Perícia de “Dark Horse” apurou valores diferentes dos apontados pela PF em relatório; entenda

Imagem de divulgação de “Dark Horse”

Dados analisados pela Polícia Federal sobre as movimentações da Go Up Entertainment, produtora brasileira de “Dark Horse”, divergem da perícia privada contratada pela empresa para examinar o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A investigação apura suspeitas de desvio de emendas parlamentares e apontou diferenças sobre a origem dos recursos, os valores gastos no Brasil e a possível circulação de dinheiro público.

A perícia divulgada no fim de agosto calculou em R$ 20,9 milhões o custo da produção no Brasil, dentro de um orçamento total de US$ 13,4 milhões, ou R$ 75,2 milhões. O documento sustenta que a maior parte dos recursos usados no país veio de transferências da empresa Go Up Entertainment LLC, sem detalhar o montante enviado do exterior.

O relatório da PF, baseado em comunicado do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), examinou transações realizadas nos últimos 50 dias de 2025, período que coincide com as filmagens no Brasil. Nesse intervalo, a produtora recebeu R$ 9 milhões e desembolsou R$ 10 milhões em despesas que incluem hotelaria, alimentação, produção e pagamentos.

Para os investigadores, os R$ 9 milhões recebidos têm composição distinta da apresentada na perícia. Do total, R$ 3,9 milhões passaram por uma casa de câmbio, sem informação sobre a origem estrangeira dos valores, enquanto os R$ 5,1 milhões restantes vieram de quatro remetentes sediados no Brasil.

Karina da Gama e Mário Frias. Foto: reprodução

Repasses à produtora entram na apuração sobre emendas

A GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, empresa de Karina Gama, responsável também pela Go Up, transferiu R$ 2,6 milhões. Marcello de Oliveira Lopes, ex-marqueteiro de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enviou R$ 1 milhão; a NTT Brasil Ltda repassou R$ 750 mil; e o deputado federal Mario Frias transferiu R$ 645 mil.

A PF investiga uma possível trilha entre recursos de emendas indicadas por Frias, empresas fornecedoras do Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Gama, e a Go Up Entertainment. O ICB recebeu verbas para projetos culturais e contratou empresas que, conforme a corporação, mantêm vínculos entre si e com o núcleo empresarial sob investigação.

A NTT Brasil ocupa posição relevante nessa linha investigativa. Administrada por Heric Fabiano Dias, a empresa transferiu R$ 750 mil à Go Up e tem elos familiares e societários com duas fornecedoras que receberam, juntas, R$ 700 mil do ICB em um projeto de R$ 1 milhão bancado por emenda de Frias.

A corporação registrou que não encontrou plena compatibilidade temporal entre os pagamentos do ICB às fornecedoras e o repasse posterior da NTT à produtora, mas considera a sequência um indício de possível restituição de valores ao núcleo investigado. Sobre os R$ 645 mil enviados por Frias, a PF afirmou que os rendimentos mensais declarados pelo deputado, de R$ 44 mil, “coloca[m] em questão o lastro financeiro” da transferência.

A perícia contratada pela Go Up negou uso de dinheiro público, repasses governamentais, incentivos fiscais, Lei Rouanet, doações ou patrocínios na obra e concluiu que os recursos tinham origem privada. Flávio Bolsonaro, que admitiu ter pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme, classificou a operação como “fajuta” e afirmou: “Foi tudo redondinho. Investimento privado num filme privado”.

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