A Polícia Civil de São Paulo e o Ministério Público estadual, por meio do Gaeco, deflagraram nesta quinta-feira (17) a terceira fase da Operação Vectura Corrupta.
A ação investiga a infiltração da organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte coletivo da capital paulista e no poder público.
A Justiça autorizou prisões temporárias de dezenas de mandados de busca e apreensão. Entre os alvos das ordens judiciais está o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite da Silva (União Brasil), que ocupou o Legislativo paulistano por 27 anos e se consolidou como a principal força política na sustentação do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na capital.
Ele não foi localizado em sua residência e afirmou, por meio de nota, que está em viagem, negando estar foragido e informando que se apresentará às autoridades em até 24 horas para demonstrar sua inocência. A polícia o considera foragido caso não compareça. Até o início da manhã, nove pessoas haviam sido presas
A decisão do desembargador Sérgio Ribas, da 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, aponta que Milton Leite é citado nominalmente como responsável direto pela operação de empresas atribuídas à facção. Depoimentos de policiais militares em procedimento no Tribunal de Justiça Militar o classificam como operador de fato da Transwolff, concessionária já alvo de intervenções e investigações anteriores.
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Infiltração no sistema de transporte público
O ponto central da apuração, destacado na decisão judicial, é a conclusão do Ministério Público de que 12 das 22 empresas que operam o transporte coletivo municipal estariam sob controle direto ou indireto da organização criminosa.
O desembargador registrou na decisão que o dado causa enorme alerta pela dimensão do impacto no serviço público essencial da capital.
O esquema utilizava laranjas no comando formal das companhias, operações de venda de ônibus para movimentação de valores ilícitos e as concessionárias como fachada para outros negócios do grupo. Entre as empresas citadas nos autos estão Transwolff, Transcap, Alfa Rodobus, A2 Transportes, Imperial, Move Bus, Pêssego, Allianz, Transunião, Qualibus, Norte Bus e Spencer Transportes.
A Operação Vectura Corrupta é um desdobramento da Operação Decúrio, realizada em agosto de 2024, e soma-se a ações anteriores no mesmo setor, como a Operação Fim da Linha, voltada contra as empresas Transwolff e UPBus, e a Operação Última Parada, deflagrada em junho de 2026 contra a Transunião.
Financiamento político e ramificações na gestão de Ricardo Nunes
A investigação aponta também a existência de um núcleo político ligado ao esquema e o financiamento de candidaturas nas eleições municipais de 2024. Diálogos extraídos de celulares apreendidos indicam aportes financeiros e articulação de apoio político para campanhas eleitorais do grupo.
Preso durante a operação, Danilo Marco Morgado Silva (PL), empresário de 41 anos e candidato nas eleições de Praia Grande, é apontado pelas investigações como um dos beneficiários do esquema.
O Ministério Público indica que sua campanha em 2024 teria sido custeada pela organização. O nome de José Ronaldo Alves de Sales, ex-funcionário da Assembleia Legislativa de São Paulo, também surge nos autos como mediador da articulação política.
Outro preso na ação é Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans e ex-secretário de Mobilidade e Trânsito nomeado na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). A apuração aponta registros de encontros entre o ex-secretário da gestão municipal e operadores do esquema após a realização de operações policiais anteriores.
A ação atinge ainda advogados investigados por atuar em defesa dos interesses do grupo criminoso. Os citados negam as acusações. A defesa de Milton Leite declarou que sua atuação com o setor de transportes ocorreu de forma estritamente institucional a pedido da gestão municipal durante a greve de 2019. As investigações seguem em sigilo parcial.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) não comentou o mandado contra Milton Leite nem a prisão de Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans e ex-secretário de Mobilidade da própria gestão. Nunes limitou-se a dizer que o transporte coletivo não corre risco de interrupção.