O modelo econômico de Javier Milei, apresentado por Flávio Bolsonaro como referência para o Brasil, começa a ser colocado em xeque pelo próprio sistema financeiro internacional.
O J.P. Morgan, um dos maiores bancos de Wall Street, prevê que a Argentina entre em recessão técnica no terceiro trimestre e cortou quase pela metade sua projeção de crescimento do país em 2026.
A instituição reduziu a estimativa de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,7% para 1,5% depois que a atividade econômica argentina despencou 2,9% em julho na comparação com junho.
O banco esperava uma queda próxima de 1%. Agora, projeta nova retração entre julho e setembro, depois de o PIB já ter recuado 0,6% no segundo trimestre. Texto colado
Se a previsão se confirmar, serão dois trimestres consecutivos de contração, caracterizando uma recessão técnica. Os resultados de agosto e setembro ainda precisam ser divulgados para confirmar o cenário.
A revisão do J.P. Morgan atinge um dos principais argumentos políticos de Milei: a promessa de que o ajuste promovido desde sua chegada à Casa Rosada abriria caminho para uma recuperação sustentada da economia.
Também lança dúvidas sobre uma experiência que Flávio Bolsonaro tem defendido durante a campanha presidencial como exemplo para o Brasil.
Queda surpreende até Wall Street
A dimensão da retração de julho surpreendeu os próprios economistas do J.P. Morgan.
“Esperávamos um dado fraco de atividade em julho, em linha com o contexto de fraqueza que caracterizou o segundo trimestre. No entanto, a contração informada superou amplamente nossa previsão de aproximadamente 1% de queda mensal”, afirmou o banco.
O Estimador Mensal de Atividade Econômica (Emae), calculado pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), também ficou 1,4% abaixo de julho de 2025. Segundo o J.P. Morgan, o tombo mensal foi o maior desde o confinamento da pandemia, em abril de 2020.
Indústria e comércio estão entre os setores mais atingidos. O quadro contrasta com o desempenho da mineração e da produção energética voltadas à exportação, que continuam sustentando parte dos indicadores gerais, mas têm efeito limitado sobre o comércio e o consumo dentro do país, segundo a análise do banco.
A fraqueza do mercado interno também está relacionada à perda de poder de compra e à desaceleração do crédito diante do aumento da inadimplência. O resultado é uma economia em que os setores exportadores conseguem avançar sem produzir uma recuperação equivalente da indústria, do comércio e do consumo.
Banco já espera metade do crescimento prometido por Milei
A distância entre as projeções de Wall Street e as promessas da Casa Rosada aumentou. O governo Milei trabalha no projeto de Orçamento com crescimento de 3% neste ano e 4% em 2027. O J.P. Morgan agora espera apenas 1,5% em 2026 e 2,5% no próximo ano.
O enfraquecimento da atividade ocorre em meio à deterioração das condições de vida dos argentinos. No primeiro semestre, 32,3% dos moradores dos 31 aglomerados urbanos pesquisados pelo Indec estavam abaixo da linha da pobreza e 7,5% viviam na indigência.
A previsão de recessão coloca sob pressão uma das principais referências econômicas de Flávio Bolsonaro na campanha presidencial. Milei é aliado do candidato do PL, que tem apresentado a experiência argentina como modelo para o Brasil.