Flávio Bolsonaro (PL) prometeu colocar o Brasil no Escudo das Américas, coalizão militar criada por Donald Trump para submeter a segurança da América Latina aos interesses dos Estados Unidos.
A adesão abriria as portas do País para um projeto que, sob o pretexto de combater o narcotráfico, amplia as possibilidades de intervenção norte-americana e busca afastar da região parceiros como a China.
A declaração foi feita durante uma conversa com o presidente de extrema direita da Colômbia, Abelardo de la Espriella. O vídeo foi publicado nesta quarta-feira (7) pelo perfil do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato.
“Eu vou com muita vontade e muita honra querer fazer parte também do Escudo das Américas, para fazer uma cooperação com a Colômbia e com os demais países que queiram se unir para combater essas facções narcoterroristas”, afirmou Flávio.
A gravação ocorreu antes do primeiro turno das eleições, realizado no domingo (4). Na conversa, o senador disse esperar que a direita conquistasse maioria no Congresso.
Flávio também prometeu adotar um “regime muito duro” no Brasil e ampliar o intercâmbio de informações com os governos alinhados à Casa Branca.
“Quando um criminoso da Colômbia estiver no Brasil, será um grande prazer para mim, como presidente da República, prendê-lo e entregá-lo ao senhor, assim como eu quero que o senhor entregue os bandidos brasileiros”, declarou.
A campanha confirmou à imprensa que Flávio pretende ingressar na coalizão. Aliados do senador tratam a adesão como certa em caso de vitória e afirmam que os detalhes poderiam ser definidos ainda durante a transição.
O Escudo das Américas foi apresentado por Trump como uma coalizão militar destinada a restaurar o domínio dos Estados Unidos sobre a região. No lançamento do grupo, em março, o presidente norte-americano declarou que “o coração do acordo” é o emprego de “força militar letal” contra organizações classificadas por Washington como terroristas.
Na ocasião, Trump também prometeu ataques de “alta precisão” e disse que os Estados Unidos não permitiriam o avanço de “influências estrangeiras hostis” no continente — referência sobretudo à China, principal parceiro comercial do Brasil.
O projeto envolve minerais críticos, terras raras, infraestrutura digital e a disputa dos Estados Unidos para recuperar o espaço econômico perdido para a China na América Latina.
Crime organizado como pretexto
Em setembro, os governos reunidos no Escudo das Américas classificaram 24 organizações como “narcoterroristas”, entre elas o PCC e o Comando Vermelho.
Também anunciaram que levariam o tema ao Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (Tiar), criado para responder a agressões militares contra países do continente.
Ao enquadrar facções criminosas como forças terroristas internacionais, Washington transforma um problema de segurança pública em questão militar e cria justificativas para sanções, perseguições extraterritoriais e operações dentro de outros países.
“Isso abre possibilidades muito maiores de intervenções militares e de prisões de forma extrajudicial e extraterritorial”, alertou o cientista político Thiago Rodrigues, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista ao programa Entrelinhas Vermelhas.
A classificação também permite que os Estados Unidos decidam quem pode ser acusado de apoiar essas organizações. O conceito é amplo o suficiente para atingir pessoas, empresas, movimentos e governos que contrariem os interesses econômicos ou militares de Washington.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já advertiu que a designação unilateral das facções brasileiras como terroristas pode servir de justificativa para “o uso da força militar dos EUA contra o território nacional”.
O governo Lula, por isso, rejeitou a entrada do Brasil no Escudo das Américas e sustentou que o enfrentamento às facções deve ser feito pelas instituições brasileiras, com cooperação internacional, mas sem entregar a Washington o poder de intervir no País.
Flávio oferece o Brasil a Trump
Em maio, o senador esteve em Washington e pediu ao governo Trump que classificasse o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Poucos dias depois, a Casa Branca adotou a medida.
A viagem foi realizada ao lado de Eduardo Bolsonaro e do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, que atuaram nos Estados Unidos pela imposição de sanções contra autoridades brasileiras e pressionaram Trump a interferir no julgamento de Jair Bolsonaro.
A disposição para aderir ao Escudo soma-se a outras promessas entreguistas de Flávio. O candidato já ofereceu aos Estados Unidos acesso às terras raras brasileiras, defendeu o fim de regras ambientais para facilitar a exploração mineral e apresentou o Brasil como alternativa norte-americana à China. Seu irmão Eduardo chegou a afirmar que o Pix poderia entrar numa negociação com a Casa Branca.
Por trás do discurso de combate ao narcotráfico, o Escudo das Américas prepara o terreno para ampliar o domínio dos Estados Unidos sobre a América Latina e o Caribe.
É justamente esse lugar que Flávio se oferece para ocupar. Depois de ajudar Trump a atacar a economia brasileira com tarifas e sanções, o candidato agora promete incluir o País numa coalizão militar comandada pela Casa Branca.