Eduarda Campopiano, inimiga das mulheres, e o ativismo digital da direita. Por Nathalí Macedo

Eduarda Campopiano
Eduarda Campopiano, vereadora do PL ao lado de cabina de votação. Foto: Reprodução

Eduarda Campopiano é a mulher mais votada em São Paulo para a Assembleia Legislativa, e eu poderia falar de sua trajetória política, mas ela inexiste. Essa garota surgiu do nada e se popularizou entre os conservadores, adivinha, nas redes sociais.

A deputada eleita e influencer de 23 anos é de Campinas – SP, nunca passou do ensino médio.

Filiada ao PL, foi vereadora por Praia Grande (SP) e registrou sua candidatura sem declarar bens ao TSE – anotem: estará milionária até o fim do mandato, às custas da destruição dos direitos das mulheres.

Ela começou produzindo conteúdos políticos nas redes aos 18 anos – com discurso conservador e altamente ideológico, seguindo os preceitos da escola de Olavo de Carvalho. Ao aproximar-se da nova geração do PL – que me causa náusea – foi vereadora e continuou munida de sua maior arma: o ativismo digital.

É difícil conceber que a esquerda ainda não tenha apostado suas fichas nas redes sociais. Não apenas reconhecer sua importância: investir. Injetar grana exatamente onde os votos, sobretudo da juventude, têm sido gerados partindo de discursos geralmente curtos e com apelo humorístico – infelizmente, ainda não aprendemos, ou ainda não demos a isso a importância devida.

Enquanto isso, seres como Eduarda Campopiano seguem surgindo dos esgotos do mais sombrio da internet, os redutos conservadores onde se prega de tudo, desde a ideia de que índios são canibais à suposta inexistência do feminicídio (sim, ela mesma declarou).

Depois de ganhar visibilidade produzindo conteúdo conservador merda na internet – mas há quem consuma –, se juntou com a Jovem Pan e a enxurrada de chorume saiu da represa da juventude conservadora deste país.

Foi aí que a querida começou a de fato entrar para a política, eleita aos 21 anos vereadora de Praia Grande – SP pelo PL.

É só isso. Sem carreira partidária. Sem trajetória política robusta. Sem cargo técnico que a permitisse conhecer a administração pública antes de ser parlamentar. Sem sequer conhecer o movimento estudantil – aliás, sem estudar, ao menos não além do ensino médio. Ela não precisou fazer nada pra chegar ao Congresso como mais votada, porque soube usar as redes sociais e cooptou um antifeminismo que já estava na moda muito antes dela – esperta, não podemos negar.

Essa é a meritocracia que prega a juventude conservadora. O pobre precisa ter mérito, quem é de esquerda precisa ter mérito, mas uma patricinha direitista chega à Assembleia Legislativa sem saber fazer um O com um copo.

Ela também precisou contar com o apoio de Lucas Pavanato, que já se declarou seu padrinho político e doou 25 mil para sua campanha, sabe-se lá a troco de quê. Os dois firmaram parceria que se consolidou – de novo – nas redes sociais.

Ambos fazem parte da estratégia cristalina e já em curso do PL de pegar jovens sem nada na cabeça, mas muito ativos nas redes sociais e defensores de discursos conservadores e pautas polêmicas, pra irem onde a juventude está, o que, já vimos, tem dado terrivelmente certo.

O PL, é bom destacar, injetou muito dinheiro na campanha de Eduarda, que foi apoiada por Nikolas Ferreira dentro do projeto de uma bancada jovem conservadora.

Não, ela não venceu sozinha – precisou se apoiar em alguns dos machos que tanto busca agradar, o que em muito condiz com seu perfil.

Dentre os poucos projetos que apresentou enquanto vereadora está o PL 81/2025, que cria o Dia da Conscientização da Saúde Mental Masculina.

Poderia ser da saúde mental, sabe? De todas e todos? Mas ela não disfarça que faz de tudo para agradar o eleitorado masculino enquanto odeia mulheres aos berros, se apresentando explicitamente como “a maior inimiga das feministas”.

É contrária à criminalização da misoginia por não acreditar em feminicídio – como se ele fosse uma ideia, e não um fato. Pró-vida, cristã, defensora dos valores de Deus e da família e também do porte de armas (afinal, Cristo andava com o fuzil), tudo de pior que existe no conservadorismo.

Uma influenciadora, ao fim e ao cabo, que usou a internet e a guerra cultural fundada por Olavo de Carvalho para ascender politicamente. Um exemplo de jovem dando certo na política – um exemplo que, com vossa licença, a esquerda deveria copiar.

Olavo de Carvalho. Foto: Arnaldo Alves/ Gazeta

A mera presença desse ser no Poder Legislativo é uma ameaça aos nossos direitos e às nossas vidas, e é urgente dizer isso.

Urge também dizer, para além das merdas que ela fala e do lugar de onde veio, é que, enquanto a esquerda não se estabelecer profunda e fortemente nas redes sociais, continuaremos perdendo para conservadores que de fato pensam em renovação.

Não há apenas um fator determinante para o crescimento da direita conservadora no país – sobretudo na juventude –, mas o baixo investimento nas redes sociais tem nos feito apanhar de uma estratégia, desculpem, genial.

Sem derrotismo e sem desesperança: uma garota de 23 anos sem trajetória política relevante foi a mais votada na Assembleia Legislativa de São Paulo e nós também podemos – basta que falemos a língua dos jovens nas redes.

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