Há 50 anos, tinha início um dos mais importantes festivais ligados à política do mundo: a Festa do Avante!, realizada anualmente pelo Partido Comunista Português (PCP). Inspirado pelos ventos que mudaram a história de Portugal após a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, o evento celebra a união, a igualdade e a luta pelo socialismo e contra a opressão e o autoritarismo.
Logo após a histórica revolução, os partidos políticos foram retirados da clandestinidade, entre eles, o PCP. Naqueles anos, Portugal vivia tempos de efervescência, alegria e liberdade, buscando reconstruir sua democracia de maneira verdadeiramente popular e calcada na via socialista, após décadas sob o jugo do regime fascista de Antonio Salazar.
O evento foi inspirado na Festa da Humanidade (ou Fête de l’Humanité), do PC Francês, realizada nas proximidades Paris e que neste ano teve sua 91ª edição. Em 1973, quando dirigentes do PC português foram ao festival do país vizinho, puderam assistir a apresentações de alguns dos maiores nomes da cena musical mundial, como Chuck Berry, Genesis, The Who, Leonard Cohen e Pink Floyd.
Foi nesse clima e com essa influência que nasceu a Festa do Avante!, nome do jornal oficial do PCP. A primeira ocorreu em meio à antiga Feira Internacional de Lisboa (FIL), entre os dias 24 e 26 de setembro de 1976. “Portugal não conhecia nada igual, não havia nenhuma tradição de organizar espetáculos desta dimensão, muito menos equipamentos”, explica reportagem sobre os 40 anos da festa, publicado pelo jornal português Expresso.
Sobre o marco inaugural, diz o site do PCP: “Ergueram-na milhares de militantes e amigos do Partido – operários, intelectuais, estudantes, trabalhadores de todas as profissões, homens, mulheres e jovens – que, com a sua criatividade e muitas e muitas horas roubadas ao merecido descanso de um dia normal de trabalho, deram o pontapé de partida para aquele que, de então para cá, passou a ser o maior evento cultural, artístico, político, de convívio e de confraternização, do país – uma expressão concreta da força e das potencialidades da militância revolucionária”.

Em seu início, a festa enfrentou obstáculos para encontrar um lugar adequado, já que o espaço dedicado à FIL fora pequeno para o seu público. Além disso, em 1977, a Associação Industrial Portuguesa se recusou a ceder o local da FIL para a realização da Festa, devido à explosão de uma bomba, por membros da extrema direita, no ano anterior.
Entre 1976 e 1990, portanto, a festa passou por diferentes locais até que, em 1989, uma campanha de arrecadação possibilitou que a edição seguinte passasse a ser feita na Quinta do Atalaia, em Seixas, a nova e definitiva casa da Festa do Avante!.
O anúncio da conquista foi feita pelo histórico comunista português Álvaro Cunhal (1961-1992), então secretário-geral do PCP. “É um terreno bonito, formoso, junto ao rio, que tem urbanização, e pensamos que as festas que aí iremos realizar terão condições para ser belíssimas festas, num ambiente aprazível, onde nos sentiremos bem, além do mais porque ninguém nos pode tirar de lá”, apontou.
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Realizada durante o verão, a festa manteve, ao longo dos anos, seu espírito jovem, renovador e revolucionário. Oferece uma rica gama de atividades culturais e artísticas, incluindo shows de grandes nomes da música de diferentes épocas e estilos, bem como mesas e debates políticos com importantes intelectuais, além de feiras, exposições, apresentações, atividades para o público infantil e praça gastronômica, entre outras atrações.
Ao longo de cinco décadas, recebeu nomes consagrados da cultura portuguesa e internacional, entre os quais o cantor José Afonso, o Zeca Afonso (1929-1987), autor da música “Grândola, Vila Morena”, que ficou mundialmente famosa após ser veiculada em rádio local como sinal de que a Revolução dos Cravos estava em curso. Também figuraram na lista de atrações já recebidas a argentina Mercedes Sosa (1935-2009) e brasileiros de renome como Chico Buarque, Alceu Valença e Ney Matogrosso — que, aos 85 anos, fez uma apresentação inesquecível na 50ª edição, neste ano.
Entre outros intelectuais e pensadores de esquerda, a festa já contou também com o escritor José Saramago (1922-2010), comunista que era presença constante no evento, além do próprio Álvaro Cunhal e José Barata-Moura, filósofo, ensaísta e antigo reitor da Universidade de Lisboa, entre outros.
Neste ano, como em todos os outros, questões importantes em nível local e global tiveram espaço, reforçando o internacionalismo comum aos partidos comunistas. Em meio à ofensiva da extrema direita global, o evento teve espaço para reafirmar irrestrita solidariedade ao povo palestino e a Cuba, que enfrentam mais um capítulo cruel das guerras e do intervencionismo imperialista dos EUA.
“Se a vida de todos os dias fosse como na Festa do Avante!, o trabalho era valorizado e respeitado como fonte e criação de riqueza, de realização pessoal e de emancipação colectiva. Os trabalhadores veriam as suas capacidades, criatividade e energia colocadas ao serviço de um projecto comum. Se a vida fosse como a Festa do Avante!, existiria um espaço de liberdade, de debate e esclarecimento, de aprendizagem, contínua e dialéctica”, escreveu Margarida Botelho, membro da Comissão Política do PCP, em artigo sobre a edição deste ano.
A Festa do Avante!, sintetiza Margarida, “não é uma suspensão da vida normal. São três dias em que se mostra e experimenta o que pode ser uma sociedade e um país de participação e cultura”. E prossegue: “Imaginar como Portugal seria se fosse como a Festa não é um exercício rigoroso, porque a escala, as forças, a complexidade, são completamente diferentes. Mas abre as portas à confiança de que sim, podemos mesmo transformar a vida, a sociedade e o mundo”.