61 milhões de motivos para o silêncio dos bolsonaristas. Por Kakay

Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro. Foto: reprodução

Originalmente em Poder 360

Em 2011, uma cliente querida teve seu nome envolvido em um falso escândalo. Um livro fajuto afirmou que ela tinha uma conta em um dos mais tradicionais bancos privados da Suíça, o Julius Bär. Escrevi para o vice-presidente do banco e ele me disse que só poderia responder pessoalmente.

Fui para Zurique com uma reunião marcada com o poderoso vice-presidente. Uma pessoa elegantíssima que me surpreendeu ao me convidar para uma degustação de água. Sim, na Suíça existe uma tradição de cultivar o costume de beber águas de lençóis freáticos e de nascentes alpinas, filtradas naturalmente pelas rochas das montanhas. Por isso dizem que a água Voss (norueguesa) é a mais cara do mundo. Eu, sinceramente, preferia ter ido degustar vinhos, mas estava trabalhando.

Pedi ao vice-presidente que me fornecesse um documento afirmando que minha cliente nunca tinha sido cliente do banco; logo, o autor do livro estava mentindo. Para minha surpresa, ele respondeu que sempre enfrentava esse tipo de problema, porém, pelas leis suíças, estava proibido de responder a quem não era cliente.

Perplexo, propus o óbvio: vou fazer uma notificação em nome da minha cliente e você responde em nome do banco dizendo que não pode responder por ela não ser cliente! Bingo. Resolvia meu problema. O suíço, com um terno chique, exclamou: “Você acaba de resolver um grande problema que o banco nunca soube como tratar”.

Lembro-me de que, ao descer na estação de trem em direção a Zurique, ouvi aquela voz metálica pedir desculpas, pois o trem atrasaria 2 minutos. Achei chique demais. Naquele ano, a Suíça recebeu cerca de 8 milhões de turistas e tudo funcionava –ou parecia funcionar– como os famosos relógios suíços. No último ano, o país registrou um recorde de 43,9 milhões de pernoites hoteleiras. E, claro, tudo tem um efeito nas condições de tratamento no dia a dia do turista.

Chego agora em Zurique para ir a Lugano participar do Europe-Brazil Legal Summit, onde darei uma palestra sobre “Paridade de armas e acesso democrático ao Judiciário: como financiar grandes ações coletivas contra empresas poderosas ao redor do mundo”. Em parte, falo da experiência de representar os quilombolas no Supremo Tribunal e em Londres contra a mineradora BHP na tragédia de Mariana.

Pego um trem em Zurique em direção a Lugano e, em 20 minutos, informam que houve um incidente nos trilhos e que todos teriam de descer na próxima estação. Desembarcamos em Arth-Goldau e pegamos outro trem até Altdorf. Chegando lá, fomos avisados de que teríamos que descer, pegar um ônibus para Bellinzona e, de lá, outro trem. Já com 3 horas de atraso, pude constatar que a Suíça não é mais o mesmo relógio em pontualidade. E os funcionários nas estações não tinham nenhuma informação precisa ou segura. Como tinha um jantar em Lugano, o táxi passou a ser a opção; cara, mas segura.

Fachada do Banco Master. Foto: reprodução

Eis que ocorre algo inusitado. Estava ao telefone, afastei-me discretamente, reclamando da situação para um sócio meu com quem iria fazer uma videoconferência. Para minha surpresa, sou interpelado por um senhor suíço, simpático e com um português bem melhor do que o meu francês: “Desculpe, ouvi parte do que você falou reclamando da Suíça e eu, que já morei no Brasil, queria entender o que ocorre lá”. E começa a me questionar: “Você reclama do atraso do trem e o que me diz dos R$ 61 milhões do Vorcaro para o Flávio Bolsonaro que não sai na imprensa?”. E continua: “Por que o Ministério Público não pediu a quebra de sigilo, a busca e apreensão e até a prisão do Flávio?”; “E o ministro André Mendonça não vai determinar nada contra esse escândalo?”.

Impressionado, fico a escutá-lo clamar em voz alta: “É verdade que, além dos R$ 61 milhões, apareceram agora mais R$ 8,5 milhões do Vorcaro para a família Bolsonaro?”. E indaga: “E a cobrança de R$ 130 milhões feita pelo candidato a presidente, quando o Vorcaro já estava preso?”. Perplexo, sigo ouvindo. O suíço, certo de que estava correto e vendo minha muda aprovação, continuou: “Vi aqui o massacre que fizeram com o Lula na entrevista do JN e a vergonhosa proteção ao candidato bolsonarista que defendeu não existir crise climática”.

Atônito, olhei para ele e percebi a irrelevância do atraso do trem. Da minha ingênua implicância. O meu interlocutor falava de atraso civilizatório e de desastre humanitário. Questionava-me, com ares de alerta, sobre a tragédia que se anuncia com o apoio luxuoso de parte da elite brasileira. Apoio explícito ou pela omissão. E me cobrava, de certa forma, pela omissão da imprensa brasileira, do Ministério Público e do Supremo Tribunal.

Enfim, foi preciso ouvir tudo isso de um suíço em um trem atrasado e sem destino, perto de Lugano, para constatar o óbvio: estamos muito perto de uma catástrofe sem precedentes. A vitória da direita neste momento, com a influência de Trump no mundo e na América do Sul, será muito mais grave do que a eleição de Jair Bolsonaro.

É melhor esquecer os perrengues chiques de um atraso de trem na Suíça e nos concentrarmos na precisão da força do fascismo que teima em dominar o mundo. Se alguém tiver alguma dúvida, fale sobre o assunto em voz alta onde estiver. O mundo ainda tem quem sabe ouvir.

Lembre-se de Jacques Lacan: “Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou.”

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