EUA retomam bombardeios contra Irã após avanço diplomático de Teerã

Os Estados Unidos voltaram a bombardear o Irã neste domingo (30), após pouco mais de um mês sem ataques confirmados contra o território do país. A ofensiva ocorreu quando Teerã avançava nas negociações sobre o Estreito de Ormuz e recebia uma sequência de mediadores regionais empenhados em retomar o diálogo com Washington.

O Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) atacou dois lançadores de foguetes na ilha de Larak, localizada no Estreito de Ormuz. Segundo o governo iraniano, o bombardeio deixou três mortos e outros feridos, entre civis e militares.

Washington alegou que os equipamentos seriam utilizados para lançar foguetes carregados com minas navais. Uma fonte militar iraniana rejeitou a versão e afirmou à agência Tasnim que o ataque pretendia impedir o Irã de agir contra navios que desrespeitaram as regras estabelecidas por Teerã para atravessar o Estreito.

“A alegação dos norte-americanos de que, com o ataque da noite passada, queriam impedir o Irã de colocar minas no Estreito de Ormuz e foram bem-sucedidos é fantasia e invenção”, declarou o militar. Segundo ele, “o confronto da noite passada não teve nada a ver com a colocação de minas”.

Antes da ação de domingo, o último bombardeio confirmado pelos Estados Unidos havia ocorrido em 29 de julho, quando o país atingiu dezenas de instalações iranianas durante duas horas. 

Em 1º de agosto, Donald Trump anunciou que suspenderia novos ataques a pedido de aliados norte-americanos no Oriente Médio.

Durante o mês sem ataques, o Irã intensificou as articulações diplomáticas. Omã, Paquistão e Catar apresentaram propostas para reabrir o Estreito de Ormuz e retomar as negociações interrompidas com os Estados Unidos. 

Irã recebe mediadores

Na última segunda-feira (24), o chefe do Exército paquistanês, marechal Asim Munir, chegou a Teerã com novas propostas para destravar as negociações. O Paquistão, que mantém contato com os dois governos, busca restabelecer as conversas diretas entre Irã e Estados Unidos e chegar a um acordo sobre o Estreito de Ormuz.

As propostas foram elaboradas pelo Paquistão, pelo Catar e por outros países da região após novos contatos com Washington. 

Segundo fontes do governo paquistanês ouvidas pela agência Anadolu, os dois lados haviam concordado tacitamente em não retomar as hostilidades, apesar do fim do prazo de 60 dias estabelecido no memorando de junho.

Munir reuniu-se com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, e outros representantes de Teerã. Segundo o Exército do Paquistão, a visita buscava promover uma “solução pacífica, duradoura e abrangente para o conflito no Oriente Médio”.

No dia seguinte, o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr Albusaidi, também esteve na capital iraniana. Ao fim da visita, os dois países anunciaram um entendimento para criar um corredor temporário de navegação e realizar conjuntamente a retirada de minas do Estreito de Ormuz.

O acordo deu ao Irã uma base concreta para negociar as regras de circulação pelo Estreito, acidente geográfico compartilhado com Omã. O entendimento também contrariou a tentativa dos Estados Unidos de apresentar Teerã como isolado nas discussões sobre uma das principais rotas energéticas do mundo.

Na quinta-feira (27), foi a vez do primeiro-ministro e chanceler do Catar, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, reunir-se com Pezeshkian, o chanceler Abbas Araqchi, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohsen Rezaee.

As conversas trataram da guerra, do corredor temporário de navegação e da retomada do processo diplomático. Em nota, o governo catari defendeu o respeito à soberania dos países vizinhos e a continuidade dos esforços para reduzir as tensões.

Pezeshkian afirmou que o Irã não cederá à “pressão e intimidação”. Rezaee, por sua vez, disse ao representante catari que Teerã não confia nos Estados Unidos porque Washington “traiu repetidamente a diplomacia e as negociações”.

Pressão econômica também enfrenta resistência

O avanço diplomático iraniano ocorreu enquanto o governo Trump tentava intensificar o isolamento econômico do país. Em 20 de agosto, Washington anunciou a Operação Pária Econômico, também chamada de “Dia D econômico”, com novas sanções contra o petróleo e o sistema financeiro do Irã.

O pacote prevê sanções secundárias contra países, empresas e instituições financeiras que continuem negociando com Teerã. A ofensiva, porém, encontrou resistência entre os próprios países envolvidos na mediação.

O Paquistão declarou que não tem obrigação de cumprir sanções unilaterais dos Estados Unidos. O Catar afirmou que esse tipo de medida não ajuda a alcançar uma solução pacífica para o conflito.

A China, principal compradora do petróleo iraniano, também rejeitou as sanções e declarou que adotará “todas as medidas necessárias” para proteger seus interesses. Pequim classificou a guerra econômica e a política de pressão máxima como instrumentos que alimentam as tensões e prejudicam a ordem econômica mundial.

Foi nesse cenário, marcado pela aproximação entre o Irã e seus vizinhos e pela resistência às novas sanções, que os Estados Unidos decidiram retomar os bombardeios.

A ofensiva contra Larak foi seguida pela resposta iraniana contra bases usadas pelos EUA na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos. Trump prometeu agora realizar novos ataques, colocando novamente em risco o processo diplomático conduzido durante o mês de relativa calma.

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