
Publicado no Substack. Por Olímpio Cruz Neto, jornalista e analista de Risco Institucional e Geopolítica. Foi consultor do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e secretário de imprensa da ex-presidente Dilma Rousseff
O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras domina de forma excepcional a cobertura internacional da imprensa estrangeira nesta terça-feira, 6 de outubro. Parte da mídia, assim como setores da sociedade brasileira, ainda está processando o resultado eleitoral. O mundo vê mais do que uma disputa doméstica no maior país da América do Sul. A imprensa estrangeira sabe que a corrida presidencial brasileira terá fortes desdobramentos na geopolítica.
Os jornais dão grande destaque ao resultado eleitoral. Financial Times, Wall Street Journal, New York Times, Washington Post, Le Monde, Libération, Le Figaro, Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Welt, The Times, China Daily e Asia Times dedicam muitas páginas à vantagem de Flávio Bolsonaro, chamado por alguns veículos como ‘Bolsonaro Jr.’, sobre o veterano líder Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que busca o quarto mandato.
A imprensa estadunidense, europeia e asiática aponta as consequências políticas, econômicas e geopolíticas de uma possível mudança de governo, com potencial para ampliar o grau de influência dos Estados Unidos sobre a região. A leitura predominante nos jornais estrangeiros é que o resultado de domingo ultrapassa a disputa presidencial e revela um deslocamento mais amplo do sistema político brasileiro para a ultradireita, reforçado pelo desempenho conservador nas eleições legislativas e estaduais.

Wall Street Journal sintetiza essa interpretação ao afirmar que o movimento ultraconservador construído por Jair Bolsonaro tornou-se uma força política dominante no país. Além da chegada de Flávio Bolsonaro ao segundo turno à frente de Lula, o jornal destaca que o PL praticamente dobrou sua representação no Senado, alcançando 28 das 81 cadeiras. A legenda consolida-se como o maior partido da Câmara, enquanto candidatos de direita ou centro-direita venceram ou terminaram em primeiro lugar em cerca de 20 das 26 disputas estaduais e no Distrito Federal. O jornal relaciona essa transformação a mudanças sociais de longo prazo, ao crescimento das igrejas evangélicas, à centralidade da segurança pública e ao fortalecimento econômico e político do agronegócio, impulsionado, entre outros fatores, pela demanda chinesa por soja, carne e outras commodities brasileiras.

A reação dos mercados acrescenta uma dimensão econômica imediata ao resultado. O mercado comemorou. O Financial Times destaca na manchete de primeira página desta terça-feira que o Real avançou 4,8% frente ao dólar e as ações brasileiras registraram forte valorização após o primeiro turno, enquanto investidores passaram a precificar maior possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro e uma agenda de reformas fiscais e redução dos juros. Em Nova York, as ações do Nubank subiram 13%, segundo o WSJ. A movimentação expressa uma expectativa dos investidores, e não uma mudança já ocorrida nos fundamentos econômicos ou uma antecipação segura do resultado do segundo turno.
A dimensão internacional da eleição também recebe atenção significativa. New York Times, Washington Post, FAZ e Die Welt apontam que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro produziria uma reorientação da política externa brasileira em direção aos EUA. Entre as propostas mencionadas estão a adesão brasileira ao Shield of the Americas (Escudo das Américas), iniciativa regional de segurança liderada por Washington, maior cooperação de inteligência contra organizações criminosas e aproximação política e econômica com os EUA. O diário alemão FAZ acrescenta que Flávio Bolsonaro questiona a atual atuação brasileira no BRICS e pretende facilitar o acesso norte-americano a matérias-primas estratégicas do país.

Essa eventual reorientação, entretanto, encontra limites econômicos concretos. A própria imprensa alemã observa que a China permanece como principal parceiro comercial do Brasil, criando uma interdependência difícil de substituir. WSJ oferece dois indicadores dessa relação: a forte demanda chinesa por commodities brasileiras ajudou a ampliar a importância econômica do agronegócio, enquanto o Brasil aparece, ao lado da Rússia, entre os maiores importadores mundiais de automóveis produzidos na China. Uma mudança de alinhamento diplomático, portanto, ocorreria sobre uma estrutura comercial profundamente conectada à economia chinesa.

A relação com os EUA também aparece de forma mais complexa do que uma simples aproximação ideológica. Washington Post examina a decisão de Donald Trump de manter distância pública da campanha de Flávio Bolsonaro durante o primeiro turno e relata avaliações segundo as quais esse silêncio pode ter evitado uma reação nacionalista do eleitor brasileiro. NYT, por sua vez, situa uma eventual vitória de Bolsonaro dentro da estratégia mais ampla de Washington para ampliar sua influência na América Latina, mas lembra que as relações bilaterais continuam marcadas por tarifas e sanções impostas pelos EUA ao Brasil.

Na imprensa francesa, o resultado recebe enquadramento predominantemente político. O jornal Le Monde descreve Flávio Bolsonaro como favorito para o segundo turno após alcançar cerca de 47% dos votos contra aproximadamente 45% de Lula, enquanto o Libération interpreta sua liderança como parte de um avanço mais amplo da extrema direita na América Latina. Até o conservador Le Figaro também destaca na capa da edição desta terça a posição de força do candidato oposicionista. Já o L’Humanité concentra-se na reação da esquerda e na estratégia de mobilização de Lula para as três semanas restantes de campanha, enfatizando que a disputa permanece aberta. Em diferentes graus, os franceses associam o resultado brasileiro ao avanço recente das forças de direita e extrema direita na região.

O desempenho de Lula no primeiro turno também provoca questionamentos no exterior sobre a distância entre indicadores econômicos e sociais e o comportamento eleitoral. O jornal Le Monde lembra que o terceiro mandato do líder petista chegou à eleição com desemprego marcando 5,3% – o menor em muitos anos –, 14 milhões de pessoas retiradas da situação de pobreza e a redução de 45% do desmatamento da Amazônia. Todos esses bons resultados não impediram a vantagem de Bolsonaro Jr. Segurança pública, insatisfação econômica, força conservadora regional e mudanças sociais aparecem entre as explicações levantadas pelos diferentes veículos para esse descompasso.
O segundo turno brasileiro será acompanhado não apenas como uma disputa entre o bolsonarismo e o lulismo, mas como uma decisão com possíveis consequências sobre política econômica, comércio exterior, relações Brasil-China, aproximação com os EUA, BRICS, matérias-primas estratégicas e segurança regional. O resultado do primeiro turno alterou as expectativas externas sobre o país. O mundo assiste e tenta entender como a melhora econômica e expansão de políticas sociais, que sempre produziram dividendos eleitorais, não funcionou desta vez. O domingo mostrou que a sociedade brasileira parece mais complexa do que uma planilha. Identidade, religião, segurança, valores, território, redes sociais e percepção de futuro também votam. Em 25 de outubro, o Brasil escolherá entre dois caminhos. O mundo observa para descobrir qual lugar o país pretende ocupar no século 21.