Documentos obtidos pela Polícia Federal (PF) na Operação Sem Desconto revelam vínculos financeiros, empresariais e pessoais entre o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, e o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro em um esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.
Entre os elementos identificados pelos investigadores estão emails sobre uma conta bancária associada ao nome de Flávio em uma estrutura de acesso vinculada a Tomaz, além de voos custeados por empresas do advogado e viagens internacionais realizadas pelos dois e seus familiares.
A conta no Santander
Segundo emails recuperados pela PF de uma conta do iCloud de Tomaz, em 22 de maio de 2025, Fayla Zulmira Menezes, funcionária do escritório do advogado, solicitou ao Santander a retirada de uma conta identificada como “Flávio Bolsonaro” de um “usuário master” vinculado a Tomaz. No mesmo dia, o banco confirmou a exclusão.
De acordo com a análise dos investigadores, a conta identificada com o nome do candidato estava vinculada ao mesmo usuário master relacionado a contas de Tomaz e à Alcazar Holdings, empresa da qual o advogado é sócio.
Flávio afirma que nunca manteve conta cujo usuário master fosse Tomaz ou qualquer empresa dele. O advogado, por sua vez, declara que jamais criou usuário em nome do senador.
Jatos, imóveis e viagens
Registros de viagens e informações reunidas pela PF mostram que Flávio e Tomaz mantêm uma relação que inclui deslocamentos internacionais e acesso a bens e serviços do advogado.
Os dois viajaram juntos para a África em março de 2025. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, Flávio também utilizou um jatinho de Tomaz e um apartamento de sua propriedade em São Paulo.

A PF identificou voos internacionais de Flávio e familiares custeados por empresas ligadas ao advogado: a Alcazar Holdings, sediada na Ilha da Madeira, e a Cathedral Holdings, em Portugal.
Em janeiro de 2025, Flávio, a mulher, as duas filhas e Tomaz viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um jato Legacy 650 do qual a Alcazar possui participação.
A investigação também identificou pagamentos da Cathedral por voos da NetJets, empresa que comercializa cotas e pacotes de horas em aeronaves executivas. Entre os deslocamentos registrados estão trajetos entre Portugal e a França.
Tomaz afirma que os passageiros viajaram como convidados e que o voo no Legacy foi pago com horas correspondentes à sua participação na aeronave.
O “hub financeiro” investigado pela PF
Em sua investigação, a PF descreve empresas e escritórios ligados a Tomaz como um possível “hub financeiro, patrimonial e logístico” colocado à disposição de beneficiários investigados.
No caso do senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado, os policiais identificaram mensagens entre ele e Fayla. Segundo a PF, as conversas tratavam da gestão de despesas e de operações financeiras do senador, incluindo pagamentos, aquisição de imóveis e repasses em espécie.
A funcionária é a mesma que enviou ao Santander o email sobre a conta identificada como “Flávio Bolsonaro”.
A coincidência entre os registros bancários e os demais vínculos levou a PF a recomendar o aprofundamento das apurações sobre as relações de Tomaz com agentes públicos.
Outro elo com o caso do INSS
Registros da Receita Federal indicam que Flávio é sócio de uma sociedade individual de advocacia administrada por Letícia Caetano dos Reis. Em entrevista à Agência Pública, em 2022, Letícia afirmou ter sido apresentada ao senador por Tomaz.
O irmão dela, Alexandre Caetano dos Reis, foi alvo da Operação Sem Desconto. Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, ele prestava serviços contábeis a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS” e apontado pela PF como um dos principais operadores financeiros do esquema.
Quem pagou e para quê?
A investigação precisa esclarecer a natureza da relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, incluindo quem criou e movimentou a conta mencionada nos emails, quais eram as permissões de acesso e se houve transferências de recursos entre os envolvidos.
Também cabe aos investigadores determinar a origem dos pagamentos de voos e de outros benefícios utilizados pelo senador, bem como verificar se essas operações tinham alguma relação com as atividades financeiras sob apuração.
Flávio nega ter mantido conta sob controle de Tomaz e afirma que as acusações têm finalidade eleitoral. O advogado também rejeita a existência de relações comerciais ou financeiras com o senador e diz que os dois mantêm apenas uma amizade.
Os elementos reunidos pela PF colocam em foco a relação entre um candidato à Presidência e um advogado investigado em um caso de suspeita de lavagem de dinheiro. A apuração deverá esclarecer se os vínculos identificados têm natureza exclusivamente pessoal ou se envolvem operações financeiras relevantes para a investigação do INSS. O ponto central é rastrear a origem dos recursos, identificar seus beneficiários e determinar a finalidade das transações.