O Brasil e o fantasma de George Orwell, por Tarson Núñez
O escritor britânico George Orwell ficou mundialmente famoso especialmente por conta do seu livro “1984”, em que ele descreve um mundo futuro dominado por um feroz totalitarismo. Este romance, escrito em meados do século XX passou para história como um clássico de denúncia das ameaças do poder sobre as liberdades individuais do cidadão. Por que falar disso agora? Se a data do futuro previsto por Orwell já ficou mais de quarenta anos para trás, este assunto já não está ultrapassado? Talvez porque a história contada por ele em 1949 demonstra uma atualidade assustadora no Brasil.
No mundo futurista do Orwell do século XX a sociedade era permanentemente vigiada pelo chamado “Grande Irmão”. A vida de todas as pessoas era estritamente controlada através de mecanismos tecnológicos que garantiam a manutenção da ordem, e o poder vigiava até os pensamentos dos cidadãos. Tudo isso aos olhos de hoje soa meio conhecido. Os donos das plataformas de internet controlam a nossa vida cotidiana em seus mínimos detalhes. Já vivemos, em grande medida, controlados pelo “Grande Irmão”. Por isso mesmo não é deste aspecto de 1984 que pretendo tratar neste artigo. Falar sobre uma sociedade baseada na vigilância permanente e no controle tecnológico já soa meio redundante hoje em dia, portanto a pauta aqui é outra.
Para além da estrutura de vigilância, outra das características do mundo totalitário apresentado por Orwell era a “Novilíngua”, um idioma fictício, projetado para controlar o pensamento da população, impedir o pensamento crítico e a rebeldia. Na história de “1984”, como na história humana de modo geral, a dominação não se dava apenas pela força, mas pela imposição ideológica dos conceitos na cabeça das pessoas. E a linguagem é um dos instrumentos fundamentais de construção da hegemonia.
Em 1984, a “Novilíngua” era o instrumento de construção do consenso, apresentando a realidade de acordo com os interesses do poder. Neste contexto, a autoridade encarregada da repressão aos dissidentes era o “Ministério do Amor”, as guerras e atividades militares ficavam a cargo do “Ministério da Paz”. O protagonista da história, Winston, trabalhava no “Ministério da Verdade” encarregado de reescrever constantemente os registros históricos a partir dos interesses do poder. Tudo era apresentado como o contrário do que acontecia na vida real.
É aí que o fantasma de George Orwell passa a pairar sobre as cabeças dos brasileiros. Hoje, no debate acerca das eleições presidenciais, o discurso da oposição é uma demonstração prática da distopia de Orwell. O filho Zero Um conseguiu arregimentar mais de 50 milhões de votos através de uma retórica digna da “Novilíngua” de Orwell. O que seria cômico, se não estivesse em jogo o destino de todo um país. Mas como alguém já disse uma vez, a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa. O fato é que no discurso de Flavio Bolsonaro tudo aparece ao contrário do que é na vida real. E o trágico é que em grande medida a mídia brasileira reproduz sem questionar a “Novilingua” da família miliciana.
Vamos aos exemplos. Uma das ideias chaves do discurso da oposição é a defesa da “Liberdade”. Essa é uma das ideias-força mais importantes da extrema direita, a garantia da liberdade contra a opressão estatal. O paradoxo é que este discurso de defesa da liberdade vem justamente de forças políticas que defendem abertamente a ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985, o maior exemplo de autoritarismo na história recente do país. E o pior é que este discurso da liberdade é utilizado por políticos que, quando no governo, promoveram perseguições políticas, tentaram impor censura e aparelharam o aparato de segurança para atuar em defesa de seus interesses pessoais. Como na “Novilíngua” de Orwell, o discurso é o contrário da vida real.
Outro elemento forte no discurso da candidatura do Zero Um é a crítica à corrupção, que seria resultante da presença da esquerda no poder. Mas na vida real este discurso vem de um candidato cuja trajetória é marcada por inúmeros casos em que o dinheiro público aparentemente foi utilizado em benefício pessoal. Da nomeação em um cargo no gabinete do pai à rachadinha com os funcionários no seu próprio gabinete, passando pela loja de chocolates utilizada para lavar dinheiro, até chegar a uma grande quantidade de imóveis comprados com dinheiro vivo, a vida política do Zero Um é uma lista de indícios de corrupção. O que não se limita ao candidato. Em todas as listas recentes de políticos presos por corrupção, o partido de Flavio, o PL, está sempre no topo com o maior número de casos. Temos portanto, os principais corruptos gritando contra a corrupção, mais um caso de “Novilíngua”.
Mas a Novilíngua à brasileira tem também outros desdobramentos. O candidato da extrema-direita busca capitalizar a insatisfação dos cidadãos em relação à segurança pública, se apresentando como um campeão na luta contra o crime organizado. No entanto, são públicas e notórias as relações da família Bolsonaro com as milícias paramilitares no Rio de Janeiro, que são uma parte importante do ecossistema criminal. E vários estudos mostram que entre os grandes beneficiários das políticas de liberação do acesso às armas foram justamente as facções criminosas. Além disso vários dos aliados de Flavio no Rio de Janeiro já foram presos por conta de comprovadas ligações com facções criminosas. Para completar este quadro, basta analisar os resultados eleitorais do primeiro turno e verificar quem venceu as eleições nos territórios dominados pelo crime organizado no Rio de Janeiro. Em todos eles Flavio venceu, uma demonstração prática acerca de que lado estão os grupos que controlam estes territórios. O combate ao crime, portanto, é mais uma expressão da “Novilíngua” dos Bolsonaro.
Por fim, uma das grandes forças do discurso do filho Zero Um é a ideia de que a sua é uma candidatura “anti-sistema”, que luta contra os poderosos interesses econômicos e políticos que historicamente controlam o nosso país. Essa postura “contra tudo que está aí” tem sido um importante instrumento para a extrema direita atrair os eleitores insatisfeitos com a realidade do país. No discurso do candidato da oposição, sua vitória representaria a derrota do “sistema”.
No entanto, os resultados do primeiro turno tiveram impactos que mostram de forma inequívoca que este discurso contra o sistema é apenas discurso. O sistema sabe muito bem o que há por trás da retórica, e sua reação ao resultado eleitoral mostra que a verdade é justamente o contrário. No dia 5 de outubro, logo após o resultado, o mercado financeiro demonstrou alegremente a sua satisfação, a bolsa subiu, o dólar caiu, os banqueiros e especuladores financeiros demonstraram claramente que o resultado das urnas os agradou. O mercado financeiro, o centro estratégico do poder econômico no Brasil, está feliz com o resultado. Isso sem mencionar o agronegócio e as principais entidades empresariais do país, que apoiam abertamente o candidato da direita. Os poderosos de sempre estão claramente alinhados com o candidato da família Bolsonaro.
E essa adesão do “sistema” ao candidato da extrema direita não se resume ao campo da economia. Após o resultado do primeiro turno praticamente todos os partidos tradicionais desde o centro até a direita já aderiram ao candidato Zero Um. E isso não se resume aos fisiológicos de sempre do chamado Centrão. Mesmo partidos mais tradicionais como o MDB e o PSDB já se movimentam para arrumar um espaço numa eventual base de um governo do PL. E mesmo naqueles partidos que, como o PSD, a posição é de neutralidade, os políticos individualmente já estão buscando um caminho de adesão a um eventual governo da extrema direita. Praticamente todos os representantes políticos do sistema estão com Flavio.
O discurso “anti-sistema”, portanto, é mais um exemplo da “Novilíngua” que caracteriza o debate político atual no Brasil. Todas as forças políticas e econômicas que sustentam o sistema estão totalmente alinhadas com a candidatura da extrema direita. A candidatura que se apresenta como uma força “contra tudo que está aí” pelo jeito agrada muito os representantes do sistema que afirma combater. Por isso digo que o fantasma de George Orwell paira sobre nosso país em pleno século XXI.
E esta presença não pode ser isolada do papel cumprido pela mídia corporativa de nosso país. O chamado “jornalismo profissional” não cumpre o seu papel crítico e reflexivo, de apresentar de modo claro para os cidadãos as contradições do discurso do candidato da extrema direita. Tudo fica diluído em uma abordagem que faz de conta que todos os políticos são iguais, e que todas as candidaturas tem suas virtudes e problemas, escondendo o caráter autoritário e anti-democrático da candidatura do filho Zero Um. O que não deveria ser estranho, afinal de contas a mídia corporativa também é parte do sistema.
Os estrategistas da candidatura da extrema direita tem clareza dessas contradições. Por isso mesmo toda a sua linha de campanha vai no sentido de disfarçar as características mais negativas do seu candidato. Flavio se apresenta como moderado, sensível, amigo das mulheres e preocupado com as famílias. Evita conscientemente os aspectos mais radicais e violentos da sua posição política, ocultando suas verdadeiras intenções. Seu projeto de consolidar um poder absoluto e eliminar qualquer oposição não pode ser explicitado sob pena de espantar o eleitorado.
Apenas um movimento consciente da cidadania pode ser capaz de espantar evitar o desastre. A mobilização das ruas nos últimos dias sinaliza com um sopro de esperança. Nossa ação política é o único caminho para afastar o fantasma de George Orwell que segue pairando sobre o país. Cabe a cada um de nós o dever de conversar, conscientizar, chamar à reflexão aqueles que se deixam levar pelo discurso fácil do marketing eleitoral dos autoritários do século XXI.
Tarson Núñez – doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador do Observatório das Metrópoles
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