
Nenhum absurdo é suficiente para não corrermos o risco real de termos, mais uma vez, um facínora no poder.
Imagine um país em que a esquerda (inclusive ateus) precisa defender uma santa, a padroeira, que um candidato à presidência quer destronar? Eis o Brasil, amigos.
Aliás, é sempre bom relembrar quem é o pastor bolsonarista por trás da história da santa: o pastor de Flavio Bolsonaro, o bispo JB Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, foi quem disse que Nossa Senhora da Aparecida não deveria ser a padroeira do Brasil, pois “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”. O homem afirmou que a tal Rainha dos Céus é uma deusa pagã.
Não contente, ele se referiu à padroeira como “imagem escura de deusa”, uma demonstração mais do que evidente da razão pela qual querem tirar o posto de padroeira de Nossa Senhora da Aparecida. Puro suco de racismo à brasileira, a especialidade de todo canalha.
O mesmo pastor se refere à Virgem Maria como “meretriz” e “prostituta”, chegando a inventar a “prostituição espiritual”, um termo pra lá de tosco.
No livro “A Bomba: A verdade pode ser explosiva”, ele defende que a veneração a Maria é um paralelo à adoração pagã a entidades femininas no passado.

Estamos de volta à caça às bruxas?
Ah, é, nunca saímos dela.
Se um pastor não consegue respeitar nem mesmo uma santa, ou aquela que é considerada pelo cristianismo como a mãe de Cristo, imagine o que não faria com as mulheres “pagãs”?
Ele nos eliminaria, se pudesse. Nos apedrejaria em praça pública.
As falas de JB Carvalho provam que, por mais atentas que estejamos, o buraco da misoginia evangélica é muito mais embaixo: o horror que eles têm a mulheres é tão latente que qualquer menção a entidades femininas lhes soa como ameaça – talvez por isso persigam tanto as religiões de matriz africana, que adoram “deusas escuras” todos os dias.
O bolsonarismo é misógino até com uma santa, e esse é o tamanho do problema: eles não odeiam feministas apenas; eles odeiam mulheres, e eles continuarão a normalizar a misoginia ano após ano, e isso se dará muito mais rápido se, nessas eleições, o obscurantismo vencer o presidente do povo.
Uma possível vitória de Flavio Bolsonaro significaria uma tragédia para o Brasil, e ainda mais para as mulheres brasileiras.
E, sim, as declarações de JB podem e devem ser associadas a Flavio. Embora agora tente desvencilhar sua imagem das declarações do bispo, o 01 e sua esposa foram batizados em sua igreja, e isso não é tudo.
Há uma aliança política explícita entre Flavio e o pastor, bolsonarista ferrenho. A relação continuada entre ambos é de conhecimento público, por mais que o candidato tente negar, agora que a verdadeira bomba estourou.
O fato é que o bolsonarismo, desde sempre ancorado no fundamentalismo religioso – alô, Damares –, tem metido os pés pelas mãos até com a crentalhada burra que acreditava em suas boas intenções.
Mas não adianta: quem apoia o bolsonarismo coaduna com seus posicionamentos, sobretudo os evangélicos, que também odeiam “deusas escuras”, em sua maioria.
Lamentavelmente, nem profanar uma santa assusta os bolsonaristas mais cegos, e não será isso a afastá-los da ideia medonha de tentarem colocar, mais uma vez, um fascista no poder.