
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) esteve na casa do banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, na noite de 20 de agosto de 2025, justamente no dia em que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sancionou a autorização legislativa para a aquisição de parte do Master pelo Banco de Brasília (BRB). O encontro, realizado na residência de Vorcaro, no Lago Sul, também contou com a participação do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A informação foi revelada pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo, com base em mensagens recuperadas pela Polícia Federal, e confirmada pelo Poder360, que teve acesso aos registros.
A revelação acrescenta um novo capítulo às relações políticas mantidas pelo ex-banqueiro durante as negociações para a venda de sua instituição financeira. Flávio Bolsonaro já havia reconhecido contatos com Vorcaro, mas vinha associando essas conversas ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. Os novos registros documentam um encontro presencial em uma data particularmente importante para os interesses empresariais do dono do Master. O conteúdo da conversa, entretanto, não foi esclarecido, e as mensagens divulgadas não comprovam que os senadores tenham discutido a operação com o BRB.
Mensagens mostram Flávio a caminho da casa de Vorcaro
As conversas extraídas do celular do banqueiro permitem reconstruir parte da movimentação daquela noite.
Vorcaro convidou Flávio Bolsonaro para um encontro às 21h. O senador respondeu com uma confirmação breve.
“Blz”, escreveu.
Às 21h47, Flávio voltou a entrar em contato com o empresário e informou que estava “a caminho”.
A troca de mensagens documenta que a visita havia sido combinada previamente, em um momento no qual o Banco Master buscava avançar em uma operação de grande relevância financeira e política.
O encontro ocorreu no mesmo dia em que Ibaneis Rocha sancionou a lei aprovada pela Câmara Legislativa do Distrito Federal autorizando o BRB a adquirir participação no Master.
A sanção não significava que a compra estivesse definitivamente concluída, mas representava uma etapa importante para viabilizar a negociação.
Ciro Nogueira também participou da reunião
O senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, também esteve na residência de Vorcaro.
Cerca de uma hora e meia antes da mensagem enviada por Flávio, Ciro encaminhou um áudio ao banqueiro informando que participava de uma cerimônia de premiação promovida pelo Congresso em Foco.
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Na gravação, mencionou que Flávio Bolsonaro também estava no evento e que provavelmente sairia antes dele.
Os registros indicam que os dois senadores combinaram suas agendas para comparecer à residência do empresário naquela noite.
A presença de políticos com influência nacional na casa de Vorcaro, justamente quando avançava a negociação com um banco público, amplia o interesse jornalístico sobre as relações mantidas pelo fundador do Master.
Isso não significa, por si só, que os parlamentares tenham atuado em favor da operação ou praticado irregularidades. O que os registros demonstram é a existência do encontro e sua coincidência temporal com uma decisão importante para os negócios do banqueiro.
Hugo Motta também foi convidado
As mensagens revelam ainda que Daniel Vorcaro procurou o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), naquela mesma noite.
Às 18h15, o banqueiro enviou um convite informal ao parlamentar, sugerindo que se encontrassem mais tarde.
Às 22h48, Motta perguntou onde Vorcaro estava.
O empresário respondeu que permanecia em casa e informou que Ciro Nogueira estava no local.
Os dois realizaram, em seguida, uma chamada de voz de 13 segundos.
As conversas confirmam o convite, mas não permitem estabelecer se Hugo Motta efetivamente compareceu à residência.
Procurado pela imprensa, o presidente da Câmara afirmou que contatos com representantes do setor empresarial fazem parte da atividade parlamentar e sustentou que suas relações com integrantes do setor privado sempre foram pautadas pela legalidade e pela probidade.
A versão de Flávio sobre sua relação com o banqueiro
A divulgação do encontro também recoloca em discussão as explicações apresentadas por Flávio Bolsonaro sobre sua proximidade com Daniel Vorcaro.
O candidato já admitiu ter procurado o empresário em busca de recursos para o filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.
Em declarações recentes, Flávio reconheceu ter solicitado R$ 60 milhões para o projeto, mas negou que houvesse qualquer contrapartida política.
As mensagens sobre a reunião de agosto de 2025 não mencionam o filme, embora essa ausência não seja suficiente para concluir que o assunto não tenha sido discutido.
Há, portanto, uma questão ainda sem resposta. Qual foi o conteúdo da conversa entre o banqueiro e os senadores naquela noite?
A pergunta ganha relevância pelo contexto da negociação com o BRB, mas não pode ser respondida apenas pela coincidência das datas.
Flávio atribuiu escândalo à esquerda, mas admitiu negociar financiamento com Vorcaro
A revelação do encontro na casa de Daniel Vorcaro também contrasta com o discurso público adotado por Flávio Bolsonaro ao longo das investigações sobre o Banco Master. Em diferentes ocasiões, o senador procurou associar o escândalo ao PT e ao governo Lula, enquanto minimizava as conexões do banqueiro com integrantes da direita.
Em março de 2026, ao comentar as investigações, Flávio afirmou que o caso estava distante de atingir seu campo político. Posteriormente, passou a utilizar a expressão “O Banco Master é do Lula” em publicações nas redes sociais e chegou a vestir uma camiseta com mensagem semelhante durante um evento político.
O discurso ganhou outra dimensão em maio, quando o portal The Intercept Brasil divulgou mensagens e áudios sobre negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, dedicado à trajetória de Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, as tratativas envolviam um financiamento previsto de aproximadamente US$ 24 milhões. O material divulgado indicava pagamentos e cobranças relacionadas ao projeto.
Antes da publicação, Flávio foi questionado diretamente sobre o financiamento e negou a informação. Após a divulgação dos registros, entretanto, reconheceu que havia procurado Vorcaro para obter recursos.
O senador sustentou que se tratava de patrocínio privado para uma produção cinematográfica e afirmou que não ofereceu vantagens políticas, não intermediou negócios com o governo e não recebeu benefícios pessoais.
A nova revelação sobre o encontro de agosto de 2025 não comprova que essas negativas sejam falsas. As mensagens conhecidas não esclarecem o assunto tratado na residência do banqueiro.
Ainda assim, a sucessão de episódios amplia a necessidade de esclarecimentos sobre a relação entre o candidato e o fundador do Master.
A questão não é presumir que qualquer contato com um empresário investigado constitua irregularidade. É compreender a extensão desses contatos, especialmente quando o próprio candidato utiliza o escândalo para formular acusações contra adversários políticos.
O encontro com Vorcaro, a negociação de financiamento para o filme e as declarações públicas sobre o caso são fatos distintos, mas que precisam ser considerados em conjunto para que o leitor compreenda a dimensão dessa relação.
Contatos continuaram até a véspera da prisão de Vorcaro
Outras mensagens divulgadas anteriormente também ajudam a dimensionar a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão do banqueiro pela Polícia Federal, os dois trocaram mensagens e imagens de visualização única pelo WhatsApp.
Na ocasião, Flávio escreveu que permaneceria ao lado do empresário e pediu orientação sobre uma questão cujo conteúdo não foi esclarecido nos registros disponíveis.
Como as imagens foram enviadas para visualização única, não foi possível reconstruir integralmente o diálogo.
A existência dessas conversas demonstra que o contato entre o senador e o fundador do Master se estendeu por meses, inclusive durante o período que antecedeu a operação policial.
Não há, nos trechos divulgados, prova de que Flávio tivesse conhecimento antecipado da prisão ou de que tenha interferido nas investigações.
Encontro amplia questionamentos sobre relações políticas do Master
O caso Banco Master passou a expor uma extensa rede de contatos entre Daniel Vorcaro, empresários, parlamentares e integrantes de instituições públicas.
A reunião de 20 de agosto de 2025 acrescenta um elemento relevante a esse cenário porque ocorreu em uma data decisiva para a tentativa de aquisição do banco pelo BRB.
A autorização sancionada por Ibaneis Rocha envolvia uma operação com participação de uma instituição financeira controlada pelo poder público, o que reforça o interesse coletivo na transparência das relações políticas estabelecidas durante as negociações.
Os registros recuperados pela Polícia Federal não demonstram que Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira ou Hugo Motta tenham praticado crimes ou interferido na transação.
Mas documentam contatos que merecem esclarecimento público, especialmente diante da dimensão do caso Master e do papel ocupado pelos envolvidos na política brasileira.
Para um candidato à Presidência da República, explicar a natureza de suas relações com um banqueiro investigado em um escândalo financeiro de grandes proporções não é uma exigência extraordinária. É parte da transparência esperada de quem pretende exercer o cargo mais importante do país.
A questão central permanece aberta. O que foi discutido na casa de Daniel Vorcaro naquela noite, poucas horas depois de uma decisão que representava um avanço importante para os interesses do Banco Master?
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