para o projeto de fachada “Jogadores do Futuro” com a finalidade de desviar o recurso.
O Ifop tem atuação no bairro Taquara, na região de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro (RJ). A região é área de influência dos irmãos Brazão, condenados por terem encomendado a morte da vereadora Marielle Franco, em 2018.
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A assessoria de Flávio afirmou para a mídia que a emenda estava dentro das regras da legislação e que a “responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar”.
As mensagens foram obtidas originalmente pelo jornal Estadão a partir de um relatório da Polícia Federal e, posteriormente, chegaram para as redações da revista piauí e da Folha.
Milícia
Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados a 76 anos e 2 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por serem mandantes da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes.
Robson Calixto, o “Peixe”, integrava o grupo criminoso que organizou os assassinatos e foi condenado a 9 anos de prisão.
A relação de Flávio Bolsonaro com milicianos tem sido explorada pela campanha do presidente Lula. Em vídeo, é lembrado que o senador já empregou familiares de milicianos em seu gabinete, enquanto deputado estadual no Rio. No caso, a mãe e a esposa do ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como chefe do “Escritório do Crime”. Além disso, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes (uma das principais honrarias da Alerj) ao assassino de aluguel, que foi morto pela polícia em 2020.
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Outro ponto lembrado é que o senador Flávio negociou mais de cento e trinta milhões de reais com Daniel Vorcaro e apareceu em uma foto ao lado do “Sicário”, o capanga do dono do Banco Master. Ele era apontado como líder de uma milícia privada que executava ordens de Vorcaro e se suicidou na prisão em março desse ano.
Ainda é destacado que o candidato do senador ao governo do Rio foi preso por fazer parte do Comando Vermelho, o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar (União).
Mensagens
A PF conseguiu as mensagens que estavam no celular de Peixe em março de 2024. Na época ele ainda era investigado pelo caso Marielle. O miliciano chegou a ser assessor de Domingos Brazão em seu gabinete no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro.
Na mensagem, em outubro de 2023, para “Fafa Flávio Bolsonaro”, ele cobra: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”. Ela respondeu para ele formalizar o pedido.
Na sequência do diálogo, dias depois, Fátima convida Peixe para levar o deputado federal Chiquinho Brazão a uma cerimônia para a entrega de 396 coletes balísticos para a Polícia Militar do RJ. Seria uma oportunidade para o miliciano cobrar Flávio pessoalmente pela emenda.
Ao final do mês, Peixe cobra Fafa: “Bom dia, amiga não esquece do Ifop não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”.
A emenda foi efetivamente destinada pelo gabinete de Flávio no mês seguinte, em novembro.
Além desse diálogo, Maria de Fátima, que ainda faz parte da equipe do senador, pede ao miliciano “4 ingressos pro desfile das campeãs no camarote Arpoador”, na Marquês de Sapucaí, algo considerado vantagem indevida. Não há evidências de que ela tenha recebido as credenciais, ainda que se saiba que Peixe as tenha conseguido.