Nuvens nacionais e os caminhos do capitalismo brasileiro
por Augusto Cesar Barreto Rocha
Semana passada, neste espaço, refleti sobre o quanto é fundamental a construção de muitos centros de dados com armazenamento no país. A soberania precisa ser retomada para o armazenamento de dados. Todavia, há capital e tecnologias nacionais para isso? O modelo de financiamento tecnológico nosso atende a este tipo de oportunidade?
Claramente o modelo atual de financiamento brasileiro não trata este tipo de questão. O governo e o ambiente privado não colocam recursos neste tipo de empreendimento. Todos aqueles que tenham interesse em construir negócios de alta tecnologia são pouco a pouco empurrados para uma venda para empresas estrangeiras e há um entendimento geral de que isso é positivo.
Prevalece no país uma prática e uma cabeça de colônia. Tanto é que as eleições apresentam resultados expressivos nesta direção. Ouvimos pessoas nas ruas falando com naturalidade sobre a importância de ter um país estrangeiro indicando o que fazer por aqui. Até que ponto as pessoas de fato entendem que a soberania nacional é algo fundamental é uma pergunta relevante nos dias de hoje?
Além da soberania no território físico e da dinâmica dos dados surge ainda a questão das relações sociais. As chamadas “redes sociais” realizam a intermediação da informação de todos com todos. Se um regime totalitário nacional é perigoso e inaceitável, por que um regime semelhante estrangeiro também não seria? Estamos pouco a pouco perdendo a soberania em vários campos, enquanto os centros tecnológicos e de pensamento sociológico vão sendo minados e desabastecidos de recursos.
A opção de redução de gastos – a chamada “austeridade” – ou mesmo a transferência da educação para empresas privadas estrangeiras vai construindo uma teia de oportunidades de transferência de capital para o exterior. E isso viabilizará “nuvens” para armazenamento de dados nacionais? De maneira alguma. A ideia fixa de concessões e de estrangeiros no comando está tomando conta da elite capitalista nacional.
A dificuldade que existe neste modelo é que o espaço para o capitalismo nacional vai se reduzindo, pois criaremos famílias ricas, com empreendimentos pontuais, mas sem a capacidade de negócios transnacionais com base no Brasil. Quando surge um ou outro empreendimento com esta capacidade, os olhares sempre são críticos. Parece que o capitalismo não nos cabe ou não seria aceitável para brasileiros.
A geração de riqueza em grande escala depende de tecnologia avançada, de compreensão das dinâmicas sociais e de redes empresariais alinhadas a governos soberanos. Sem tecnologia própria, o país perde capacidade de inovação. Sem compreensão social, perde capacidade de coordenação. Sem soberania política, perde capacidade de decisão. Fora dessa articulação, reaparece o velho modelo colonial ou feudal, rebatizado no mundo contemporâneo como “tecnofeudalismo” por Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia. Ao invés de construir um capitalismo brasileiro, a elite econômica nacional parece preferir transformar o país em feudo de corporações estrangeiras.
Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.
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