Este texto, destinado prioritariamente aos eleitores do Flávio Bolsonaro, não é, juro, uma provocação. E apesar de ele não ensejar uma pergunta retórica, não quero resposta. Minha ideia aqui é uma reflexão, que sim, ao final das contas, possa ensejar uma mudança de voto. Não temos tempo para tergiversar. Não quero tomar o tempo de ninguém. Este texto visa a mudança de voto para o Lula. Pronto, falei.
Eu até entendo um empresário rico, um CEO, enfim, alguém que não receba um salário que dê contadinho pro mês, votar no Flávio, afinal, ele promete melhorar as condições de quem produz. Quem realmente produz, no capitalismo, são os trabalhadores. Os empresários, em regra, não produzem nada. Detêm as máquinas e contratam aqueles que produzem. Mas, enfim, Flávio promete melhorar a vida dos empresários.

Não há ilegitimidade nisso, diga-se. É o modo de pensar da direita: melhorar os ganhos dos empresários e, em eles ganhando mais, em tese, poderiam contratar mais e/ou remunerar melhor seus funcionários. Tem sua lógica, mas eu não acredito. Eu penso que as empresas contratam exatamente o número de empregados de que precisam (se for mais lucro terceirizar, o fazem) e pagam estritamente o que a lei manda. Uma que outra empresa tem algum plano de carreira, mas que, em regra, não fazem os funcionários terem grandes ganhos ao longo da trajetória. Essa sugestão de “negociar direto com o patrão” só pode ser enredo para o Porta dos Fundos. Só há a proposta e a contraproposta: arrume outro emprego, se não está satisfeito.
A esquerda, por sua sorte, vai pelo outro lado. Melhora a vida do empregado diretamente, no cerne, na lei que vige aquela relação de trabalho. A proposta da escala 5×2 é o melhor exemplo em voga: todos os trabalhadores só poderão trabalhar cinco dias por semana e no máximo 40 horas semanais. E as empresas, a partir disso, que se adequem. E elas vão se adequar. Alegam que não porque é do jogo, da negociação sindical dizer que não consegue. As empresas, em princípio, nunca conseguiriam arcar com nenhum dos direitos trabalhistas hoje consagrados, férias, 13º, atestado médico, fim da escravidão…
E não me venham com o papinho de que a esquerda queremos acabar com as empresas, que somos comunistas e blábláblá. Ainda na Guerra Fria estão os pretensos liberais que nos fazem essa acusação como argumento. Somos favoráveis às empresas, às grandes e às pequenas. E que tenham muito lucro. E que dividam pelo menos em parte esse lucro com os funcionários já que os empresários mesmo o chamam de “colaboradores”. Ora, se colaboram, merecem pelo menos parte dos ganhos.
A expressão “pobre de direita” não existe à toa. Eu nunca vi, no Brasil ou em qualquer lugar e a qualquer tempo, a direita favorecer o trabalhador. Getúlio Vargas, talvez, mas ele era algo até mais do que dúbio. Era multifacetado. Ora flertava com a esquerda, ora com o fascismo, mas era um trabalhista… Flávio não tem nada nem perto do trabalhismo e nem muito menos com a esquerda. E nem deu qualquer indício de que iria melhorar o ganho dos trabalhadores. De novo, ele sempre se referiu aos empresários. Nos contentaremos com as eventuais sobras?
Tu, como trabalhador autônomo ou assalariado, que motivos têm para votar no Flávio? Reflita.
Eu sei, eu sei. A esta altura tu já estás pensando na corrupção. Que o PT fez a maior quadrilha deste país, que o Petrolão, que o Mensalão… aqui a gente entra num rebuliço. Tu não aguentas e queres responder. Por favor, não. Trabalhe a resiliência e siga a leitura. Os chamados petrolão e mensalão envolveram políticos de todas as searas ideológicas e de todos os partidos. O partido que mais tinha gente envolvida, aliás, nem era o PT, era o PP, pasmem, de direita e de oposição, à época. Outro envolvido no Mensalão, que foi preso por causa disso, foi o Waldemar da Costa Neto. Sim, sim, ele mesmo.
E o Lula? Não houve nenhuma, nenhuma prova contra ele. Por isso, o processo foi arquivado.
Mas óquei, eu respeito teu direito de desconfiar. E mais, “à mulher de Cesar não basta ser honesta, tem que parecer honesta.” Ocorre que, mesmo contrariando a Justiça Brasileira, o valor do tal sítio e de um apartamento que o Lula teria ganhado ilegalmente não chega nem a 1% do valor dos imóveis comprados com dinheiro vivo por Flávio Bolsonaro e cujas fontes ele não conseguiu provar.
Falando ainda em corrupção, há os casos das rachadinhas, que dividia dinheiro público com milicianos. Há o oferecimento de medalhas pra milicianos!
Por fim, pediu milhões pro banqueiro Vorcaro pra financiar um filme pastelão sobre o pai. A “superprodução” não poderia ter custado tanto. Há suspeitas de que o dinheiro sirva para bancar o irmão, que está nos Estados Unidos fazendo campanha contra o Brasil. E, este é um texto sem melindres: o dinheiro do Banco Master não é privado. É oriundo de roubo de previdência e de aposentados.
Então, se é para acabar com a corrupção, tu bem sabes que não pode votar no Flávio. A gente não consegue nos enganar e enganar a Deus.
Falar em Deus, qualquer um sabe que toda a família Bolsonaro só se converteu tardiamente e por pura conveniência. Querem surfar na onda neopentecostalismo. Alguém realmente acha que eles são cristãos de fé?
E, religiosos, vocês sabem que o PT nunca perseguiu religião nenhuma. No caso das igrejas neopentecostais, foi inclusive nos governos Lula que elas mais cresceram, principalmente com o dinheiro do Bolsa Família.
Só que, ao contrário do Bolsonarismo, Lula não transforma altar em púlpito. Ele, católico desde sempre, nunca utilizou a Igreja para fazer Política. E sempre foi muito bem recebido enquanto chefe de estado em qualquer templo, do Candomblé às Sinagogas.
Religiosos, o que o Flávio faria por vocês que o Lula não? Que tipo de perseguição vocês realmente temem com o PT no poder?
E os defensores da família, porventura não viram as orgias (também com dinheiro público) que o Flávio frequentava, enquanto deixava mulher e filhas em casa? Sério, é ele o representante da família tradicional?
Patriotas, onde estão vocês? Desde quando patriotismo é lamber as botas dos Estados Unidos, balançar bandeira de Israel e prometer nossas riquezas ao Trump? Sério, essa postura subserviente que a família Bolsonaro tem para com os Estados Unidos se confunde com patriotismo? Pedir por taxação dos produtos brasileiros para, em tese, prejudicar o governo é lealdade à Pátria ou defesa de interesses particulares?
E o chamado Agro, o que os governos petistas fizeram ou não fizeram que os agricultores lhes declararam guerra? Safra, Pronaf e Pronanf por acaso estão com seus repasses em atraso?
Será uma relação com o MST, historicamente ligado ao PT? Eu sei, eu sei. Tu não és agricultor. Nunca teve terras invadidas pelo MST, mas teu saudoso pai, que Deus o tenha, sempre te ensinou que o que é do outro não se deve pegar. Se encontrou algo perdido num lugar, devolva-o ao mesmo lugar, que o dono virá buscar. Tu queres honrar a memória e ensinamentos do teu pai e o MST vai contra isso. É louvável teu posicionamento social como de filho. E eu nem vou aqui entrar na função social da terra e nem da distribuição desigual desde pelo menos a chamada Lei Geral de Terras. Mas pergunte a algum agricultor que fala mal do governo se ele já teve as terras invadidas. Veja quais são as chances de mesmo uma grande propriedade improdutiva ser invadida. Pesquise sobre assentamentos, veja que são poucos e que o governo ainda indeniza os antigos proprietários. E antes de chamar os assentados de vagabundos, saiba que o MST é o maior produtor de arroz orgânico do Brasil. Então, pare de se preocupar com o território alheio. Provavelmente ele não será ocupado. E teu pai segue descansando em paz com a tua certeza de que ele te deu uma boa educação.
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O Bolsonaro Pai terminou o mandato tentando um golpe de estado. Pare, pare de me responder mentalmente, te pedi lá no início pra não fazer isso. Mas eu te respondo: sim, ele poderia comandar um golpe mesmo estando nos Estados Unidos (o que torna as pessoas que lá estavam umas boca-aberta bem mandadas); e sim, teve armas e violência, inclusive contra a Polícia. Reveja as imagens. E chega, já te pedi para parar de me responder em pensamento. Não tinha nada de petistas infiltrados. Eram, repito, paspalhos que estavam defendendo um golpe em prol dum fujão. Inclusive aquelas vovós, que de inofensivas não têm nada. Fosse assim, estariam em casa bordando e fritando bolinho aos netos. Os canalhas também envelhecem.
Mas, o que quero com preocupação dizer: há um perigo iminente de um golpe no País, agora que eles estão mais experientes. E eu sei, tu balançaste a cabeça negando, mas no fundo achando que grande coisa, seria um golpe com o governo que tu concordas, então, tudo certo. Só que não. Primeiro que o bolsonarismo tem a fama de abandonar os seus quando esses não mais lhes convêm (achas mesmo que tu, ilustre desconhecido, que a única coisa que fez pelo bolsonarismo foi ir votar de camisa do Brasil e brigar com meia dúzia no Instagram é indispensável?); outra, em todos os regimes autoritários, a maior parte dos iniciais apoiadores se arrependeram depois. No Brasil, podemos lembrar de Carlos Lacerda, a Rede Globo e até parte da Igreja. Inclusive muitos que foram às ruas por Deus pela Liberdade tiveram seus filhos perseguidos, presos e/ou mortos ou desaparecidos. É uma ditadura, mesmo de direita, que tu quer?
Repito, o risco é real com Flávio no Poder.
Eu espero que tu tenhas ficado pelo menos um pouco preocupado antes de pensar “ah, mas e a Ditadura do STF, em que o Alexandre de Morais…”, mas para, tchê. Vou eu dar uma de ditador e de novo pedir que se cale. É um texto puramente reflexivo. Mas vou te responder, óquei, que sou um democrata e tenho a democracia como pressuposto. Uma coisa é investigar Alexandre de Morais (e não se esqueçam também de exigir o mesmo com o Nunes Marques e com o Mendonça), outra bem diferente (e temerária) é tirar um ministro cada vez que ele toma alguma decisão que não me agrada. Isso sim causaria uma insegurança jurídica tremenda. O PL fez, infelizmente, a maioria no Senado. Discutam, então, novas formas de provimento e vacância dos onze ministros. Idade mínima maior, tempo máximo de permanência…
Uma jornalista aqui do Sul disse que uma explicação para o crescimento da direita seria um eventual pedantismo da esquerda. Segundo ela, nós nos acharíamos superiores. Eu concordo e discordo dela. Concordo que sim, nos achamos superiores, mas assim como certamente os bolsonaristas se acham. É lógico, se eu acho que estou certo e o outro errado, eu sou superior, pelo menos no que tange àquilo. Já fui chamado de burro ene vezes pelo pessoal da direita. Eu tento, por elegância não tratar ninguém com desdém. Até porque isso é infértil. Aquele que me chamou de burro não vai me convencer nem de que sou burro e nem de que a ideia dele está correta. Penso que vale o mesmo em relação a mim para com o outro.
E sobre esse texto, difícil escrevê-lo assim, fugindo dos deboches, pois o sarcasmo e a ironia acabam sendo meu reduto argumentativo. Mas, como disse, quero mesmo não debater, não “vencer” nas ideias. Repito, estou realmente preocupado com o futuro do Brasil, da democracia e do trabalho no País.
Talvez este tom mais sóbrio devesse ter sido usado por mim e por outros desta e da outra esfera ideológica, pra se chegar numa síntese, mas, enfim, voto dado, voto computado.
Eu, petista, esquerdista, antibolsonarista estou aqui com a bandeira não vermelha, mas branca em aceno a que repensem e pensem bem no seu voto. A vaidade não é a melhor das conselheiras (talvez isso valesse pra esquerda antes, também) e nem mesmo a repulsa a um grupo pela pura repulsa nos conduz ao melhor. Não adore o Lula, não espero isso, mas, francamente, penso que, pela tua visão, ele seria o “menos pior”, o único que não porá nossa democracia, nosso bem maior em risco.
*Delmar Bertuol é professor de história
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