
Michelle Bolsonaro pediu ao humorista André Marinho que a abraçasse e imitasse a voz de Jair Bolsonaro em seu ouvido ao saber da facada sofrida pelo então candidato à Presidência em Juiz de Fora (MG), em setembro de 2018.
O episódio ocorreu na mansão do empresário Paulo Marinho, pai do humorista, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. André, conhecido por imitar políticos, atendeu ao pedido, embora constrangido, conforme relatou no livro “O Brasil (não) é uma piada”.
As informação estão na revista Piauí, em perfil de autoria da jornalista Consuelo Dieguez. A residência de Paulo Marinho era utilizada para gravações da campanha presidencial porque Michelle não permitia filmagens na casa do casal, na Barra da Tijuca. Outra alternativa era a residência de Carlos Bolsonaro, no mesmo condomínio.
Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro no Senado em 2018, rompeu posteriormente com a família e chegou a reclamar que Michelle havia contratado uma funcionária que trabalhava havia anos em sua casa. “Nossa empregada estava conosco havia anos, e a Michelle não se envergonhou de tirá-la de nós”, contou a amigos.
Os conflitos familiares também foram relatados pelo ex-deputado Julian Lemos, um dos principais integrantes da campanha de Bolsonaro em 2018. “Michelle não dava nem bom-dia. Nós não podíamos passar da varanda da casa, embora tivéssemos assuntos importantes para tratar com Bolsonaro”, afirmou. Segundo Lemos, Carlos Bolsonaro chegou a ficar dois anos sem falar com o pai por causa do relacionamento com a madrasta. “Ela nunca foi aceita pela família. É o arquétipo da madrasta odiada pelos filhos do marido, entende? Ela nunca se integrou àquela família, sempre foi a indesejada. E também detestava todos eles”, declarou.
O comportamento de Jair Bolsonaro também provocava desentendimentos com Michelle. Durante um evento no Palácio do Planalto, o então presidente comentou diante de assessores os antecedentes judiciais de familiares da mulher. “Tudo bem, a minha sogra é uma estelionatária, respondeu processo por falsidade ideológica”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “A avó também andava vendendo umas coisinhas proibidas, na boca de fumo.” Bolsonaro continuou defendendo a família, mas Michelle, irritada com a exposição, deixou o local. As declarações foram relatadas por uma pessoa que presenciou a conversa.
Michelle mantinha uma relação próxima com o pai, Vicente Reinaldo, e os três irmãos do segundo casamento dele. Segundo os relatos, os constrangimentos provocados pelo marido contribuíram para que ela evitasse permanecer ao lado dele em determinadas ocasiões.
Depois do réveillon de 2018 para 2019, que antecedeu a posse presidencial, Michelle passou as viradas de ano seguintes longe de Bolsonaro. Em duas ocasiões, esteve na pousada do então ministro do Turismo, Gilson Machado Neto, em São Miguel dos Milagres, Alagoas, destino que também frequentava com Damares Alves e Celina Leão.
A relação ficou ainda mais difícil depois da derrota de Bolsonaro para Lula nas eleições de 2022. O então presidente decidiu deixar o Brasil em 30 de dezembro, antes da posse do sucessor, em meio à tentativa de golpe de Estado. Michelle inicialmente se recusou a acompanhá-lo aos Estados Unidos e manifestou o desejo de permanecer no país. Assessores intervieram para convencê-la a viajar, preocupados com as consequências políticas de uma separação pública naquele momento.
“Imagina ela ficar três meses longe do marido. Aquilo ia selar o fim do casamento deles, num momento complicado para ele”, afirmou um assessor. Michelle acabou embarcando com Bolsonaro. O casal retornou ao Brasil em março de 2023, quando o ex-presidente já era investigado por sua participação na tentativa de golpe.
Após o retorno, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, decidiu ampliar a participação política de Michelle e a colocou à frente do PL Mulher. A ex-primeira-dama passou a viajar pelo país e participar de eventos partidários, ocupando espaços na direita enquanto Bolsonaro enfrentava investigações relacionadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Jair Bolsonaro, no entanto, se opôs à articulação e proibiu movimentos políticos nesse sentido. Michelle, relata a Piauí, não descartava uma candidatura à Presidência no futuro. Em conversa com pessoas próximas, afirmou que não tinha pressa: “Lula levou anos para chegar lá”.