Da Redação
Após fracasso das negociações comerciais, Donald Trump impõe tarifas de 50% sobre US$ 20 bilhões em produtos canadenses e Mark Carney promete responder “dólar por dólar”. Papel higiênico, lenços, papel-toalha e celulose entram na retaliação canadense, expondo a profunda integração produtiva entre as duas economias.
A guerra comercial entre Estados Unidos e Canadá chegou a um dos produtos mais básicos da vida cotidiana. Depois do colapso das negociações entre Washington e Ottawa, o governo canadense decidiu incluir papel higiênico, lenços faciais, papel-toalha, guardanapos e celulose entre centenas de mercadorias norte-americanas submetidas a novas tarifas retaliatórias. A disputa que começou nas grandes mesas de negociação comercial poderá, assim, terminar literalmente no banheiro dos consumidores.
A escalada ocorreu depois que as conversações para um acordo comercial abrangente fracassaram na última sexta-feira. Os dois governos acusaram o outro lado de modificar condições negociadas na reta final. Em resposta, o presidente Donald Trump anunciou tarifas de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em importações canadenses, atingindo produtos como vinho, cimento, compensado de madeira e roupas.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, reagiu prometendo uma resposta “dólar por dólar”. Ottawa anunciou tarifas de até 50% sobre aproximadamente 700 produtos norte-americanos. A nova rodada de retaliações deverá entrar em vigor em 8 de setembro, deixando ainda uma pequena janela para que os dois governos tentem impedir uma escalada ainda maior.
Entre os produtos escolhidos pelo Canadá estão itens particularmente sensíveis para o cotidiano das famílias. Papel higiênico e lenços faciais enfrentarão tarifa de 25%, enquanto papel-toalha e guardanapos serão atingidos por alíquota de 50%. A celulose química utilizada na fabricação desses produtos também foi incluída na faixa de 50%.
À primeira vista, pode parecer apenas mais uma curiosidade de uma guerra tarifária cada vez mais extensa. Mas o papel higiênico revela um problema econômico muito maior: Estados Unidos e Canadá construíram ao longo de décadas cadeias produtivas tão profundamente integradas que tentar atingir economicamente o vizinho pode significar aumentar os custos dentro da própria economia.
O Canadá é o principal fornecedor estrangeiro de papel higiênico para o mercado norte-americano. Segundo dados da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos citados pela RT, o país forneceu US$ 383,4 milhões do produto aos EUA em 2025, aproximadamente dois terços de todas as importações americanas. O México, segundo colocado, apareceu muito atrás, com cerca de US$ 63 milhões.
Mas existe uma dependência ainda mais profunda escondida atrás do produto final.
O Canadá também é um fornecedor essencial de celulose para as fábricas norte-americanas. Entre os materiais importados está a chamada northern bleached softwood kraft pulp (NBSK), uma fibra de madeira utilizada na produção de papel higiênico e papel-toalha. Segundo os dados apresentados pela reportagem, a celulose canadense participa de aproximadamente 30% da fabricação de papel higiênico e de metade da produção de papel-toalha nos Estados Unidos.
Isso significa que a guerra tarifária pode atingir duas etapas da mesma cadeia: o produto pronto que atravessa a fronteira e a matéria-prima necessária às próprias fábricas americanas.
É aí que aparece o paradoxo das tarifas.
Formalmente, a tarifa é cobrada sobre a importação. Na prática, porém, quem inicialmente paga esse custo adicional é o importador. A partir daí, empresas podem absorver parte da despesa, reduzir margens, pressionar fornecedores ou repassar o aumento aos preços cobrados de distribuidores e consumidores.
Quanto menor a possibilidade de substituir rapidamente o fornecedor estrangeiro, maior tende a ser a pressão para que parte desse custo percorra a cadeia produtiva.
No caso do Canadá, a substituição não é necessariamente simples. A proximidade geográfica, a infraestrutura logística compartilhada e décadas de integração comercial criaram uma cadeia norte-americana em que matérias-primas e produtos cruzam a fronteira de maneira sistemática.
A guerra comercial começa, portanto, a revelar a contradição existente entre fronteiras políticas e cadeias econômicas.
Washington pode impor uma tarifa na alfândega. Não consegue, entretanto, reconstruir instantaneamente décadas de integração industrial.
O produto banal que revela uma dependência estratégica
O papel higiênico possui ainda uma particularidade: os Estados Unidos são um dos maiores consumidores mundiais de produtos de papel sanitário.
A RT cita pesquisas segundo as quais o consumidor americano utiliza em média aproximadamente 141 rolos de papel higiênico por ano, algo próximo de três rolos por semana. O país também responde por uma parcela muito elevada do consumo mundial de tissue.
Uma pequena variação de preço, portanto, pode adquirir dimensão significativa quando multiplicada por dezenas de milhões de famílias.
E justamente por ser um produto cotidiano, barato e comprado repetidamente, o papel higiênico possui outra característica politicamente importante: o consumidor percebe rapidamente quando seu preço aumenta.
A discussão deixa então as planilhas de comércio exterior e chega às prateleiras.
Essa é uma das razões pelas quais guerras tarifárias podem produzir consequências políticas imprevisíveis. Governos apresentam tarifas como instrumentos destinados a punir outros países, proteger indústrias nacionais ou conseguir concessões comerciais. Mas o eleitor muitas vezes julga a política econômica por algo muito mais simples: quanto custa aquilo que compra toda semana.
Retaliação canadense vai muito além do banheiro
O papel higiênico tornou-se o símbolo mais curioso da nova rodada, mas representa apenas uma pequena parte da ofensiva canadense.
A lista de Ottawa inclui tarifas mais elevadas sobre produtos como peixes, queijos, roupas, cosméticos, artigos de aço e alumínio, motocicletas, smartphones e equipamentos de exercício físico.
A seleção de produtos não é aleatória.
Em uma guerra comercial, tarifas retaliatórias podem ser desenhadas não somente para provocar impacto econômico, mas também para produzir pressão política. Governos podem escolher produtos associados a regiões, setores industriais ou grupos empresariais com capacidade de pressionar a administração adversária.
A ministra canadense da Indústria, Mélanie Joly, afirmou que as contramedidas pretendem proteger empresas canadenses e aumentar a pressão política sobre Washington antes das eleições legislativas norte-americanas marcadas para 3 de novembro.
Essa dimensão transforma a disputa comercial também numa batalha eleitoral.
Ottawa tenta elevar o custo doméstico das decisões de Trump justamente no momento em que deputados e senadores norte-americanos precisam prestar contas aos seus eleitores.
O cálculo canadense é que empresários prejudicados, consumidores diante de preços maiores e representantes de estados economicamente afetados possam pressionar a Casa Branca por uma solução.
De parceiros históricos a adversários comerciais
A profundidade da crise chama atenção porque Estados Unidos e Canadá possuem uma das relações econômicas mais integradas do mundo.
A fronteira entre os dois países é atravessada diariamente por cadeias de produção envolvendo energia, automóveis, madeira, alimentos, produtos agrícolas, minerais e inúmeros componentes industriais.
Em determinados setores, um produto pode atravessar a fronteira várias vezes durante diferentes etapas de fabricação antes de chegar ao consumidor.
Por isso, uma guerra tarifária entre os dois países funciona de maneira diferente de um conflito comercial entre economias com pouca integração.
É difícil atingir apenas o adversário.
Uma tarifa aplicada sobre matéria-prima canadense pode elevar o custo de uma fábrica americana. Uma retaliação canadense contra um produto dos Estados Unidos pode prejudicar uma empresa que utiliza componentes produzidos nos dois lados da fronteira.
A própria estrutura econômica construída durante décadas transforma a tarifa numa arma que pode produzir efeito de ricochete.
Ainda existe uma janela para negociação
Apesar da escalada, a nova rodada de tarifas canadenses não entrará imediatamente em vigor.
A data prevista é 8 de setembro. Isso deixa aproximadamente duas semanas entre o anúncio e a aplicação efetiva das medidas, período que poderá ser utilizado para uma nova tentativa de negociação.
Christopher Sands, diretor do Center for Canadian Studies da Johns Hopkins University, avaliou que a janela ainda oferece tempo para que Washington e Ottawa tentem evitar uma guerra comercial generalizada.
O problema é que cada rodada de retaliação torna politicamente mais difícil recuar.
Trump construiu boa parte de sua política comercial em torno da ideia de que tarifas podem ser utilizadas para reorganizar relações econômicas consideradas desfavoráveis aos Estados Unidos. Carney, por sua vez, precisa demonstrar aos canadenses que seu governo não aceitará passivamente medidas impostas por Washington.
Os dois líderes possuem, portanto, incentivos domésticos para demonstrar firmeza.
É justamente essa dinâmica que pode transformar uma disputa negociável numa espiral.
Um país impõe 25%. O outro responde com 25% ou 50%. Novos setores entram na lista. Empresas pressionam governos. Cadeias produtivas procuram fornecedores alternativos. Custos aumentam. E aquilo que começou como instrumento de negociação passa a modificar estruturalmente relações comerciais construídas durante décadas.
O papel higiênico oferece uma imagem quase caricatural desse processo, mas economicamente bastante reveladora.
Uma guerra comercial apresentada em Washington como instrumento para defender os interesses americanos pode elevar o preço de um produto utilizado diariamente pelos próprios americanos. Ao mesmo tempo, a retaliação canadense destinada a pressionar Trump também poderá impor custos às empresas e aos consumidores do Canadá.
Essa é a anatomia de uma guerra tarifária entre economias profundamente interdependentes: quanto mais integrado é o adversário, mais difícil se torna feri-lo sem atingir a si próprio.
E talvez seja justamente por isso que a chegada da disputa ao papel higiênico seja mais do que uma curiosidade.
Quando uma guerra comercial alcança produtos tão elementares da vida cotidiana, significa que ela deixou os gabinetes, as alfândegas e as planilhas de comércio exterior.
Chegou à casa do consumidor.