
Por Sara Goes
Na terça-feira, 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal discutiu se os procedimentos envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, no caso Banco Master, deveriam tramitar juntos ou separadamente. Cármen Lúcia acompanhou Edson Fachin, Luiz Fux e André Mendonça pela separação. Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes defenderam a reunião dos casos. Flávio Dino havia votado pela análise conjunta, mas pediu vista. O julgamento foi suspenso.
Cármen Lúcia fez um discurso de tristeza e vergonha. Pediu desculpas ao povo brasileiro e criticou a espetacularização do caso. Disse que o Supremo havia provocado um mal-estar cívico. A fala teve grande repercussão nas redes e levou a sua canonização digital na santa igreja do senso comum.
Cármen Lúcia virou a mulher íntegra cercada por homens descontrolados. A ministra sensível, discreta, honesta, que gosta de literatura e canta com Alcione. A única capaz de preservar a dignidade do Supremo. E o Oscar vai para Carmem Lúcia.
A simpatia que a ministra desperta não deveria funcionar como salvo-conduto para seus votos. O que faltou naquele discurso foi o voto. A fundamentação constitucional, os argumentos jurídicos, a explicação sobre o caso. Cármen Lúcia falou de tristeza, vergonha e mal-estar. Mas o Supremo não é um confessionário diante das câmeras. É um tribunal.
🔥MINISTRA CARMÉN LÚCIA É MUITO DIGNA E NOBRE E SE DIZ ENVERGONHADA E PEDE DESCULPAS AO POVO BRASILEIRO pic.twitter.com/MxumnmAciL
— Jeje ✨ (@jejezaum) September 15, 2026
A ministra sabe que está na TV Justiça. Sabe que suas falas circulam nas redes, que uma frase emocional pode alcançar mais gente do que páginas de fundamentação. Quando pede desculpas e se apresenta como alguém envergonhada com o comportamento da Corte, também está construindo uma imagem diante da plateia.
Cármen Lúcia não chegou ao Supremo ontem. Em 2016, participou do julgamento de questões relacionadas ao rito do impeachment de Dilma Rousseff. Em 2018, presidia a Corte quando foi julgado o habeas corpus preventivo de Lula. Votou contra o pedido da defesa, e o resultado foi de 6 a 5 pela rejeição. A decisão permitiu a prisão do Presidente Lula antes do trânsito em julgado da condenação.
Não se pode olhar para o discurso de 2026 como se ele estivesse separado desse passado. A Lava Jato havia transformado a política brasileira em uma sucessão de denúncias, prisões, vazamentos e julgamentos televisionados. A operação construiu uma narrativa em que quase todos pareciam sujos, menos os responsáveis por conduzi-la. Sérgio Moro aparecia como o juiz acima da disputa política, o homem que supostamente apenas aplicava a lei.
O método era midiático. A toga conferia autoridade moral. A exposição dos processos ajudava a construir personagens. A crítica aos políticos vinha acompanhada da imagem de uma Justiça que se apresentava como incorruptível e a canonização de Cármen Lúcia nas redes reproduz parte dessa lógica. É uma forma vazia de representação feminina, usada para produzir uma figura pública acima da crítica. O fato de Cármen Lúcia ser mulher não torna seus votos mais constitucionais. Sua sensibilidade não substitui a fundamentação jurídica. Sua simpatia pessoal não apaga o papel que desempenhou em decisões de enorme impacto político.

E onde está essa mesma indulgência quando o assunto é Flávio Dino? Por que Dino não é apresentado como uma figura de integridade institucional quando critica a condução de uma sessão do Supremo? Por que sua atuação é recebida com desconfiança, enquanto Cármen Lúcia é tratada como uma espécie de consciência moral da Corte? E por que Presidente Lula nunca recebe esse tratamento? Lula foi preso depois de um julgamento no qual Cármen Lúcia votou contra o habeas corpus da defesa. O processo foi posteriormente anulado pelo STF, que reconheceu a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os casos. Mas a imagem da ministra como símbolo de virtude parece sobreviver a esse passado sem precisar enfrentá-lo.
A crítica à espetacularização do Judiciário precisa alcançar também quem participa dela. A TV Justiça é importante para a publicidade dos julgamentos. Mas publicidade não pode virar disputa pela aprovação da plateia. O Supremo não precisa de santos. Precisa de ministros cujos votos possam ser examinados, questionados e compreendidos pela sociedade.
Cármen Lúcia pode estar triste. Pode estar envergonhada. Pode pedir desculpas. Mas isso não a coloca acima da história do tribunal. A ministra faz parte dessa história. E seus votos precisam ser discutidos com o mesmo rigor que se exige dos demais. Sem canonização. Sem indulgência seletiva. Sem Oscar.