O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), recebeu o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em uma reunião de cerca de duas horas, em São Paulo, em março de 2025.
Hoje relator do inquérito que apura o caso Master, Mendonça nunca havia mencionado publicamente esse encontro.
A revelação é do jornalista Paulo Motoryn, em reportagem publicada pela newsletter Noites Húngaras, no Substack. A reunião ocorreu no Instituto Iter, instituição fundada por Mendonça, na Alameda Santos — e não em dependência do STF.
O escândalo revelou vínculos do banco com a extrema direita. Ciro Nogueira, aliado de primeira hora do bolsonarismo, é investigado por suspeita de atuar em favor de Vorcaro, enquanto o candidato à presidência Flávio Bolsonaro aparece nas apurações sobre repasses do banqueiro para o filme sobre Jair Bolsonaro.
O encontro se dá no contexto do escândalo envolvendo o Banco Master, investigado por operações que atingiram pensionistas e aposentados do BRB.
Segundo as mensagens divulgadas, a aproximação de Vorcaro com Mendonça foi conduzida pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). Antes da reunião, ambos teriam conversado com o ministro sobre a situação do Master no Banco Central.
A articulação começou semanas antes do encontro de 14 de março. Em 8 de fevereiro, Ciro enviou a Vorcaro uma foto em que aparecia ao lado de Mendonça, em uma alfaiataria, e afirmou em áudio que estava “trabalhando” para o banqueiro.
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”, disse o advogado.

Em outra gravação, Ciro afirmou que Mendonça queria receber Vorcaro e que já conhecia “a situação do Banco Central toda”, após conversas dele próprio e de Cezinha com o ministro.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele”, afirmou Ciro ao banqueiro.
Uma primeira reunião chegou a ser marcada para 19 de fevereiro, com possível participação de Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União no governo Jair Bolsonaro e posteriormente ligado à defesa de Vorcaro. O compromisso não ocorreu porque Mendonça participava de sessão presencial do STF, em Brasília.
O encontro foi remarcado para 14 de março. No dia anterior, Cezinha enviou a Vorcaro o endereço do Instituto Iter e marcou a reunião para as 17h. No dia seguinte, depois de o banqueiro avisar que estava a caminho, o deputado respondeu: “Ministro já está te esperando”.
Mensagens de Vorcaro com seu motorista registram o deslocamento até o endereço e a saída às 18h40, indicando que o banqueiro permaneceu no local por aproximadamente duas horas.
Em nota divulgada depois da reportagem, Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, em março de 2025, e disse que se limitou a ouvi-lo. Segundo o gabinete, a conversa tratou da Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo de interesse do Banco Master sobre créditos de precatórios.
Naquela data, o processo estava sob pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes. Ainda assim, a versão apresentada por Mendonça confirma que recebeu o banqueiro para discutir uma causa de interesse direto do banco no Supremo.