Delcy Rodríguez defende ‘benefícios infinitos’ de entregar o petróleo para Trump

Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela. Imagem: reprodução

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, saiu no sábado em defesa do vergonhoso acordo energético firmado com o governo de Donald Trump, apresentado pelo presidente americano como “o maior acordo de petróleo da história”.

Washington deverá assumir o controle de projetos que envolvem cerca de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas, em uma operação que provocou indignação entre opositores e integrantes do chavismo.

Rodríguez afirmou que os “benefícios são infinitos” e tentou afastar as acusações de que seu governo estaria entregando os recursos naturais do país aos Estados Unidos. Segundo ela, a Venezuela continuará sendo proprietária de suas reservas e manterá sua soberania sobre o petróleo.

Durante uma transmissão de seis minutos na televisão, Rodríguez argumentou que o acordo permitirá ao país atrair investimentos, tecnologia e infraestrutura para ampliar a produção e transformar suas gigantescas reservas em receitas para a população.

“Nosso país tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas ter recursos no subsolo não é suficiente. Precisamos de investimento, tecnologia, infraestrutura e capacidade de produção para transformar essa riqueza em bem-estar para nosso povo”, afirmou.

A presidente interina estimou que o acordo poderá gerar mais de US$ 209 bilhões em receitas para a Venezuela e transformar o país em uma “potência energética”.

Trump, por sua vez, classificou a operação como “histórica” e afirmou que ela permitirá aos Estados Unidos mais do que dobrar suas reservas de petróleo. No domingo, o presidente americano declarou ainda que pretende utilizar parte do petróleo venezuelano para recompor as Reservas Estratégicas de Petróleo dos Estados Unidos, que, segundo ele, foram praticamente esvaziadas durante o governo Joe Biden.

Trump chamou a utilização do petróleo venezuelano de um “presente da Venezuela ao povo dos Estados Unidos”.

Acordo provoca revolta na Venezuela

Os detalhes da negociação, conduzida durante meses em conversas secretas, ainda são escassos. O acordo envolveria 17 campos petrolíferos estratégicos, com expectativa de produção superior a 1,5 milhão de barris por dia.

A Venezuela possui as maiores reservas provadas de petróleo do planeta, estimadas em 303 bilhões de barris, à frente da Arábia Saudita, com 268 bilhões, e do Irã, com 208 bilhões.

Mesmo assim, a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle de uma parcela gigantesca dessas reservas provocou reação dentro e fora do chavismo.

Um integrante proeminente da oposição venezuelana classificou o acordo como uma “apropriação gigantesca de território” por parte de um Estados Unidos “ganancioso e mafioso”.

No sábado, dezenas de manifestantes de esquerda marcharam por Caracas contra o acordo, carregando cartazes com frases como “Não somos uma colônia nem um quintal” e “Yankees, voltem para casa!”.

Manifestação de venezuelanos em Caracas. Imagem: reprodução

Nas redes sociais, críticos compartilharam memes sugerindo que a estatal venezuelana PDVSA deveria mudar de nome para “PDUSA”, ironizando a suposta perda de autonomia da empresa diante de Washington.

Ex-chefe da PDVSA acusa governo de trair a Venezuela

Rafael Ramírez, ex-presidente da estatal petrolífera PDVSA, acusou o governo Rodríguez de desferir “uma punhalada diretamente no coração da pátria” ao aceitar o que chamou de acordo “neocolonial”.

“Eles estão entregando 65 bilhões de barris de nossas reservas aos Estados Unidos. Isso nunca aconteceu na Venezuela, e acredito que em nenhum outro lugar do mundo”, afirmou Ramírez ao jornal El Nacional.

A reação é particularmente explosiva porque Rodríguez passou anos denunciando justamente aquilo que agora apresenta como uma oportunidade econômica: a influência americana sobre o petróleo venezuelano.

Em um discurso de 2024 que voltou a circular nas redes sociais após o anúncio do acordo, Rodríguez acusava a oposição venezuelana de tentar entregar as reservas de petróleo, gás natural e ouro do país aos seus “mestres” em Washington.

Em setembro do ano passado, quando os Estados Unidos aumentavam a pressão sobre Nicolás Maduro, Rodríguez afirmou ao New York Times que “o Pentágono sempre teve como objetivo estratégico obter as reservas venezuelanas”.

Agora, porém, sua posição mudou radicalmente.

De inimigos do imperialismo a parceiros no petróleo

A transformação representa uma das mais impressionantes guinadas políticas do chavismo. Rodríguez e Maduro chegaram ao poder político defendendo o nacionalismo energético, o socialismo e o combate ao que chamavam de imperialismo americano.

A própria Delcy Rodríguez, filha de um guerrilheiro marxista, passou anos denunciando tentativas estrangeiras de controlar os recursos naturais venezuelanos.

Depois da morte de Hugo Chávez, em 2013, ela e Maduro herdaram um movimento político construído em torno da resistência à influência dos Estados Unidos.

Agora, Rodríguez agradece publicamente a Trump e ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, pelo acordo petrolífero.

“Há algo que precisa ficar absolutamente claro: a Venezuela mantém a propriedade e a soberania sobre seus recursos”, afirmou.

A questão central, entretanto, é menos jurídica do que econômica e geopolítica: se empresas e estruturas ligadas aos Estados Unidos passam a controlar a exploração de uma parcela gigantesca das reservas venezuelanas, até que ponto a soberania sobre o petróleo continua sendo efetiva?

O acordo também envolverá um departamento do Pentágono destinado a direcionar investimentos para projetos considerados relevantes para a segurança nacional americana.

A operação terá ainda a participação de uma empresa privada pertencente ao empresário Alejandro Betancourt, magnata baseado no Reino Unido que se tornou um dos principais intermediários entre o governo Trump e a administração Rodríguez.

O resultado é uma situação que, até pouco tempo atrás, seria praticamente inimaginável para o chavismo: um governo herdeiro de Hugo Chávez negociando com Washington o acesso americano às maiores reservas de petróleo do mundo e apresentando a operação como uma promessa de prosperidade nacional.

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