Três relatórios produzidos antes e depois da votação ajudam a separar o que era hipótese do que as urnas efetivamente confirmaram: Lula e Flávio chegam ao segundo turno separados por pouco mais de dois pontos, enquanto o Congresso eleito se desloca de forma mais acentuada para a direita
O primeiro turno das eleições de 2026 pode ser analisado a partir de três documentos que, produzidos em momentos diferentes, permitem comparar expectativas, projeções e resultados. O relatório do Código Aberto foi fechado no sábado, 3 de outubro, na véspera da votação, a partir das pesquisas finais, modelos públicos, histórico eleitoral e testes de estresse. A Agência Nabuco divulgou sua análise com 99,41% das urnas apuradas, enquanto o relatório da Edelman, atualizado em 5 de outubro, às 4h, concentrou-se na nova composição do Congresso Nacional. O cruzamento dos três materiais mostra que a disputa presidencial chegou às urnas dentro da zona de incerteza identificada previamente, mas que a eleição parlamentar produziu uma mudança mais nítida na correlação de forças.
Na noite de 3 de outubro, o Código Aberto registrava um quadro próximo de 45% para cada um dos dois principais candidatos. A média simples das pesquisas finais reunidas pelo relatório apontava 45,1% para Lula, 44,2% para Flávio Bolsonaro e 10,7% para os demais candidatos. O documento alertava que essa média não era uma previsão, mas uma fotografia do centro de gravidade dos levantamentos. Entre as pesquisas analisadas, quatro colocavam Lula numericamente à frente e duas davam vantagem a Flávio. A conclusão era de que não havia evidência suficiente para cravar o primeiro colocado e de que o segundo turno era o cenário mais provável.
O resultado confirmado pela apuração ficou muito próximo desse quadro. Segundo a Agência Nabuco, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,15% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,02%. Os dois avançaram ao segundo turno. A diferença foi de 2,13 pontos percentuais. A previsão de uma eleição sem vencedor no primeiro turno também se confirmou: o Código Aberto havia estimado, na véspera, mais de 95% de probabilidade editorial para a realização do segundo turno e menos de 5% para uma decisão já no dia 4 de outubro.
O mapa eleitoral confirmou a importância do Sudeste
A leitura territorial feita antes da votação também encontrou confirmação nos resultados. O Código Aberto apontava o Sudeste como a região com maior capacidade de definir a ordem nacional, enquanto identificava o Nordeste como a principal base de Lula e o Sul e o Centro-Oeste como regiões mais favoráveis a Flávio.
A Nabuco registrou depois que Lula venceu em apenas uma das cinco regiões, o Nordeste, com 63,6% dos votos válidos contra 31% de Flávio. Flávio venceu no Norte, com 49,3% contra 44,4%; no Centro-Oeste, com 56,5% contra 32,6%; no Sudeste, com 51,4% contra 39,6%; e no Sul, com 60,1% contra 31,3%.
O peso do Sudeste aparece no próprio tamanho do eleitorado regional. A região concentrou 41% dos votos válidos do país. Nela, Flávio obteve 51,4%, enquanto Lula ficou em 39,6%. No Sul, que respondeu por 15% dos votos válidos, a diferença foi ainda maior, de 60,1% a 31,3%. O Centro-Oeste respondeu por 8% e terminou com 56,5% para Flávio e 32,6% para Lula.
A comparação com 2022 mostra que a distância não decorreu apenas da manutenção de bases eleitorais já existentes. Em relação ao desempenho de Lula no primeiro turno de 2022, o candidato perdeu 3,4 pontos percentuais no conjunto do país. No Nordeste, a queda foi de 3,1 pontos; no Centro-Oeste, de 5,2; no Sudeste, de 3; e no Sul, de 5,5. Flávio, em comparação com o resultado de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, avançou 4 pontos no país, 4 pontos no Nordeste, 2,8 no Centro-Oeste, 3,8 no Sudeste e 5,5 no Sul.
Esse movimento ajuda a explicar por que a vantagem regional de Lula no Nordeste não foi suficiente para lhe garantir a primeira colocação nacional. A região continuou sendo seu principal território eleitoral, mas sua votação caiu em relação a 2022, enquanto Flávio ampliou o desempenho de Bolsonaro em todas as regiões consideradas pela Nabuco.
Os votos que ficaram fora da disputa presidencial
O relatório do Código Aberto também havia destacado que os votos dos candidatos que não chegassem ao segundo turno seriam decisivos, mas não necessariamente migrariam em bloco para um dos dois concorrentes. As simulações reunidas pelo documento apontavam, entre os eleitores de Augusto Cury, 33% para Lula, 35% para Flávio e 30% para branco ou nulo. Entre os eleitores de Ronaldo Caiado, 33% eram projetados para Lula e 50% para Flávio. Entre os de Renan Santos, 14% para Lula, 54% para Flávio e 33% para branco ou nulo.
O resultado do primeiro turno confirma a existência desse contingente, embora os dados eleitorais não permitam concluir como ele se comportará na segunda etapa. A partir de agora, as simulações feitas antes da votação devem ser tratadas como referência para compreender os cenários considerados, e não como previsão do comportamento efetivo desses eleitores.
A participação eleitoral também entrou na equação. A Nabuco registrou 33,25 milhões de eleitores ausentes, correspondentes a 21,1% do eleitorado, contra 20,8% em 2022. A abstenção foi de 18% no Nordeste, 22% no Centro-Oeste, 23% no Sudeste e 20% no Sul. Os números não sustentam a ideia de que o resultado nacional tenha sido produzido simplesmente por uma abstenção excepcional no Nordeste. A região teve taxa inferior à do Sudeste e próxima da observada em outras partes do país.
O Congresso muda mais do que a disputa presidencial
É na eleição para o Congresso, contudo, que os três relatórios revelam uma transformação de maior dimensão. A Agência Nabuco projeta para 2027 uma Câmara com 124 deputados classificados como esquerda, 259 como centro e 130 como direita. Na composição atual utilizada pela agência para comparação, eram 125 de esquerda, 284 de centro e 104 de direita. A direita, portanto, cresce 26 cadeiras, enquanto o centro perde 25 e a esquerda perde uma. No Senado, a projeção da Nabuco aponta 15 parlamentares de esquerda, 34 de centro e 32 de direita, diante de 17, 49 e 15 atualmente.
A própria Nabuco esclarece que essa classificação é construída a partir do partido, do histórico de votos e do apoio político, e não corresponde a uma classificação ideológica universal. Essa distinção é necessária para interpretar os números.
A composição partidária apresentada pela agência mostra o PL como a maior bancada da Câmara, com 119 deputados, contra 98 na composição anterior. O PT passa de 69 para 70 deputados. A federação PT, PCdoB e PV cresce seis cadeiras na comparação com a composição anterior, enquanto o PDT cai de 16 para seis deputados. O Novo passa de cinco para dez.
O relatório da Edelman apresenta números ligeiramente diferentes para algumas bancadas, porque trabalha com uma atualização própria dos dados. Segundo a projeção apresentada pela empresa, o PL chega a 121 deputados e 28 senadores. A federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, passa de 80 para 88 deputados. No Senado, o PL elegeu 19 das 54 cadeiras em disputa e chega a 28 parlamentares.
A diferença entre 119 e 121 deputados do PL nos dois relatórios deve ser preservada como diferença entre as respectivas projeções, e não tratada como contradição sobre um resultado definitivo. A Nabuco trabalhou com 99,41% das urnas apuradas e apresentou sua própria projeção; a Edelman utilizou uma atualização posterior. Os dois documentos, porém, coincidem no ponto central: o PL ampliou significativamente sua bancada e terminou como a maior força partidária da Câmara.
No Senado, a mudança aparece de maneira ainda mais expressiva. A Edelman calcula que PL, PP, União, PSD, Republicanos e Novo somarão 53 senadores. O número supera os 49 votos necessários para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição e fica a um voto dos 54 necessários para atingir dois terços da Casa. Na Câmara, esses mesmos partidos somariam 302 deputados, seis abaixo dos 308 necessários para uma PEC. O MDB, com 36 deputados, e o Podemos, com 27, aparecem nesse cálculo como partidos capazes de decidir votações constitucionais.
A Nabuco chega a uma conclusão semelhante por outra metodologia: em sua projeção, centro e direita juntos teriam 389 deputados e 66 senadores, número suficiente para alcançar os quóruns de maioria absoluta, três quintos e dois terços nas duas Casas. A esquerda isoladamente teria 124 deputados e 15 senadores, enquanto o centro teria 259 deputados e 34 senadores.
Esse resultado não significa que exista um bloco parlamentar completamente coeso. A própria Edelman considera a coesão do agrupamento de partidos a principal incerteza da próxima legislatura. O dado objetivo é que a composição partidária tornou mais forte o campo parlamentar à direita e reduziu o espaço relativo do centro.
Ceará: uma configuração diferente da tendência nacional
O Ceará apresenta uma configuração própria dentro desse quadro. Na eleição para o governo estadual, Elmano de Freitas foi reeleito no primeiro turno com 52,99% dos votos, contra 46,42% de Ciro Gomes. Na disputa para o Senado, Cid Gomes e Luizianne foram eleitos, enquanto Camilo Santana permanece com mandato até 2031. O Estado terá, portanto, três senadores vinculados a PT, PSB e Rede na composição indicada pelos relatórios.
Na eleição presidencial, o Ceará deu 63% dos votos válidos a Lula e 31% a Flávio, segundo a Nabuco. A abstenção foi de 16%. O resultado estadual mostra uma combinação que não se reproduz integralmente no conjunto do país. Lula manteve uma vantagem ampla no voto presidencial, Elmano conquistou a reeleição no primeiro turno e Cid Gomes e Luizianne garantiram as duas vagas em disputa para o Senado. Ao mesmo tempo, Ciro Gomes obteve 46,42% na eleição para governador, mostrando que a disputa pelo eleitorado cearense permaneceu competitiva.
O Ceará, portanto, aparece nos três relatórios como um caso relevante para compreender a diversidade regional do resultado de 2026. A guinada parlamentar observada nacionalmente não se reproduz de maneira uniforme no Estado, sobretudo na composição do Senado.
Perspectivas para o segundo turno
O ponto de partida da segunda etapa é objetivo: Flávio terminou o primeiro turno com 47,15% dos votos válidos e Lula com 45,02%. A diferença é de 2,13 pontos percentuais. Os dois candidatos começam a disputa com uma base eleitoral consolidada, mas nenhum deles alcançou maioria absoluta dos votos válidos.
O relatório do Código Aberto, escrito antes da votação, identificava quatro variáveis centrais para o segundo turno: a transferência dos votos dos candidatos derrotados, o nível de rejeição aos dois concorrentes, o comportamento da abstenção e o desempenho regional, especialmente no Sudeste. As simulações sobre Cury, Caiado e Renan mostram que os votos dos candidatos eliminados não deveriam ser tratados como transferência automática para qualquer dos dois concorrentes.
Os resultados do primeiro turno tornam essa questão ainda mais relevante. Os candidatos que não chegaram ao segundo turno concentraram uma parcela menor do eleitorado do que aquela observada entre Lula e Flávio, mas suficiente para influenciar o resultado final, sobretudo porque a diferença entre os dois primeiros foi de pouco mais de dois pontos.
O segundo ponto é territorial. Lula terá de preservar sua vantagem no Nordeste e, ao mesmo tempo, buscar uma redução da diferença registrada nas demais regiões. A Nabuco mostra que Flávio venceu no Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. No Sudeste, onde estão 41% dos votos válidos, a diferença foi de 11,8 pontos percentuais.
Não é possível, a partir dos três relatórios, afirmar qual será a magnitude de uma eventual mudança nessa distribuição. É possível, porém, identificar onde ela teria maior impacto nacional: no Sudeste, pelo tamanho do eleitorado regional, e no Nordeste, pela vantagem que Lula já possui.
A terceira variável é a participação. Foram 33,25 milhões de eleitores ausentes no primeiro turno. Uma alteração na taxa de comparecimento pode modificar a quantidade de votos disponíveis no segundo turno, mas os relatórios não permitem afirmar qual candidatura seria beneficiada por eventual aumento ou redução da abstenção. O que os dados mostram é que o Nordeste teve 18% de abstenção, abaixo dos 23% registrados no Sudeste.
Há ainda uma variável política que não existia na disputa presidencial isoladamente: o Congresso já foi escolhido. Independentemente de quem vencer a Presidência, o próximo governo começará diante de uma Câmara e de um Senado com presença muito maior da direita.
Segundo a Edelman, se Flávio vencer, encontrará uma composição parlamentar mais próxima de seu campo político. Se Lula vencer, a federação Brasil da Esperança e seus aliados históricos terão uma representação muito menor que a maioria da Câmara. A Edelman estima que PT e seus aliados históricos, considerando PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT, somariam 124 deputados.
Isso não permite antecipar como será cada votação da próxima legislatura. A composição partidária, por si só, não determina o comportamento parlamentar. Mas os números estabelecem uma condição objetiva para o segundo turno: a escolha do presidente ocorrerá diante de um Congresso já definido e significativamente mais favorável à direita do que o atual.
A Nabuco identifica como pontos a observar até 25 de outubro o tamanho da rejeição a Flávio, a transferência dos votos do centro e o comportamento dos governadores eleitos. O Código Aberto, por sua vez, havia apontado antes da votação que a eleição seria decidida pela combinação entre as margens regionais, a transferência dos votos dos demais candidatos e o comparecimento.
Os três documentos, portanto, permitem estabelecer os contornos da disputa sem transformar hipóteses em certezas. Lula começa o segundo turno atrás numericamente, mas a diferença é pequena. Flávio parte de uma vantagem nacional acompanhada por vitórias em quatro das cinco regiões, enquanto Lula mantém uma margem expressiva no Nordeste. Os votos dos candidatos eliminados passam a ser disputados, e o Sudeste concentra a maior parcela do eleitorado nacional.
A segunda etapa será, portanto, uma disputa pela alteração dessas margens. Os dados disponíveis não permitem afirmar previamente quem conseguirá fazê-lo. Permitem estabelecer onde estão as maiores diferenças produzidas pelo primeiro turno e quais grupos de eleitores serão decisivos para modificá-las.
O que os três relatórios permitem afirmar
O Código Aberto, fechado no sábado, 3 de outubro, identificou uma eleição presidencial marcada pela proximidade entre Lula e Flávio e apontou o segundo turno como cenário predominante. A urna confirmou esse diagnóstico.
A Nabuco registrou o resultado territorial e a mudança na composição política do Congresso. Flávio venceu em quatro regiões, Lula venceu no Nordeste e a direita ampliou sua presença nas duas Casas, enquanto o centro perdeu espaço.
A Edelman, atualizada na madrugada de 5 de outubro, detalhou as bancadas partidárias e os quóruns da próxima legislatura. O PL aparece como a principal bancada da Câmara e amplia fortemente sua presença no Senado.
Os três documentos, analisados conjuntamente, apontam para uma característica central da eleição de 2026: a Presidência continua em disputa, mas o Congresso já mudou.
Lula e Flávio chegam ao segundo turno separados por 2,13 pontos percentuais. A decisão presidencial dependerá da transferência dos votos dos candidatos derrotados, da mobilização dos eleitores e da capacidade de cada candidatura de alterar as diferenças regionais produzidas no primeiro turno. Ao mesmo tempo, qualquer que seja o vencedor, o governo que assumir em 2027 encontrará uma composição parlamentar mais deslocada à direita e um centro menor do que o atual.
O primeiro turno, portanto, deixou duas decisões em momentos diferentes. A primeira, sobre a composição do Congresso, já foi tomada pelas urnas. A segunda, sobre quem ocupará a Presidência, será decidida no segundo turno.
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