O que a grande mídia não está dizendo: o fim das bets é melhor para a economia

Bets na Globo

Enquanto manchetes alarmistas destacam a “perda” de bilhões em arrecadação com a proibição das plataformas de apostas esportivas, uma análise mais cuidadosa dos dados revela que o fim das bets pode representar um alívio, e não um prejuízo, para a economia brasileira e para o orçamento das famílias.

A narrativa predominante é de que o governo federal estaria abrindo mão de uma “mina de ouro” tributária ao encerrar o mercado regulado de apostas. No entanto, os números oficiais contam outra história.

De acordo com dados do Banco Central e da Receita Federal, a arrecadação direta com impostos sobre as bets em 2025 foi de aproximadamente R$ 9 bilhões, valor significativo, mas muito inferior ao que algumas reportagens sugerem ao somar períodos distintos ou incluir projeções não realizadas.

Além disso, esse montante precisa ser ponderado frente ao impacto macroeconômico negativo que as apostas provocaram. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da USP, calcula que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, o equivalente a 0,9% a 1,1% do PIB. Isso ocorreu porque o dinheiro destinado às apostas deixou de circular em setores produtivos da economia, como comércio, serviços e indústria.

A questão central que a grande mídia ignora é o conceito de “efeito multiplicador” do consumo. Quando uma família deixa de gastar R$ 500 por mês em apostas, esse dinheiro não desaparece — ele tende a ser realocado para outras finalidades que geram muito mais riqueza e emprego.

Veja alguns exemplos de como esses recursos podem ser redirecionados:

  • Bares e restaurantes: Jantares em família, encontros com amigos e celebrações que antes eram substituídos pela expectativa de um ganho nas apostas.
  • Cultura e lazer: Ingressos de cinema, teatro, shows e parques de diversão, setores que empregam milhares de brasileiros e pagam impostos municipais e estaduais.
  • Bens duráveis: Compra de eletrodomésticos, celulares, televisores e outros eletrônicos que movimentam cadeias produtivas inteiras.
  • Automóveis: Para os apostadores de maior volume, o dinheiro economizado pode significar a entrada de um financiamento ou a compra à vista de um veículo.
  • Viagens: Turismo doméstico, hospedagem e transporte, setores fortemente impactados pela pandemia e que dependem do consumo das famílias.

Além do consumo imediato, parte dos recursos pode ser destinada ao pagamento de dívidas, reduzindo a inadimplência e liberando renda futura para novos gastos, ou à poupança e investimentos, que financiam crédito e expansão.

Do ponto de vista da saúde econômica, é muito mais vantajoso que o dinheiro circule em transações reais do que fique retido em plataformas digitais de apostas, onde grande parte é enviada para o exterior ou usada para pagar prêmios que não geram produção.

O relatório do Made mostra que, considerando a carga tributária média de 32,4% do PIB em 2025, a redução da atividade econômica causada pelas bets implicou perda líquida de R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões na arrecadação total — mesmo descontando os R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com as plataformas.

Em outras palavras: o governo pode ter recebido R$ 9 bilhões em impostos das bets, mas deixou de arrecadar entre R$ 31 bilhões e R$ 54 bilhões em outros tributos (ICMS, ISS, PIS/COFINS, IR, etc.) porque o consumo foi sufocado.

Além dos números frios, há um componente humano inegável. Relatos de famílias endividadas, viciados em apostas e até casos de suicídio associados a perdas financeiras nas plataformas têm sido cada vez mais frequentes. O fim das Bets, portanto, não é apenas uma medida política de saúde pública e proteção socioeconômica, mas também é uma medida para uma economia mais justa e eficiente.

A proibição das bets não é um “tiro no pé” na economia brasileira. Pelo contrário, é uma correção de rota que permite que bilhões de reais voltem a circular em setores produtivos, gerando emprego, renda e, paradoxalmente, mais arrecadação no longo prazo. O que a grande mídia não está dizendo é que, às vezes, menos impostos diretos podem significar mais prosperidade para a população e para o país.

 

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