
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
O PL não apenas venceu a eleição para o Senado ontem, mas almoçou boa parte da direita que se vendia como centrista, moderada, educada e de bons modos à mesa. E ainda pediu sobremesa.
Com 19 senadores eleitos, o partido de Jair Bolsonaro salta de 15 para 28 cadeiras a partir de fevereiro de 2027. É a segunda maior bancada de um único partido na Casa desde a redemocratização. Somado ao Novo, que chega com três senadores, esse campo passa a controlar 31 das 81 cadeiras, mais de um terço do Senado.
Não houve um tsunami que varreu a esquerda do mapa. Houve algo mais curioso e, talvez, mais preocupante: a extrema direita cresceu devorando o centrão e a direita tradicional. O eleitor conservador trocou o produto genérico pelo original, aquele que vem com mais pimenta, mais ressentimento e menos pudor.
Em quatro anos, o campo de PL e Novo dobrou de tamanho no Senado. Quase tudo o que ganhou saiu do prato do centro e da direita tradicional. A esquerda praticamente não se mexeu. Na conta fria, os 16 assentos que PL e Novo somaram em relação à bancada atual equivalem às 14 cadeiras perdidas pela direita tradicional mais as duas que a esquerda deixou na mesa. Não é coincidência aritmética. É transferência.
O caso mais eloquente é o do PSD. O partido elegeu 11 senadores em 2022, engordou para 14 ao longo da legislatura atraindo colegas de outras siglas e vai começar 2027 com cinco. Perdeu quase dois terços da bancada numa única noite.
O MDB, que já foi a coluna vertebral do Senado, segue em lenta desidratação: 10 cadeiras em 2022, nove hoje, oito a partir de fevereiro. O Podemos foi de seis para dois. O PSDB, que um dia governou o país e presidiu a Casa, cai de quatro para dois, uma bancada que cabe num táxi.
União Brasil e PP, hoje federados, somavam 16 senadores eleitos em 2022 e terão 12. O Republicanos recua de seis para cinco. Quem perdeu menos foi justamente quem já se pendurava no bolsonarismo em seus estados.
Há uma lição antiga aqui, que a direita tradicional insiste em não aprender. Durante quatro anos, muitos desses caciques acharam que dava para domesticar a extrema direita, apoiando em público, criticando no cafezinho, negociando emendas no meio disso. Descobriram que o tigre não come na mão de ninguém. Come a mão.
O PT elegeu quatro senadores, incluindo a dobradinha de Rui Costa e Jaques Wagner na Bahia, e manteve as mesmas nove cadeiras que tinha em 2022 e tem hoje. O PSB foi de um em 2022, para de seis hoje e quatro a partir de 2027, o PDT de dois para um, e a Rede volta a ter um representante. Somado, o campo dito progressista sai de 17 para 15 senadores.
Não é uma derrota como a do centro e da direita liberal, mas também não é uma vitória, por mais que alguns gabinetes em Brasília tentem vender assim nesta segunda. A esquerda segurou o que tinha enquanto o tabuleiro inteiro andava para a direita. Vale ressalta que sim, ficar parado numa esteira que corre para trás é recuar.
O PSOL, que apostou em nomes como Manuela D’Ávila no Rio Grande do Sul, segue sem cadeira no Senado. Em São Paulo, as duas candidatas apoiadas por Lula, Simone Tebet e Marina Silva, ficaram em terceiro e quarto, atrás dos nomes ligados a Tarcísio de Freitas. Quando o maior colégio eleitoral do país manda dois recados na mesma urna, convém ouvir.

E por que isso importa para quem não acompanha a vida em Brasília? Porque o Senado não é a Câmara. É ali que se aprovam (ou se barram) indicados ao Supremo Tribunal Federal, que se julgam pedidos de impeachment de ministros da corte e que se decide, no fim das contas, o quanto um presidente da República conseguirá governar.
A extrema direita somando votos de aliados, mais do que cassar ministros do STF, vai poder ditar se um nome indicado pelo novo presidente será ou não aceito – são necessários 41 votos. Em Brasília, um voto costuma custar menos que uma emenda parlamentar.
Antes, o centrão era o fiel da balança e cobrava preço em cargos e verbas, mas raramente topava incendiar a casa. Agora, a maior bancada é a do partido que fez do confronto com o Supremo, da anistia aos condenados pela tentativa de golpe de Estado e da guerra cultural sua razão de existir. Seja quem for que subir a rampa do Planalto em janeiro, vai ter que governar com esse Senado.
A direita tradicional brasileira passou os últimos anos tratando a extrema direita como uma escada: algo para subir e, depois, deixar encostado na parede. Domingo mostrou que a escada tinha outros planos. Quem achou que estava usando acabou sendo usado e, em seguida, digerido.
Não é o fim da política tradicional, que sempre encontra um jeito de se reinventar no varejo das emendas. E, sim, a extrema direita está grande, mas vai ter que compor. Contudo, é o fim de uma ilusão de que haveria, entre o bolsonarismo e a esquerda, um centro robusto o bastante para servir de amortecedor. O amortecedor foi para o prato e a democracia brasileira vai ter que rodar sem ele, em estrada esburacada, pelos próximos anos.