Prédio atingido abrigava cerca de R$ 100 milhões em equipamentos e pesquisas acumuladas ao longo de duas décadas; este foi o terceiro incêndio registrado na universidade em oito dias, mas ainda não há causa definida nem prova de ligação com mensagens de ameaça
Da Redação
Um incêndio de grandes proporções atingiu na noite desta quarta-feira (7) um dos principais prédios de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, no campus da Cidade Universitária, no Recife. As chamas alcançaram instalações ligadas à Diretoria de Inovação e Empreendedorismo da UFPE e provocaram perdas de equipamentos, amostras científicas e materiais utilizados em pesquisas desenvolvidas durante anos por estudantes e professores. Não houve registro de vítimas.
O episódio ganhou uma dimensão adicional depois que estudantes relataram ter recebido, horas antes do incêndio, mensagens com ameaças contra setores da universidade. Parte dessas mensagens foi atribuída a apoiadores de Flávio Bolsonaro e fazia referência à possibilidade de “explodir” instalações da instituição. Até agora, entretanto, não existe confirmação oficial sobre a autoria das mensagens nem evidência de que elas tenham qualquer relação com o incêndio.
Essa distinção é central para a apuração. As ameaças existem como relatos apresentados por estudantes e divulgados publicamente por representantes políticos, mas a origem do fogo continua desconhecida. Cabe às investigações estabelecer se ocorreu um acidente, uma falha técnica ou uma ação deliberada.
O Corpo de Bombeiros foi acionado durante a noite e mobilizou equipes para impedir a expansão das chamas. A presença de produtos e materiais utilizados nos laboratórios contribuiu para a propagação rápida do fogo. O combate atravessou a madrugada, enquanto o prédio permanecia isolado.
A estrutura atingida reunia laboratórios das áreas de fármacos, informática, genética e outras linhas de pesquisa científica. Entre os trabalhos desenvolvidos no local estavam estudos relacionados a câncer, obesidade, Covid-19, autismo, TDAH, doenças raras e desenvolvimento de medicamentos.
O reitor da UFPE, Alfredo Gomes, afirmou que o prédio concentrava aproximadamente R$ 100 milhões em equipamentos. O número não representa, neste momento, uma estimativa definitiva do prejuízo provocado pelo incêndio. A universidade ainda precisa identificar quanto desse patrimônio foi efetivamente destruído ou danificado.
Mais difícil de calcular é o impacto sobre o conhecimento acumulado.
Segundo o reitor, alguns laboratórios mantinham informações, amostras e resultados de pesquisas desenvolvidas durante até 20 anos. Parte desse material estava vinculada a dissertações, teses, projetos de iniciação científica e estudos conduzidos por pesquisadores de diferentes níveis da carreira acadêmica.
Equipamentos podem eventualmente ser substituídos com novos investimentos. Amostras biológicas, experimentos de longa duração e séries históricas de dados nem sempre podem ser reconstruídos.
Ameaças chegaram antes do incêndio
As mensagens divulgadas por estudantes passaram a ser tratadas como um elemento que precisa ser investigado depois que o deputado federal eleito Jones Manoel informou que integrantes da comunidade universitária haviam recebido ameaças políticas.
Segundo ele, uma das mensagens mencionava explicitamente a possibilidade de “explodir o departamento” e fazia referência a Flávio Bolsonaro. Jones Manoel anunciou que pediria atuação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal para esclarecer a origem das ameaças e verificar se existe algum vínculo com o incêndio.
Até o momento, essa ligação não está demonstrada.
Também não existe informação oficial de que a campanha de Flávio Bolsonaro, o PL ou dirigentes partidários tenham participado da produção ou envio das mensagens. A eventual identificação dos responsáveis dependerá da investigação das contas, números de telefone ou perfis utilizados para encaminhá-las.
O episódio ocorreu num campus que havia registrado mobilizações políticas de estudantes durante o período eleitoral. Na véspera, grupos universitários participaram de atividades em defesa da educação pública e da democracia, com manifestações de apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.
A proximidade temporal entre essa mobilização, as ameaças e o incêndio explica a preocupação manifestada por estudantes, mas não permite concluir que os acontecimentos estejam relacionados.
Terceiro incêndio em oito dias
Outro elemento que deverá ser observado pelas autoridades é a sequência de incêndios registrada na UFPE.
O fogo desta quarta-feira foi o terceiro episódio do tipo nas instalações da universidade em aproximadamente oito dias.
Em 30 de setembro, um incêndio atingiu um laboratório do Departamento de Física. Naquele caso, uma das hipóteses consideradas foi de que as chamas tenham começado em um equipamento utilizado para aquecimento de substâncias.
Poucos dias depois, um novo incêndio atingiu o Laboratório de Citogenética e Evolução Vegetal, no Centro de Biociências.
Nenhuma das ocorrências anteriores deixou vítimas, e até agora não existe indicação de que os três incêndios tenham uma origem comum.
A sequência, contudo, aumenta a necessidade de uma avaliação técnica mais ampla sobre instalações elétricas, armazenamento de substâncias, sistemas de prevenção e combate a incêndios e condições estruturais dos laboratórios da universidade.
No caso desta quarta-feira, a dimensão das perdas científicas torna a investigação particularmente importante.
Governo promete acompanhar investigação
O advogado-geral da União, Jorge Messias, manifestou solidariedade à comunidade acadêmica e defendeu uma investigação rigorosa. A Procuradoria-Geral Federal deverá acompanhar a apuração e avaliar as providências jurídicas necessárias.
O Ministério da Educação também informou que acompanha a situação e colocou sua estrutura à disposição da UFPE para auxiliar na recuperação das atividades atingidas.
Apesar do incêndio, a universidade decidiu manter as demais atividades do campus nesta quinta-feira (8). A Expo UFPE 2026, prevista para ocorrer durante o dia, também foi mantida. O prédio incendiado permanece isolado enquanto técnicos avaliam as condições da estrutura.
A extensão exata das perdas deverá levar tempo para ser conhecida. Cada laboratório precisará levantar equipamentos destruídos, materiais consumidos pelas chamas, bancos de amostras afetados e experimentos interrompidos.
O incêndio, entretanto, já deixou uma perda que ultrapassa paredes queimadas e máquinas danificadas. Parte do que estava naquele edifício era resultado de anos de trabalho científico realizado com recursos públicos e acumulado por diferentes gerações de pesquisadores.
Ao mesmo tempo, as ameaças relatadas por estudantes exigem uma apuração separada e igualmente rigorosa. Caso se confirme que foram produzidas com intenção política, seus autores terão de ser identificados e responsabilizados. Caso exista relação entre as mensagens e o incêndio, será necessário demonstrá-la por provas.
Até lá, a informação disponível exige cautela: houve ameaças relatadas, houve um incêndio devastador e houve uma coincidência temporal entre os dois fatos. O que ainda não existe é prova de que um tenha causado o outro.
Essa resposta agora depende da perícia e das investigações.