Experiência construída no Brasil fortalece poços de água, hortas, lavouras comunitárias e projetos educacionais na província de Nampula, em Moçambique
A experiência acumulada durante mais de 35 anos de atuação no Projeto Esperança/Cooesperança e na construção da Feira Internacional de Cooperativismo, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, atravessou o Atlântico com a missionária Lourdes Dill. Desde outubro de 2023, ela integra uma missão da Congregação das Irmãs Filhas do Amor Divino em Moçambique, onde participa de projetos comunitários voltados ao acesso à água, à produção de alimentos, à educação e à saúde.
Em entrevista ao programa Bancos da Democracia, apresentado por Sara Goes na Atitude Popular, Irmã Lourdes Dill e o educador Antônio Momade relataram como práticas da economia solidária estão sendo desenvolvidas em Micani, no distrito de Moma, província de Nampula. O programa foi transmitido em 31 de agosto e mostrou iniciativas construídas com as comunidades locais e organizações parceiras.
A missionária chegou ao país africano aos 72 anos, depois de se candidatar a uma missão que realizava um desejo cultivado desde a infância. Antes da viagem, participou de atividades de preparação em Brasília e Porto Alegre, além de um curso de integração cultural já em Moçambique.
“Eu vim para cá porque era um sonho de esperança”, declarou.
A comunidade missionária Luz da Aurora foi formada por Irmã Lourdes, Irmã Ilka Welter, Irmã Rita Finkler e Irmã Maria Madalena de Andrade. A presença das religiosas atende a um convite relacionado à atuação missionária do Regional Sul 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, que mantém trabalho na região há mais de três décadas.
Segundo Antônio Momade, a Paróquia São Miguel Arcanjo de Micani está dividida em duas regiões e reúne cerca de 130 comunidades. Professor e liderança comunitária, ele também atuou durante oito anos como ministro da Eucaristia e colabora diretamente com as religiosas.
As atividades pastorais são coordenadas principalmente por leigos. Há grupos dedicados às mulheres, aos jovens, aos catequistas e à saúde. As equipes missionárias acompanham a formação e o planejamento, mas as decisões cotidianas ficam sob responsabilidade das próprias comunidades.
Irmã Lourdes relacionou essa presença leiga aos conflitos armados vividos por Moçambique. Em períodos nos quais religiosos foram mortos ou obrigados a deixar determinadas regiões, os moradores deram continuidade às atividades das comunidades católicas.
“As pastorais são coordenadas por leigos. Nós, irmãs, e também os padres participamos das atividades de formação”, explicou.
Saúde, educação e acesso à água
Além das atividades religiosas, a missão mantém projetos sociais em áreas nas quais os serviços públicos são insuficientes. Um deles trabalha com cuidados alternativos de saúde, utilizando ervas, chás, óleos e xaropes preparados pelas religiosas.
Outro projeto oferece reforço escolar semanal a aproximadamente 350 crianças, além de atividades para adultos que não tiveram acesso regular à alfabetização. As crianças também participam de brincadeiras, música e canto.
A alimentação, mesmo durante esses encontros, revela a situação econômica enfrentada pelas famílias. No início do projeto, cada criança recebia uma colher de açúcar e um copo de água. Com a ampliação da rede de apoio, tornou-se possível distribuir pirulitos, chamados de “chupas” em Moçambique.
O acesso à água está entre os principais desafios da região. Irmã Lourdes contou que o território atravessa aproximadamente seis meses de chuva e seis meses de seca. Poucas famílias possuem água em casa. Em algumas comunidades, mulheres e crianças carregam recipientes de 20, 40 ou até 60 litros por longas distâncias.
O primeiro poço, chamado localmente de “furo”, foi construído em Haua. Antes da instalação, moradores percorriam entre 10 e 12 quilômetros para buscar água. Segundo a missionária, cinco poços já foram viabilizados por meio de campanhas e parcerias. Outras sete comunidades aguardam recursos para receber estruturas semelhantes.
Projeto reúne hortas e lavouras comunitárias
A experiência com os poços deu origem ao programa Uma Gota de Esperança, desenvolvido desde 2024 em parceria com a organização moçambicana Judemo. A iniciativa incorporou princípios aplicados por Irmã Lourdes no Projeto Esperança/Cooesperança, em Santa Maria.
“É um pouco da organização da economia popular solidária que migrou do Brasil para Moçambique”, afirmou a religiosa.
O programa reúne atualmente 25 grupos de hortas comunitárias e 33 grupos de machambas, nome dado às lavouras comunitárias. As hortas são cultivadas principalmente nas proximidades dos rios. Já as machambas produzem alimentos como milho, feijão, amendoim e ervilha.
Antônio Momade explicou que cada grupo escolhe seus cultivos e organiza uma coordenação própria, com pessoas responsáveis pelo registro das atividades e pela administração dos recursos. Após a colheita, uma parte dos alimentos é distribuída entre os participantes e outra é comercializada.
A renda obtida também ajuda a manter um fundo rotativo solidário. As sementes, enxadas e regadores entregues aos grupos não são tratados como doações sem retorno. Cada grupo devolve gradualmente o valor investido, sem cobrança de juros. O dinheiro pode então financiar outra comunidade.
“Um grupo é beneficiado, ele devolve e o recurso é investido em um novo grupo”, explicou Irmã Lourdes.
A campanha busca recursos para adquirir mais de duas toneladas de sementes e atender os grupos já organizados. A procura é maior do que a capacidade atual do projeto, segundo os entrevistados.
“No começo eram 12 grupos de machambas comunitárias e 13 grupos de hortas. Hoje já estamos com 25 grupos de hortas e 33 de machambas. Isso mostra que o trabalho está crescendo”, afirmou Antônio Momade.
Crianças cultivam alimentos para a merenda
Duas escolas também passaram a participar das machambas. Cerca de 550 crianças devem ajudar na produção, acompanhadas por professores, familiares e conselhos escolares. Os alimentos ficarão nas próprias instituições para preparar refeições uma ou duas vezes por semana.
A iniciativa surgiu porque as escolas da região não oferecem alimentação regular. Muitas crianças chegam às aulas sem o “mata-bicho”, expressão usada em Moçambique para designar o café da manhã. Algumas também saem de casa sem beber água.
“Ela chega à escola e aprende pouco porque está com fome e com sede”, disse Irmã Lourdes.
O trabalho educacional inclui a distribuição de cadernos, lápis, mochilas e outros materiais em quatro escolas. Antônio Momade, que dirige uma unidade com aproximadamente 350 estudantes, afirmou que a falta desses itens era uma das principais causas de abandono escolar.
Nos anos anteriores, a primeira classe de sua escola terminava o período com cerca de 75 a 80 crianças. Em 2026, o número chegou a 104. Segundo ele, houve semestres sem registro de desistências após a distribuição dos materiais.
A escola também começou a receber melhorias depois que o telhado de palha foi destruído por ventos e chuvas. Enquanto aguardavam a reforma, os alunos estudavam debaixo de árvores, sentados em pedaços de madeira e utilizando um pequeno quadro pendurado. O projeto prevê a instalação de cobertura, piso de concreto e quadros maiores nas salas.
Formação chegou a centenas de moradores
A implantação da economia solidária também envolve cursos sobre cooperativismo, associativismo, agricultura camponesa e elaboração de projetos. A primeira formação reuniu 130 pessoas. A segunda teve 80 participantes e a terceira chegou a 180.
Cada participante recebeu uma apostila e assumiu a responsabilidade de compartilhar o conteúdo em sua comunidade. A estratégia busca fazer a formação alcançar localidades distantes, muitas delas sem internet, rádio ou televisão.
Segundo Irmã Lourdes, práticas semelhantes aos mutirões já faziam parte da vida das comunidades, mas expressões como economia solidária, cooperativismo e fundo rotativo ainda eram pouco conhecidas.
“A economia solidária veio na bagagem das irmãs que vieram do Brasil”, afirmou.
A missionária considera que a organização comunitária local oferece condições para a continuidade do projeto. Em algumas machambas, grupos de 70 ou 80 pessoas começam a trabalhar às quatro horas da manhã. Cristãos e muçulmanos participam juntos das atividades agrícolas e educacionais.
“Não existe economia solidária sem espiritualidade. Não é necessariamente uma religião. É uma mística”, declarou Irmã Lourdes.
Para ela, a economia solidária também exige uma reflexão sobre consumo, concentração de renda e condições de trabalho. Durante a entrevista, criticou os recursos destinados a conflitos armados enquanto comunidades enfrentam fome e falta de água.
“Se nós tivéssemos 1% do dinheiro jogado nas guerras, nós faríamos milagres aqui”, afirmou.
Comunidades querem ampliar o projeto
A falta de transporte dificulta a chegada das equipes às localidades mais distantes. As religiosas dependem de motocicletas ou de caronas com padres e moradores. Um veículo permitiria realizar novas formações e acompanhar com maior frequência os grupos agrícolas do interior.
Irmã Lourdes espera que o projeto seja incorporado de forma permanente à organização comunitária da região. A proposta inclui aprofundar a formação e discutir futuramente a criação de um setor específico dedicado à economia solidária.
Antônio Momade afirmou que novas comunidades procuram o programa para pedir sementes e apoio técnico. A expansão, porém, depende dos recursos disponíveis.
“Há falta de sementes para a produção agrícola, há muita fome e há falta de furos de água. Aparecem muitos grupos querendo participar”, relatou.
Ao encerrar a entrevista, Irmã Lourdes defendeu a participação de muitas pessoas com contribuições compatíveis com suas possibilidades.
“Nós não queremos muito de poucos. Nós queremos pouco de muitos”, disse.
Referências citadas
Bíblia Sagrada, Carta de Tiago, autoria tradicionalmente atribuída a Tiago, datação incerta. A passagem “a fé sem obras é morta” foi mencionada por Irmã Lourdes Dill durante a entrevista.
Economia de Francisco e Clara, movimento internacional inspirado nas propostas econômicas e sociais do Papa Francisco e de Santa Clara de Assis.
📺 Programa Bancos da Democracia tem apoio do Ministério do Trabalho e Emprego (Termo de Fomento – MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO nº 00111/2025 // TRANSFEREGOV.BR Nº991217-2025)
📅 Toda segunda-feira
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
👥 Torne-se membro do nosso canal no YouTube
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O