Quem decide o futuro do Brasil?
Uma democracia pode escolher nas urnas. Mas só preserva sua soberania se tiver ciência, tecnologia, indústria e capacidade para transformar escolhas em realidade.
por Celso P. de Melo
“O desenvolvimento pode ser visto […]
como um processo de expansão das liberdades reais de que as pessoas desfrutam.”
Amartya Sen, Development as Freedom (1999) [1]
A geografia voltou – e a geologia também
A geografia voltou, e a geologia voltou com ela.
Durante algum tempo, pareceu possível acreditar que a globalização reduziria a importância das antigas disputas por território, recursos naturais e capacidade industrial. Cadeias produtivas cada vez mais integradas distribuiriam a produção segundo critérios de eficiência, enquanto interdependência e comércio reduziriam os custos do conflito.
Não foi isso que aconteceu. Semicondutores tornaram-se instrumentos de disputa geopolítica, minerais passaram a frequentar documentos de segurança nacional e cadeias de baterias, ímãs permanentes, telecomunicações e inteligência artificial tornaram-se objeto de políticas industriais bilionárias. Portos, cabos submarinos, satélites e data centers adquiriram importância estratégica, enquanto energia e capacidade manufatureira retornaram ao centro das preocupações das grandes potências.
Até a geografia física reapareceu com surpreendente nitidez. Groenlândia, Ártico, Canal do Panamá e hemisfério ocidental voltaram ao vocabulário estratégico dos Estados Unidos. A expressão “Doutrina Donroe”, criada para aproximar Donald Trump da antiga Doutrina Monroe, acabou sintetizando algo maior: a recuperação da ideia de que grandes potências consideram determinados territórios, infraestruturas e cadeias produtivas essenciais à sua segurança.
A ascensão da China reforçou esse movimento. Empresas e instituições chinesas ampliaram sua presença mundial em mineração, energia, infraestrutura, telecomunicações e cadeias industriais, avanço que Washington passou a acompanhar com preocupação crescente, inclusive na América Latina.
O Brasil não precisa ver os Estados Unidos como adversário para reconhecer que Washington age segundo seus interesses nacionais, nem tomar a China como modelo para compreender que Pequim também persegue os seus. É natural que as grandes potências pensem estrategicamente. O que precisamos perguntar é quem está pensando estrategicamente o futuro do Brasil.
O direito de escolher e a capacidade de escolher
Amartya Sen propôs compreender o desenvolvimento como expansão das liberdades reais de que as pessoas desfrutam [1]. Sua reflexão refere-se fundamentalmente aos indivíduos, mas sugere uma pergunta distinta e complementar quando pensamos em uma sociedade inteira: o que significa, para um país, possuir liberdade real de escolha?
Uma democracia oferece uma primeira resposta. Os cidadãos escolhem governos e prioridades e podem mudar a direção política do país. Essa liberdade é indispensável, mas não suficiente. Uma sociedade pode decidir produzir determinados semicondutores, reduzir sua dependência de insumos farmacêuticos, dominar tecnologias de inteligência artificial, construir satélites, proteger suas comunicações ou transformar minerais críticos em materiais e componentes de maior valor tecnológico. A decisão política, porém, não cria os meios necessários para realizá-la.
Entre decidir e realizar existe o que poderíamos chamar de margem de decisão: o conjunto de alternativas efetivamente disponíveis quando uma sociedade procura transformar escolhas políticas em realidade. Um país pode ser juridicamente soberano e descobrir que determinadas opções lhe estão praticamente vedadas porque não possui conhecimento, empresas, infraestrutura, financiamento, pessoal qualificado ou acesso às tecnologias necessárias.
A soberania possui, portanto, uma dimensão material. O direito de decidir é sua condição política fundamental; sua realização depende da capacidade de fazer aquilo que se decidiu.
Ter não é o mesmo que saber fazer
Poucos temas tornam essa diferença tão visível quanto os minerais críticos. O Brasil possui recursos expressivos e, em alguns casos, excepcionais. A corrida mundial por lítio, grafita, níquel, terras raras e outros minerais oferece uma oportunidade importante, mas uma jazida não constitui, por si só, uma capacidade tecnológica.
Entre o minério no subsolo e um automóvel elétrico, um radar, uma turbina eólica ou um sistema de defesa existe uma longa cadeia de conhecimentos e operações: concentração, separação, purificação, materiais avançados, componentes e integração em sistemas. A natureza decidiu onde estão as jazidas; não decidiu onde ficará o conhecimento.
Produzir grafita não significa dominar materiais para ânodos, assim como produzir óxidos de terras raras não significa dominar ligas e ímãs permanentes, nem extrair lítio equivale a produzir materiais ativos para baterias. É ao longo desses elos que se acumulam conhecimento, valor econômico e poder tecnológico.
A complexidade econômica ajuda a compreender essa diferença. Economias sofisticadas distinguem-se pela diversidade das capacidades que conseguem combinar [2]. Uma turbina, um avião, um equipamento médico ou um semicondutor representam combinações de ciência, materiais, máquinas, engenharia, software, fornecedores, trabalhadores especializados e conhecimento acumulado.
Quanto mais amplo esse repertório, maior o número de novas coisas que uma sociedade pode aprender a fazer. O desenvolvimento pode, assim, ser entendido também como expansão de capacidades produtivas, o que muda a pergunta diante dos recursos naturais: não apenas quanto podemos extrair ou exportar, mas o que aprenderemos a fazer com aquilo que possuímos.
A geração de “O Petróleo é Nosso” discutiu quem deveria controlar um recurso estratégico. A nossa precisa acrescentar outra pergunta: quem dominará o conhecimento e as tecnologias que multiplicam seu valor? [3].
Quando o conhecimento se tornou poder
A relação entre conhecimento e poder não surgiu agora. A Primeira Guerra Mundial já mostrara que o conflito industrial moderno não poderia ser conduzido apenas por soldados e generais. Cientistas, engenheiros, químicos, especialistas em comunicações e criptógrafos passaram a integrar o esforço de guerra [4].
A Segunda Guerra Mundial levou essa transformação a outra escala. Em 1940, a Grã-Bretanha possuía uma comunidade científica avançada, mas enfrentava uma dificuldade decisiva: conhecimento científico e capacidade industrial não eram a mesma coisa. A missão chefiada por Henry Tizard levou aos Estados Unidos tecnologias britânicas sensíveis, entre elas o magnétron de cavidade desenvolvido por John Randall e Harry Boot, fundamental para radares de micro-ondas de alta potência [5].
Compartilhar uma tecnologia tão estratégica pode parecer paradoxal, mas oferece uma lição importante: soberania não significa guardar tudo, e sim possuir conhecimento suficiente para decidir o que dominar, o que compartilhar e em que condições. A ciência britânica, combinada à capacidade industrial americana e ao trabalho de instituições como o Radiation Laboratory do MIT, produziu uma capacidade que nenhum dos parceiros poderia mobilizar sozinho naquele momento.
O Projeto Manhattan mostraria outra dimensão do problema: reunir cientistas extraordinários não bastava. Foi preciso articular ciência, engenharia, indústria, infraestrutura, logística, financiamento e direção política em torno de um objetivo definido [6]. O desenvolvimento do avião bombardeiro B-29 revelou um desafio semelhante por outro caminho: integrar numerosas tecnologias avançadas num sistema complexo e fabricá-lo em escala.
A lição comum é simples: conhecimento só se transforma em capacidade quando pessoas, instituições, engenharia, indústria e organização conseguem trabalhar de maneira articulada.
O Brasil já soube organizar o futuro
O Brasil também já demonstrou capacidade de coordenação. O governo Juscelino Kubitschek é lembrado pelo lema “cinquenta anos em cinco”, por Brasília e pela implantação da indústria automobilística, mas deixou também uma experiência institucional que merece atenção.
O Plano de Metas procurou concentrar recursos e capacidade administrativa em problemas capazes de modificar a estrutura econômica do país. Os Grupos Executivos foram uma resposta à fragmentação da administração pública, e o GEIA, voltado para a indústria automobilística, tornou-se o exemplo mais conhecido ao reunir diferentes áreas do governo e articular instrumentos de política econômica e agentes privados em torno de metas concretas [7].
Não se trata de idealizar os anos JK, marcados também por dependência de capital e tecnologia externos, inflação e desequilíbrios, nem de reproduzir hoje instrumentos concebidos há setenta anos. O que merece ser recuperado é sua lógica de coordenação: não bastava possuir ministérios; era preciso criar mecanismos capazes de atravessá-los, organizando o Estado em torno de problemas.
A criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear, em 1956, acrescentou outra dimensão àquele projeto. Industrialização, infraestrutura e formação de capacidades científicas e tecnológicas começavam a ser percebidas como partes de uma transformação mais ampla. O Brasil não estava apenas construindo fábricas; estava aprendendo a fazer coisas que antes não sabia fazer.
Essa aprendizagem reapareceu, sob diferentes arranjos institucionais, em outras experiências brasileiras. A Embraer articulou formação de engenheiros, pesquisa aeronáutica, demanda pública e indústria; a Embrapa construiu conhecimento decisivo para adaptar a agricultura às condições tropicais; e a Petrobras, apoiada por universidades, fornecedores e pelo Cenpes, seu principal centro de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica, avançou da absorção de tecnologia para a liderança em exploração e produção de petróleo em águas profundas e ultraprofundas.
A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), empresa brasileira que se tornou referência mundial na produção e no desenvolvimento de aplicações do nióbio, fez desse conhecimento parte de sua estratégia de desenvolvimento de mercados, enquanto o domínio do enriquecimento de urânio por ultracentrifugação mostrou que o país também pode acumular competências em tecnologias sensíveis. São experiências de épocas e modelos institucionais distintos, mas todas exigiram continuidade suficiente para transformar conhecimento em aprendizagem e aprendizagem em capacidade [8].
Quando o Brasil consegue sustentar direção, instituições e aprendizagem por tempo suficiente, é capaz de alcançar a fronteira tecnológica em áreas extremamente complexas.
O país de Sísifo
Se existe uma dificuldade recorrente na trajetória brasileira, ela talvez não esteja em construir capacidades, mas em preservá-las e fazê-las avançar. A ciência oferece um exemplo eloquente. Universidades, programas de pós-graduação, CNPq, Capes, Finep, laboratórios e grupos de pesquisa foram construídos por sucessivas gerações, mas crises econômicas, mudanças políticas e descontinuidades orçamentárias ameaçaram repetidamente o que levara décadas para ser criado.
Nas comemorações dos 60 anos da Sociedade Brasileira de Física, recorri à imagem de Sísifo: quando a pedra parecia aproximar-se do topo, voltava a rolar [9]. O Brasil demonstrou muitas vezes ser capaz de construir competências científicas e tecnológicas; sua dificuldade maior tem sido preservá-las, articulá-las e fazê-las evoluir como parte de um projeto nacional.
O problema ultrapassa a ciência. A construção naval acumulou engenharia, fornecedores e mão de obra especializada antes de atravessar longos períodos de retração. Nas telecomunicações, o CPqD, criado no sistema Telebras, articulou pesquisa, indústria e demanda pública, mas perdeu parte dessa função sistêmica após a privatização e a reorganização do setor. Na microeletrônica, o CEITEC chegou a entrar em processo de liquidação antes que a decisão fosse revertida. O país também acumulou competências de engenharia na construção de refinarias que nem sempre conseguiu mobilizar com continuidade, enquanto, na indústria de fertilizantes, uma potência agrícola tornou-se fortemente dependente de insumos importados.
São trajetórias distintas, que não podem ser atribuídas a uma única política ou período histórico, mas revelam um problema comum: capacidade tecnológica não é um estoque que possa ser guardado; é aprendizagem acumulada que precisa continuar sendo exercida. Quando encomendas desaparecem, projetos são interrompidos, fornecedores deixam o mercado e equipes se dispersam, perde-se não apenas produção, mas a capacidade de aperfeiçoar processos, formar novas gerações e desenvolver a tecnologia seguinte.
Por isso, reconstruir capacidades é muito mais difícil do que reconstruir instalações. Fábricas podem ser reabertas e equipamentos novamente adquiridos; comunidades de engenheiros, técnicos, pesquisadores e fornecedores não são recompostas por decreto. Enquanto um país interrompe sua aprendizagem, outros continuam aprendendo e a fronteira tecnológica se desloca.
Uma indústria estratégica não começa a desaparecer quando fecha sua última fábrica. Começa a desaparecer quando deixa de acompanhar a geração seguinte da tecnologia.
Quando a tecnologia mudou a guerra
A transformação tecnológica tornou insuficiente uma distinção herdada do século XX: a separação rígida entre tecnologia civil e militar. Durante muito tempo, destacou-se o movimento de tecnologias desenvolvidas ou aceleradas por necessidades militares e depois incorporadas à economia civil, como radar, aviação, energia nuclear, satélites e sistemas de posicionamento.
Hoje, porém, a circulação ocorre também – e crescentemente – na direção inversa. Inteligência artificial, computação avançada, semicondutores, drones, baterias, sensores, satélites comerciais, robótica e novos materiais são impulsionados por mercados civis de enorme escala e rapidamente incorporados à Defesa. O mesmo ocorre com data centers, telecomunicações, cabos submarinos e constelações comerciais de satélites, infraestruturas civis cuja disponibilidade pode se tornar decisiva em situações de conflito.
As guerras recentes tornaram visível outra consequência dessa transformação. Na Ucrânia, drones relativamente baratos, combinados a sensores, comunicações, software e inteligência, passaram a ameaçar equipamentos e instalações muito mais caros. No Mar Vermelho, ataques dos houthis com drones e mísseis obrigaram forças navais tecnologicamente superiores a mobilizar sistemas sofisticados para proteger navios e rotas comerciais. Os confrontos envolvendo Israel e Irã reforçaram essa tendência ao mostrar a crescente integração entre mísseis, veículos não tripulados, defesa aérea, inteligência e guerra eletrônica.
Não estamos assistindo ao desaparecimento das grandes plataformas militares, mas a uma mudança na relação entre custo, tecnologia e poder. Sistemas relativamente baratos podem explorar vulnerabilidades de plataformas sofisticadas; interferência eletrônica pode degradar comunicações e sistemas de posicionamento; ataques cibernéticos podem produzir efeitos estratégicos sem que tropas atravessem uma fronteira. Até recursos antes reservados às grandes potências, como imagens de satélites e elevada capacidade computacional, tornaram-se acessíveis a um número muito maior de atores.
A guerra assimétrica não nasceu com essas tecnologias. A novidade está na ampliação das possibilidades de combinar conhecimento, software, sensores e sistemas relativamente baratos para produzir efeitos desproporcionais. A questão deixou de ser apenas quem possui a arma mais poderosa e passou a incluir quem consegue identificar e explorar os pontos vulneráveis de um sistema complexo.
Isso não elimina submarinos, navios, caças ou sistemas de defesa aérea, mas obriga a pensar de outra maneira sua combinação com as novas tecnologias – e a medir capacidade militar não apenas pelas plataformas disponíveis, mas também pelo conhecimento, pela indústria, pela infraestrutura e pela capacidade de aprender necessárias para desenvolvê-las e adaptá-las [3].
Para o Brasil, essa não é uma questão abstrata. A transformação da guerra coincide com a redescoberta do valor estratégico de nossa própria geografia.
Que Defesa para um país como o Brasil?
O Brasil não precisa identificar previamente um inimigo para reconhecer que sua geografia impõe responsabilidades estratégicas. Somos um país continental, projetado sobre o Atlântico Sul, com mais de oito mil quilômetros de litoral, extensa Amazônia Azul, grandes bacias hidrográficas e vastos espaços aéreo e terrestre. Nessa geografia encontram-se recursos, instalações industriais, infraestrutura energética e redes de comunicação cuja proteção está diretamente relacionada à capacidade do país de preservar sua liberdade de decisão [3].
O Atlântico brasileiro torna isso particularmente evidente. Nele estão campos de petróleo e plataformas offshore, rotas marítimas essenciais, portos e recursos da Amazônia Azul; por seu leito passam cabos submarinos fundamentais às comunicações internacionais do país. Fortaleza tornou-se importante ponto de conexão entre sistemas que ligam a América do Sul à América do Norte, à Europa e à África [3].
A história já revelara o significado estratégico dessa posição. Durante a Segunda Guerra Mundial, Natal tornou-se ponto crucial das ligações entre as Américas e a África, enquanto Recife e Fernando de Noronha integraram a estrutura de defesa e circulação do Atlântico Sul. A geografia permanece, mas aquilo que circula por ela mudou. Aos navios, aeronaves e matérias-primas somaram-se dados, cabos de fibra óptica, satélites, energia e sistemas de posicionamento cuja interrupção pode produzir consequências estratégicas sem que o território seja convencionalmente invadido.
A pergunta relevante, portanto, não é contra quem o Brasil deveria preparar uma guerra, mas que capacidades um país com essa geografia precisa possuir para proteger seu território, seus recursos, suas infraestruturas e sua liberdade de decisão. Em vez de partir da lista de equipamentos das grandes potências e perguntar quais podemos comprar, deveríamos partir de nossas características, vulnerabilidades e interesses e perguntar quais capacidades precisamos construir.
Isso não significa substituir sistemas militares complexos por tecnologias baratas, nem reproduzir em escala menor a estrutura de forças das grandes potências. Significa explorar combinações adequadas às nossas necessidades. Drones e sistemas autônomos, sensores, radares, satélites, comunicações seguras, guerra eletrônica, cibersegurança, inteligência artificial e tecnologias submarinas podem ampliar capacidades de vigilância, proteção e dissuasão, além de gerar competências úteis à economia civil.
O Brasil possui experiência própria nessa relação entre Defesa e desenvolvimento. A Engesa desenvolveu uma família de blindados, entre eles o EE-9 Cascavel, exportado para diversos países, enquanto a Avibrás construiu competência em foguetes, mísseis e sistemas de artilharia, tendo no ASTROS seu exemplo mais conhecido. Essas experiências mostram que programas de Defesa podem mobilizar engenharia, formar técnicos e fornecedores e gerar conhecimento, mas também como essas competências se tornam vulneráveis quando desaparecem encomendas, financiamento, escala e continuidade.
O que importa, portanto, não é apenas o equipamento. Uma plataforma incorpora conhecimentos, pessoas, empresas e processos industriais que podem desaparecer muito antes da memória do produto que fabricaram. Uma política de Defesa que se limita a comprar uma plataforma adquire um equipamento; uma política de Defesa que sustenta aprendizagem constrói uma capacidade nacional.
A convergência entre tecnologias civis e militares reforça essa conclusão. Minerais críticos já possuem caráter dual antes que qualquer equipamento seja fabricado; semicondutores, inteligência artificial, sensores, tecnologias espaciais e materiais avançados atravessam igualmente as fronteiras entre mercados civis e aplicações militares. Política industrial, política científica e tecnológica e política de Defesa passaram, assim, a compartilhar parte crescente de suas bases materiais e cognitivas.
Daí decorre uma consequência institucional: a política de Defesa do século XXI não cabe dentro de um Ministério da Defesa. Ela depende de universidades, empresas, infraestrutura digital e espacial, políticas de semicondutores, energia e minerais críticos, financiamento à inovação e do poder de compra do Estado. Se as tecnologias se tornaram duais, desenvolvimento e Defesa não podem continuar sendo tratados como universos separados [3, 10].
Isso coloca uma questão particularmente delicada para o campo progressista brasileiro. A experiência da ditadura deixou razões históricas para a desconfiança de setores democráticos em relação às Forças Armadas, cuja subordinação ao poder civil permanece condição elementar da democracia. Mas Forças Armadas e Defesa Nacional não são sinônimos. Confundi-las significa deixar predominantemente aos militares uma discussão que diz respeito à sociedade inteira.
Uma democracia precisa manter as Forças Armadas submetidas ao poder civil; o poder civil, por sua vez, precisa assumir a responsabilidade de pensar a Defesa. Uma agenda que discute soberania, ciência, universidades, emprego qualificado, política industrial, transição energética, minerais críticos e autonomia tecnológica não pode ignorar a proteção do território, das infraestruturas e das capacidades que tornam essas políticas possíveis. Abandonar intelectualmente a agenda da Defesa não desmilitariza a Defesa; apenas reduz a participação da sociedade civil em sua formulação.
Isso exige mudar também a pergunta que orienta seus programas. Em vez de discutir apenas quais armas ou plataformas comprar, precisamos perguntar que conhecimentos, tecnologias, empresas, fornecedores e profissionais cada programa ajudará a desenvolver – e se o país estará mais preparado para desenvolver a geração seguinte da tecnologia. A lógica é a mesma dos minerais críticos: não basta possuir o equipamento; é preciso preservar a capacidade de compreendê-lo, operá-lo, adaptá-lo e continuar aprendendo.
Defesa e desenvolvimento precisam voltar a se encontrar.
Quem financia o futuro?
Existe uma dificuldade que boas estratégias, por si sós, não resolvem: capacidades complexas levam tempo. Uma universidade não se constrói em quatro anos, uma indústria de semicondutores não amadurece durante a vigência de um edital e a formação de engenheiros, fornecedores e empresas especializadas exige continuidade. Complexidade econômica é, em grande medida, conhecimento acumulado no tempo [2, 11].
Parte importante das instituições econômicas brasileiras, porém, opera em horizonte muito mais curto. O país convive há décadas com taxas de investimento insuficientes para sustentar uma transformação estrutural acelerada, enquanto juros reais elevados tornam investimentos produtivos de longa maturação menos atraentes e encarecem o financiamento da economia e do próprio Estado.
Há também uma dimensão fiscal que não pode ser ignorada. Uma parcela expressiva dos recursos públicos é absorvida pelo custo financeiro associado à dívida. Não se trata de contrapor mecanicamente juros a investimentos em ciência, infraestrutura ou Defesa, pois são grandezas distintas e a estabilidade financeira também constitui um bem público. A questão estratégica é saber quanto espaço uma economia submetida por longos períodos a custos financeiros elevados conserva para sustentar investimentos de maturação longa.
Outra transformação ocorre no interior do orçamento. A ampliação das despesas obrigatórias e do orçamento impositivo, particularmente das emendas parlamentares, aumentou a participação do Congresso na alocação dos recursos públicos, mas reduziu a margem de decisão do Executivo sobre uma parcela crescente do orçamento. A dimensão dessa mudança é expressiva: estudos do Ipea mostram que o volume de recursos destinado por emendas mais que quadruplicou, em termos reais, na última década [12]. O problema não está na participação parlamentar, legítima numa democracia, nem depende da existência de desvios. Mesmo quando cada recurso atende corretamente a uma necessidade local, sua pulverização entre milhares de decisões independentes pode dificultar a concentração de recursos em objetivos estratégicos de longo prazo.
Projetos capazes de transformar a estrutura produtiva, científica e tecnológica exigem prioridades nacionais, coordenação, continuidade e horizonte plurianual. Surge daí um paradoxo: quanto mais complexos e duradouros se tornam os desafios estratégicos do país, mais fragmentados podem se tornar os mecanismos de decisão sobre os recursos necessários para enfrentá-los. Um programa nuclear, uma indústria de semicondutores, um programa espacial ou uma estratégia para minerais críticos não podem depender da disponibilidade ocasional de recursos em cada orçamento anual.
Isso nos obriga a olhar para o orçamento de outra maneira. Orçamento é estratégia materializada. Se durante vinte anos afirmamos que semicondutores são estratégicos, mas interrompemos sucessivamente os programas destinados a construir essa capacidade, nossa prioridade real está menos nos discursos do que na continuidade dos recursos mobilizados.
No caso dos minerais críticos, por exemplo, uma política de longo prazo dificilmente poderá depender exclusivamente de dotações anuais. Parte da renda gerada por recursos naturais não renováveis poderia ser convertida em ativos científicos, tecnológicos, financeiros e industriais capazes de continuar produzindo riqueza quando as jazidas estiverem esgotadas. O desafio não é simplesmente gastar mais, mas investir persistentemente em objetivos cujo amadurecimento ultrapassa o mandato de qualquer governo.
Quem decide?
Chegamos, assim, a um problema de organização do Estado. O Brasil já possui universidades, institutos de pesquisa, empresas, Finep, BNDES, laboratórios públicos, Forças Armadas e numerosas competências distribuídas pelo território. Em muitas áreas, a dificuldade não é sua inexistência, mas sua fragmentação: o país se parece com um arquipélago de capacidades, formado por ilhas de excelência que nem sempre constituem um sistema capaz de aprender continuamente.
A experiência dos Grupos Executivos de JK sugere uma possibilidade institucional que merece ser atualizada. Para determinados desafios, poderíamos organizar missões nacionais com objetivos tecnológicos verificáveis, coordenação transversal, financiamento plurianual e responsabilidades definidas [11]. Uma missão para o lítio deveria ir além da mineração e buscar o domínio de materiais e tecnologias de baterias; outra, relacionada a drones, poderia integrar sensores, eletrônica, comunicações, inteligência artificial, motores e armazenamento de energia. Nos semicondutores, seria necessário escolher segmentos nos quais mercado, demanda pública e competências existentes permitam acumular capacidade tecnológica.
Cada missão teria de responder a perguntas concretas: o que precisamos saber fazer, quais instituições serão responsáveis, que tecnologias podem ser obtidas em cooperação, quais capacidades consideramos indispensáveis, que recursos e prazos serão necessários e como saberemos se estamos avançando.
Nada disso significa autarquia. A missão Tizard — na qual, em 1940, a Grã-Bretanha compartilhou com os Estados Unidos tecnologias decisivas que não tinha capacidade industrial para explorar sozinha – oferece justamente a lição contrária: um país soberano pode compartilhar tecnologia, cooperar e depender de parceiros, desde que saiba distinguir dependências aceitáveis daquelas que, num momento crítico, podem retirar sua margem de escolha. Nacionalizar no século XXI não significa fabricar tudo, mas saber o que não podemos deixar de saber fazer.
Isso exige também preservar a inteligência do próprio Estado. Terceirizar determinados serviços pode ser eficiente; terceirizar a capacidade de compreender problemas, avaliar alternativas, especificar tecnologias e negociar com fornecedores produz dependência. O Estado não precisa fabricar cada componente, mas precisa saber o suficiente para decidir e conservar instituições capazes de aprender, absorver conhecimento, corrigir erros e transmitir competências às gerações seguintes.
Não precisamos, portanto, de um Estado que pretenda fazer tudo, mas de um Estado que saiba o que precisa ser feito, consiga reunir quem sabe fazê-lo e sustente o esforço pelo tempo necessário.
A geografia voltou, e a geologia também. Com elas, as grandes potências voltaram a organizar ciência, indústria, comércio, finanças e Defesa em torno de seus interesses estratégicos. O Brasil não precisa imitá-las, nem escolher entre fechar-se ao mundo e aceitar passivamente escolhas feitas em outros lugares. Precisa reconstruir sua capacidade de decidir em que condições deseja participar desse mundo.
Em uma democracia, a resposta à pergunta que dá título a este artigo deveria ser simples: quem decide o futuro do Brasil são os brasileiros. Mas essa resposta não basta. Podemos escolher nas urnas os rumos que desejamos para o país e, ainda assim, descobrir que nos faltam as capacidades necessárias para transformar essas escolhas políticas em possibilidades reais. Precisamos, portanto, preservar e ampliar as capacidades que tornam alternativas reais – conhecimento, instituições, tecnologia, indústria, financiamento e Defesa.
Soberania começa com o direito de escolher, mas só se completa quando um país conserva a capacidade de realizar aquilo que escolheu.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem decide o futuro do Brasil, mas aquela que permanece depois de todas as outras: quanto desse futuro ainda somos capazes de decidir?
Bibliografia
1. Sen, A., Development as Freedom. 1999, New York: Alfred A. Knopf. xvi, 366.
2. Hausmann, R., et al., The Atlas of Economic Complexity: Mapping Paths to Prosperity. 2014, Cambridge, MA: The MIT Press. 368.
3. de Melo, C.P., O que o Brasil precisa saber fazer. Jornal GGN, 2026. https://jornalggn.com.br/artigos/o-que-o-brasil-precisa-saber-fazer-por-celso-p-de-melo/.
4. Downing, T., Secret Warriors: Key Scientists, Code Breakers and Propagandists of the Great War. 2014, London: Little, Brown.
5. Zimmerman, D., Top Secret Exchange: The Tizard Mission and the Scientific War. 1996, Montreal; Kingston: McGill-Queen’s University Press. 252.
6. Baggott, J., The First War of Physics: The Secret History of the Atomic Bomb, 1939-1949. 2010, New York: Pegasus Books. 584.
7. Lafer, C., JK e o Programa de Metas (1956-1961): Processo de Planejamento e Sistema Político no Brasil. 1 ed. 2002, Rio de Janeiro: Editora FGV. 256.
8. de Melo, C.P., O padrão oculto dos minerais críticos no século XXI. Jornal GGN, 2026. https://jornalggn.com.br/artigos/celso-p-de-melo-padrao-oculto-dos-minerais-criticos-no-seculo-xxi/.
9. de Melo, C.P., A SBF aos 60 anos: a física brasileira entre Sísifo e a construção de um país. Substack, 2026. https://substack.com/home/post/p-198113412
10. de Melo, C.P., Soberania digital: quando o Estado terceiriza a própria inteligência. Jornal GGN, 2026. https://jornalggn.com.br/artigos/soberania-digital-como-projeto-nacional-por-celso-p-de-melo/.
11. Mazzucato, M., Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism. 2021, London: Allen Lane. xxiv, 244.
12. Vieira, F.S., Emendas parlamentares ao orçamento federal do Sistema Único de Saúde (2014-2025), in Emendas parlamentares em políticas sociais, F.S. Vieira, P.M. Nascimento, and J.A.C. Ribeiro, Editors. 2026, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): Brasília, DF. p. 83–115.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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