
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) usou um laudo que a Polícia Federal já confirmou como falso, para tentar se defender da exposição no caso Master. O bolsonarista divulgou o documento nas redes sociais para sustentar que não haveria indícios de crimes em suas conversas com Daniel Vorcaro. Segundo a corporação, a imagem e o texto apresentados como parte de um documento oficial não foram elaborados pela PF.
O material ganhou grande repercussão nesta quinta-feira (3) e acumulou pelo menos 500 mil visualizações no X, logo após uma matéria do ICL divulgar áudios do parlamentar chamando o ex-banqueiro de “Dani” e “lindão”. Nikolas, que já afirmou que não conhecia Vorcaro, admitiu ter pedido financiamento para um colega.
A imagem tenta reproduzir uma página de um documento ligado à Operação Compliance Zero e apresenta referências à Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado, além de datas de extração de dados e supostas conclusões da investigação.

Segundo o conteúdo falso, as mensagens entre Nikolas e Vorcaro tratariam apenas de manifestações públicas do deputado sobre o Banco Master, do Fórum de Londres e de um pedido de intermediação envolvendo um ex-assessor. A montagem conclui que não existiriam elementos suficientes para caracterizar crime ou justificar investigação específica contra o parlamentar.
A PF, porém, informou ao Aos Fatos que não produziu o documento. A montagem contém ainda uma série de inconsistências. O símbolo da corporação apresenta diferenças em relação ao emblema oficial, inclusive no desenho das fitas e na grafia da palavra “Polícia”.
A estrutura do texto também chama atenção. A numeração salta do item 7 diretamente para o 7.3, sem os tópicos intermediários, e há erros como a expressão “contato salvado”. O arquivo também utiliza emojis e a expressão “Relatório de Análise de Dados”, características apontadas como incomuns nos documentos da corporação.
Outro problema está nas datas. O suposto relatório informa 18 de novembro de 2025 como data de produção e de extração dos dados. O período não corresponde às informações reais sobre as mensagens divulgadas posteriormente.
Uma análise feita com ferramenta da OpenAI identificou ainda a presença de SynthID, tecnologia usada para marcar conteúdos produzidos ou modificados por sistemas de inteligência artificial. Segundo a OpenAI, a identificação dessa marca é um indício de que a imagem passou por algum processo de geração ou edição com IA.
O sistema não encontrou, entretanto, credenciais C2PA confiáveis da OpenAI. A presença do SynthID, combinada às inconsistências visuais, textuais e cronológicas, reforça que o arquivo não corresponde a um documento oficial da Polícia Federal.
O material falso passou a circular após reportagens do ICL Notícias revelarem conversas e áudios envolvendo Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro. Em uma das gravações, de 30 de março de 2025, o deputado pede auxílio ao banqueiro em uma questão relacionada a “um ativo de minério”.
🇧🇷 Em áudios, Nikolas Ferreira chama Vorcaro de ‘lindão’ e cobra liberação de ativo minerário, revela o site ICL Notícias.pic.twitter.com/LjWBLJBR3X
— Eixo Político (@eixopolitico) September 3, 2026
Nikolas também afirma no áudio que queria “ter mais proximidade” com Vorcaro e apresenta a demanda de uma pessoa de sua confiança, embora diga que não sabia exatamente do que se tratava.
A imagem falsa, por outro lado, atribui ao deputado mensagens datadas de 7 de janeiro de 2025, criando uma divergência de quase três meses em relação ao áudio divulgado. O conteúdo também afirma que Nikolas teria pedido que Vorcaro recebesse Thiago Faria, advogado e ex-assessor do parlamentar.: