O anúncio do supercomputador de inteligência artificial no Rio Grande do Norte foi apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como parte de uma estratégia mais ampla de integração regional e redução das desigualdades históricas do país. Durante a cerimônia no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, Lula afirmou que a escolha do Nordeste não representa apenas uma decisão técnica, mas uma opção política de distribuir oportunidades de desenvolvimento.
“Eu não tenho nada contra o Sul e contra o Sudeste”, disse o presidente. “Mas não era justo que tudo fosse para a parte que já tinha mais infraestrutura, para a parte que já tinha mais mão de obra qualificada, para a parte que já tinha mais poder de compra.”
O argumento de Lula é que a concentração dos investimentos públicos tende a reproduzir a concentração econômica. Por isso, segundo ele, cabe ao Estado intervir para criar condições para que regiões historicamente menos favorecidas possam alcançar níveis semelhantes aos dos centros mais desenvolvidos.
“Se a gente quiser acertar, o comportamento tem que ser igual ao da sua mãe com seus filhos. Se uma mãe tiver com cinco filhos, sentados em uma mesa comendo, ela vai dar um pedaço para cada um, mas se tiver um debilitado, ela vai pegar no colo e vai dar dois bifinhos e vai dar cafuné a mais nele. E nesse instante o Rio Grande do Norte merecia um cafuné no nosso Governo”, falou.
A instalação do equipamento no Rio Grande do Norte, nesse sentido, é tratada como uma iniciativa que ultrapassa os limites do estado. A estrutura deverá articular universidades, centros de pesquisa, empresas e parques tecnológicos de diferentes estados nordestinos, conectando o PAX a ecossistemas de inovação como o Porto Digital, em Pernambuco, além de instituições da Paraíba e de outros estados.
A lógica é transformar a infraestrutura de computação em um ativo regional, capaz de fortalecer a pesquisa, formar profissionais e atrair empresas de tecnologia para o Nordeste.
“O Nordeste não pode ficar para trás”
Lula relacionou a decisão sobre a inteligência artificial a uma trajetória de políticas públicas voltadas à superação das desigualdades regionais. Em seu discurso, recuperou indicadores sociais que historicamente colocaram o Nordeste em situação de desvantagem e lembrou sua própria experiência de vida para explicar por que considera a distribuição territorial dos investimentos uma questão de Estado.
O presidente citou a expansão de universidades e institutos federais, a transposição do rio São Francisco, o Minha Casa, Minha Vida e outras obras de infraestrutura como exemplos de decisões que, segundo ele, exigiram intervenção direta do governo federal.
“Se o Estado não tomar decisão, sempre o mesmo lugar ganhará todas as oportunidades”, afirmou.
A mesma lógica, agora aplicada à economia digital, orienta a escolha do Rio Grande do Norte. Para Lula, não basta instalar supercomputadores onde já existe a maior concentração de infraestrutura tecnológica. É necessário criar novos polos de conhecimento para que o desenvolvimento da inteligência artificial não reproduza as desigualdades da economia tradicional.
A preocupação foi sintetizada pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ao defender que “a nova economia digital” não reproduza “as velhas desigualdades brasileiras”.
Do vento e do sol ao conhecimento
A governadora Fátima Bezerra reforçou, em sua participação, os diferenciais do Rio Grande do Norte para receber o investimento. Segundo ela, o estado apresentou condições técnicas favoráveis, sobretudo pela disponibilidade de energia limpa e renovável, além de sua localização e da infraestrutura científica existente.
A escolha também dialoga com a transformação econômica pela qual passa o estado. O Rio Grande do Norte consolidou-se como um dos principais polos brasileiros de geração de energia eólica e solar. A operação de um supercomputador, que demanda grande quantidade de eletricidade, permite associar essa capacidade energética à expansão de uma economia baseada em conhecimento.
A perspectiva defendida pelo governo é criar um novo elo entre energia, ciência, tecnologia e desenvolvimento regional. Como resumiu Luciana Santos, o estado que transformou vento e sol em energia poderá agora transformar essa energia em “conhecimento, tecnologia, inovação e empregos do futuro”.
Nordeste conectado ao Brasil
A proposta, porém, não é criar uma infraestrutura restrita ao Rio Grande do Norte. O projeto prevê sua integração com o conjunto do ecossistema científico e tecnológico nordestino e com instituições de outras regiões.
Essa dimensão regional é estratégica porque a inteligência artificial depende não apenas de máquinas, mas de pesquisadores, universidades, startups, empresas e dados. A concentração desses recursos em poucos centros poderia ampliar a distância tecnológica entre as regiões brasileiras.
O supercomputador deverá, portanto, funcionar como uma espécie de infraestrutura nacional instalada no Nordeste. Universidades, centros de pesquisa, empresas e órgãos públicos poderão utilizar sua capacidade para desenvolver aplicações em áreas como saúde, agricultura, clima, indústria e serviços públicos.
“Governar é tomar decisão”
Ao recordar a transposição do São Francisco, Lula procurou estabelecer uma linha de continuidade entre grandes obras destinadas a enfrentar desigualdades históricas e o investimento em infraestrutura tecnológica.
“Governar é tomar decisão”, afirmou, lembrando que a transposição enfrentou resistências políticas de estados e setores interessados na disputa pelo uso da água. Para ele, a decisão de distribuir investimentos pelo território nacional exige o mesmo princípio: o desenvolvimento não deve ficar condicionado à lógica de concentração já existente.
A aposta agora é que o Nordeste deixe de ser apenas destinatário de políticas de infraestrutura e passe a ocupar posição ativa na nova fronteira tecnológica brasileira.
Nesse sentido, o supercomputador de Macaíba representa mais do que capacidade de processamento. Ele simboliza a tentativa de deslocar para o Nordeste parte da infraestrutura estratégica necessária para a economia da inteligência artificial — conectando a região aos principais centros científicos do país e criando condições para que conhecimento, inovação e empregos de alta qualificação também sejam produzidos fora do eixo Sul-Sudeste.