Mídia, o escândalo do Banco Master e a culpabilização de quem denuncia
por Ludimila Cindra
O escândalo do Banco Master tornou-se o caso de maior impacto político no Brasil às vésperas da eleição de 2026. Daniel Vorcaro, controlador do banco, foi preso enquanto tentava embarcar para Dubai, e as mensagens extraídas de seu celular revelaram uma intricada rede de relações envolvendo o mundo político, o judiciário e o setor financeiro. No entanto, a forma como a informação circulou — o momento das revelações, a intensidade da cobertura e o tratamento dispensado a diferentes personagens — apresenta assimetrias que merecem análise.
O Banco Master é acusado de protagonizar uma das maiores fraudes bancárias da história recente do país. A Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero para apurar o esquema. As investigações ganharam profundidade no governo Lula, mas as relações comerciais e os financiamentos eleitorais que deram origem ao escândalo remontam ao governo Bolsonaro.
Foi no governo Lula que a corrupção do Banco Master — que começou no governo Bolsonaro — foi efetivamente denunciada e investigada. A Polícia Federal teve liberdade para atuar, e foi essa investigação que revelou o envolvimento de Vorcaro com diversos setores do poder. No entanto, as informações midiáticas frequentemente produzem a sensação de que Lula estaria envolvido no esquema, quando, na realidade, quem comprovadamente está envolvido é Flávio Bolsonaro, conforme os documentos e áudios divulgados.
Entre todos os personagens políticos envolvidos, o senador Flávio Bolsonaro é aquele cuja ligação com Vorcaro é mais direta e documentada, os valores e a natureza da operação. Segundo reportagens do Intercept Brasil e documentos da Polícia Federal, Flávio negociou pessoalmente com Vorcaro o financiamento de um filme biográfico sobre seu pai, Jair Bolsonaro, intitulado “Dark Horse”. O valor solicitado foi de R$ 134 milhões, dos quais mais de R$ 61 milhões foram efetivamente pagos. Os recursos transitaram por uma empresa chamada Entre Investimentos e foram direcionados a um fundo americano controlado por advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
O ministro André Mendonça autorizou a abertura de inquérito contra Flávio em 22 de julho de 2026, para apurar lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. As mensagens apreendidas mostram que Flávio e Vorcaro se tratavam por “irmão”.
A defesa de Flávio alega que se trata de patrocínio privado, sem uso de dinheiro público, e que os valores não ingressaram em sua conta pessoal. No entanto, investigações apontam que parte dos recursos de Vorcaro tinha origem em fundos de previdência públicos de estados como Rio de Janeiro e Amapá.
Um dado objetivo merece destaque: o inquérito contra Flávio Bolsonaro foi autorizado em 22 de julho, mas o fato permaneceu sob sigilo por quase dois meses. Somente em 10 de setembro, quando o presidente do STF, Edson Fachin, determinou a ampliação da publicidade do caso, a informação veio a público.
No mesmo período, as conversas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes — igualmente sob sigilo — foram tornadas públicas e provocaram uma crise institucional de grandes proporções, com múltiplos pedidos de impeachment contra Moraes protocolados no Senado. Essa diferença no momento das revelações tem consequências políticas concretas: Flávio pôde consolidar sua candidatura presidencial sem o desgaste que a divulgação imediata da investigação teria causado.
Por outro lado, o Instituto Iter, fundado por André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, empresa controlada por Lucas Kallas. Kallas é descrito como parceiro de negócios de Vorcaro — os dois viajaram juntos a Caracas em novembro de 2023 e entraram juntos no Palácio do Planalto, em dezembro do mesmo ano.
O contrato foi firmado em abril de 2024, no valor previsto de R$ 5,9 milhões. Em janeiro de 2026, o Iter interrompeu os repasses e iniciou a devolução dos valores. Um mês depois, em fevereiro, Mendonça foi sorteado relator do caso Banco Master no STF. Mendonça deixou formalmente a sociedade do Iter no início de setembro de 2026. O instituto afirma que a operação foi legal e que os recursos foram aplicados exclusivamente em suas atividades.
Aqui vale ressaltar a atuação da mídia: a comparação entre a cobertura do caso Moraes e a do caso Mendonça/Iter revela uma disparidade significativa: As conversas entre Vorcaro e Moraes geraram uma avalanche de matérias, análises e editoriais. A crise no STF dominou o noticiário por dias. Já a revelação sobre os R$ 5,2 milhões recebidos pelo instituto de Mendonça, embora tenha sido noticiada por veículos como UOL, Folha e Revista Fórum, recebeu tratamento substancialmente menos intenso.
Essa diferença não é acidental. O caso Moraes tem um apelo dramático maior — envolve um ministro do STF supostamente negociando com um banqueiro investigado — e ocorreu em um momento de máxima tensão pré-eleitoral. O caso Mendonça/Iter exige mais contexto para ser compreendido e não produz o mesmo impacto imediato, mas o efeito agregado dessa diferença de intensidade é relevante: contribui para moldar a percepção pública sobre quem são os “verdadeiros” responsáveis pelo escândalo.
A pesquisa Quaest divulgada em 21 de setembro de 2026 mostra um empate técnico no segundo turno: Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 41%. Na pesquisa espontânea, Lula oscilou de 28% para 31%, enquanto Flávio subiu de 23% para 26%.
Há um paradoxo evidente: o único candidato presidencial comprovadamente beneficiado por recursos de Vorcaro — com áudio no qual ele próprio admite ter pedido dinheiro ao banqueiro — mantém-se competitivo e até em leve vantagem numérica, enquanto o governo que denunciou o esquema é tratado midiaticamente como se estivesse envolvido nele.
Analistas atribuem esse fenômeno a dois fatores principais. Primeiro, a crise no STF envolvendo Moraes e Mendonça gera uma percepção difusa de que “tudo está contaminado”, o que favorece o discurso antissistema. Segundo, a cobertura midiática mais contida em relação a Flávio evita que o escândalo do Master “grude” em sua candidatura com a mesma força com que atinge o campo adversário.
O Lula, por sua vez, que não está envolvido no escândalo, tem adotado uma postura de defesa pública de seus aliados, combinada com respeito formal ao devido processo legal. Em relação ao senador Jaques Wagner, investigado no âmbito do caso Master — ele foi alvo de busca e apreensão na 9ª fase da Operação Compliance Zero —, Lula declarou que se trata de um amigo de 45 anos e que não colocaria em dúvida seu comportamento por causa de uma “ilação”. Mas acrescentou: “Se ele cometeu um desvio, vai pagar o preço do erro que cometeu.” Essa é uma posição que tenta conciliar lealdade pessoal com o princípio de que ninguém está acima da lei, mas é impressionante como tudo respinga no Lula e quase nada no Flávio.
O caso Banco Master expõe não apenas uma fraude financeira de grandes proporções, mas também a política da informação: o momento em que os fatos se tornam públicos, a intensidade com que são noticiados e o enquadramento que recebem.
Os fatos documentados apontam para uma assimetria: Flávio Bolsonaro, diretamente beneficiado por recursos de Vorcaro, teve sua investigação mantida em sigilo por quase dois meses e enfrenta uma cobertura mais branda. André Mendonça, relator do caso, teve seu instituto financiado por um parceiro de Vorcaro, mas esse fato recebeu menos atenção do que as conversas de Moraes. Enquanto isso, o governo Lula — que denunciou e investigou o esquema — é midiaticamente tratado como se fosse parte dele e a pergunta que fica é: a quem isso interessa?
Fontes de pesquisa
- Financiamento eleitoral de Vorcaro a Bolsonaro e Tarcísio: Correio Braziliense (03/09/2026), Folha de S.Paulo (04/09/2026), Diário do Estado de São Paulo (03/09/2026)
- Caso “Dark Horse” e Flávio Bolsonaro: Nexo Jornal (12/09/2026), Agência Brasil (12/09/2026), O Hoje (11/09/2026), Agência Brasil em inglês (11/09/2026), Folha de S.Paulo (14/05/2026)
- Instituto Iter e André Mendonça: Times Brasil/CNBC (18/09/2026), BPMoney (17/09/2026), Revista Fórum (17/09/2026), Jornal do Brasil (17/09/2026)
- Alexandre de Moraes e Vorcaro: CNN Brasil (19/09/2026), Jornal de Brasília (20/09/2026), Gazeta do Povo (19/09/2026)
- Fontes adicionais: Tribuna do Norte (10/09/2026), Diário do Centro do Mundo (20/09/2026)
Ludimila Cindra – Advogada e ativista de Direitos Humanos. Membra da Rede Lawfare Nunca Mais
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