Multidão toma Salvador e Lula reafirma projeto de inclusão e soberania

A tarde de terça-feira (29) em Salvador ganhou o ritmo de uma campanha em marcha. A caminhada que percorreu as ruas da capital baiana reuniu uma multidão e terminou em um comício no qual Luiz Inácio Lula da Silva transformou a demonstração de força popular em uma espécie de balanço de sua trajetória política — e, ao mesmo tempo, em um chamado para os últimos dias antes da votação.

O discurso foi atravessado por três fios principais: a memória das políticas sociais dos governos Lula, a defesa de um projeto de desenvolvimento baseado em educação, ciência e industrialização e a convocação dos eleitores para uma votação articulada para presidente, governador, Senado e Câmara.

“Ninguém fica velho se tiver uma causa”

Aos 80 anos, Lula apresentou a própria disposição física como consequência de um compromisso político. “Ninguém fica velho se a pessoa tiver uma causa para lutar”, afirmou. E definiu essa causa de maneira direta: fazer com que a população pobre deixe de ser tratada como invisível.

Lula construiu boa parte de sua identidade política na ampliação do acesso à educação e às políticas sociais. Ele citou ProUni, cotas, Fies, institutos federais e Pé-de-Meia como instrumentos para ampliar oportunidades.

A imagem escolhida foi a da disputa por oportunidades, não a da igualdade abstrata. Para Lula, uma filha de família pobre precisa ter condições de disputar uma vaga universitária com alguém de uma família rica.

A história como argumento

Lula fez um movimento peculiar: em vez de apenas enumerar realizações, pediu que professores e historiadores pesquisassem a história brasileira desde a Proclamação da República para identificar os períodos de maior inclusão social.

Na sua interpretação, dois momentos se destacariam: as políticas trabalhistas associadas a Getúlio Vargas e os governos do próprio Lula.

Em seguida, transformou o argumento histórico em uma sequência de perguntas ao público. SAMU, Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, transposição do São Francisco, Água para Todos, universidades, institutos federais, Pé-de-Meia, Pronaf, valorização do salário mínimo e programas de energia foram citados diante de uma plateia que respondia com o nome do presidente.

O objetivo retórico era evidente: fazer da eleição também uma disputa sobre memória. “Nós precisamos conhecer o passado para não cometer erros no futuro”, disse Lula.

Educação, ciência e riqueza produzida no Brasil

O discurso, porém, não ficou preso ao retrospecto. Lula apresentou uma agenda para um eventual novo mandato centrada em ciência, tecnologia, transição energética e industrialização.

Ao falar sobre petróleo e minerais críticos, defendeu que o Brasil não repita ciclos históricos de exportação de riquezas naturais sem agregação de valor. Recuperou uma formulação atribuída ao escritor uruguaio Eduardo Galeano sobre o ouro brasileiro, em que Portugal ficou com o minério raro, a Inglaterra com a revolução industrial e o Brasil com “os buracos”, para sustentar a defesa de que terras raras e minerais estratégicos sejam pesquisados, transformados e industrializados no próprio país.

“Não queremos ser vendedores de minério de ferro, queremos ser vendedores de inteligência e de conhecimento”, afirmou.

A educação apareceu novamente como eixo dessa estratégia. Lula vinculou investimentos em universidades, ciência e tecnologia à preparação do país para a indústria digital, a transição energética e as novas cadeias produtivas.

‘A disputa política entrou no centro da fala

Lula também dedicou parte significativa do discurso a críticar à oposição. Criticou adversários, recuperou acusações relacionadas ao governo anterior e contrapôs modelos políticos que, em sua narrativa, representam escolhas distintas para o país.

Em sua fala, criticou a defesa do armamento, mencionou as fraudes contra aposentados e fez acusações sobre supostas relações do adversário com milicianos e episódios de corrupção.

Ao comparar os campos políticos, Lula afirmou que os eleitores teriam de escolher entre “quem quer que o povo tenha educação” e aqueles que querem “que o povo ande armado até os dentes”. Também contrapôs as políticas de seu governo às ações que atribuiu à oposição.

Em outro momento, o presidente fez referências diretas ao adversário e afirmou: “esse cara quer ser presidente da República? O que será deste país?”. Na sequência, acusou-o de ter como experiência política “a relação com os milicianos e uma loja de chocolate para lavagem de dinheiro”.

Lula também mencionou o banqueiro preso Daniel Vorcaro ao citar acusações sobre festas privadas envolvendo políticos. “Ele tem que explicar se ele participava dessas orgias que eles patrocinavam!”, declarou, em relação a denúncias eclodidas na imprensa nesta terça.

Também atacou o “orçamento secreto” e pediu uma composição parlamentar alinhada ao governo, além dos votos para Jerônimo Rodrigues e para os candidatos ao Senado apoiados por sua aliança na Bahia.

Nesse ponto, o discurso deixou de ser apenas presidencial. A eleição foi apresentada como uma escolha de conjunto: presidente, governador, senadores e deputados deveriam compor uma base capaz de sustentar o projeto político defendido por Lula.

29.09.26 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha em Salvador: o evento “Lula em Salvador: O Brasil Pronto Pra Mais”, realizado no Circuito Ondina, Salvador – BA. Foto: Ricardo Stuckert.

Bahia como território de memória política

A relação com a Bahia ocupou lugar especial. Lula evocou personagens da história baiana, artistas e símbolos da identidade cultural do estado e afirmou que sua ligação com a população local antecede sua chegada à Presidência.

Também lembrou seu primeiro comício de 1989, realizado no Farol da Barra, e associou a trajetória iniciada naquele período à relação construída com os baianos.

Antes dele, Rui Costa, Jaques Wagner e Jerônimo Rodrigues haviam apresentado a impressionante caminhada como demonstração de apoio ao presidente e enfatizado investimentos em universidades, escolas técnicas, saúde, habitação, água e infraestrutura.

Jerônimo acrescentou outro elemento: a ideia de que a política deve permitir que crianças e jovens possam “sonhar”, em contraste com uma trajetória marcada pela necessidade de apenas sobreviver.

O encerramento: gratidão e mobilização

Lula fez um encerramento baseado em gratidão. Disse que nunca havia sido tão bem tratado em nenhum lugar do mundo como na Bahia e associou essa relação à confiança que recebeu desde os primeiros anos de sua trajetória política.

A multidão, que havia acompanhado a caminhada pelas ruas de Salvador, tornou-se assim parte de uma campanha que procura transformar a memória dos governos anteriores, as políticas públicas atuais e um projeto de desenvolvimento futuro em uma mesma história.

Lula terminou como havia começado o ato: falando de causa, compromisso e continuidade — desta vez com uma palavra dirigida diretamente à Bahia: “Até o dia 4”.

Jerônimo exalta Lula e convoca Bahia a defender “um novo país”

O governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, transformou seu discurso em um ato de celebração da relação entre o estado e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele afirmou que a mobilização não era apenas uma festa, mas expressão de uma causa política.

“Presidente Lula, alguém disse ali, que parece um Carnaval fora de época. Mas não é! Nós estamos aqui, Lula, por uma causa. A nossa causa é o Brasil! A nossa causa é a Bahia!”, declarou.

“Nós não tivemos oportunidades de sonhar! Para nós, era sobreviver! E nós não queremos mais isso”, disse, dirigindo-se ao presidente.

Na sequência, o governador atribuiu a Lula a implementação de políticas que, em sua avaliação, ampliaram o acesso a direitos básicos, como habitação, água tratada e energia elétrica.

“Nós não sabíamos que o governo podia nos garantir casa de qualidade, garantia de habitação de qualidade. Foi você, Lula, que criou o Minha Casa, Minha Vida! Foi você, Lula, que fez chegar água tratada na casa de todos e de todas!”, afirmou.

Jerônimo criticou o adversário eleitoral ACM Neto sem citá-lo nominalmente. “Estão tentando confundir a cabeça do meu povo. Não existe o ‘Lula Neto’, não existe!”, afirmou. Em seguida, disse que o adversário teria declarado que pretendia “me humilhar” e “dar uma surra no presidente”.

Jerônimo apresentou a eleição também como uma disputa em torno da democracia e buscou ampliar o discurso para além de uma identidade religiosa específica. “Esse Brasil é dos evangélicos, é dos católicos, é do povo de terreiro, é dos espíritas! É essa democracia que nós estamos constituindo no Brasil”, disse.

No encerramento, o governador retomou a convocação eleitoral e pediu votos para Lula, para sua própria candidatura e para aliados baianos. “Até o dia 4 — está faltando 5 dias — pra gente poder garantir que o Brasil continue sonhando”, afirmou.

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