
Toda chuva forte em São Paulo repete a mesma cena. A água sobe na avenida, o carro fica, o ônibus para, a casa de alguém no fundo do vale vai embora. No dia seguinte, a prefeitura fala em “evento extremo”, como se a cidade tivesse sido surpreendida. Não foi. Mudou o regime das chuvas, dos calores e das secas. O jeito de planejar e pagar a cidade continua o mesmo.
É esse descompasso que o seminário Cidades, clima e o futuro do Brasil: caminhos para a adaptação urbana põe em discussão nos dias 11 e 12 de novembro, uma quarta e uma quinta-feira, das 19h às 22h, no auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), na Vila Buarque, centro da capital. A realização é do Diário do Centro do Mundo, em parceria com a Escola. As vagas presenciais são limitadas e a inscrição se faz em cidadeseclima.org.
Quase nove em cada dez brasileiros vivem em áreas urbanas, segundo o Censo 2022 do IBGE. Quem se molha e quem se protege quando o tempo vira é coisa que se decide em prefeituras, planos diretores, orçamentos municipais e obras que levam anos. O debate brasileiro sobre o clima, porém, costuma olhar para a floresta e para a matriz energética e deixar a cidade por último. O seminário inverte a ordem.
Uma decisão pública em quatro etapas
A programação segue a sequência de uma escolha de governo. Primeiro vem o custo. A Mesa 1 pergunta quanto é preciso gastar para adaptar as cidades brasileiras e com que critérios esse dinheiro se reparte entre União, estados e municípios, entre obra de proteção e realocação de famílias, entre o centro e as periferias.
A Mesa 2 passa aos instrumentos que as cidades já têm na mão, como o plano diretor, a regularização fundiária e a urbanização de favelas, e investiga por que eles raramente saem do papel na escala que o problema exige. Nabil Bonduki, arquiteto e urbanista, professor da FAU-USP e relator do Plano Diretor Estratégico de São Paulo de 2014, é o primeiro confirmado nesse debate.
A segunda noite abre com o dinheiro. Do Fundo Clima aos títulos verdes, a Mesa 3 examina o papel dos bancos públicos e as condições em que o crédito chega às cidades médias e pequenas. Marcio Pochmann, presidente do IBGE, já confirmou presença.
A Mesa 4 encerra com a governança metropolitana, a partir de uma constatação simples. A bacia, a encosta e a rede de drenagem atravessam dezenas de municípios, e nenhum deles resolve o problema sozinho.
Cada debate reúne dois convidados e um mediador do corpo docente da FESPSP. Também estão confirmados Daniel Cara, cientista político e professor da Faculdade de Educação da USP, e, pela Escola, o professor Paulo Silvino Ribeiro e a jornalista Desirèe Luíse Lopes Conceição, coordenadora da pós-graduação em Mídia, Política e Sociedade. Os demais nomes serão anunciados nos próximos dias, no site do seminário e no Canal DCM.
Cinquenta anos entre dois livros
Os debates dialogam com uma publicação recente da FESPSP, São Paulo 2025: riqueza e desigualdades (Editora Sociologia e Política / Alameda, 392 páginas), organizada por Marcos Queiroga Barreto e Ubiratan de Paula Santos. A obra retoma, meio século depois, o estudo encomendado ao Cebrap em 1975 pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, então sob Dom Paulo Evaristo Arns, que resultou em São Paulo 1975: crescimento e pobreza (Edições Loyola, 1976). Assinado por nomes como Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, Lúcio Kowarick e Maria Hermínia Tavares de Almeida, aquele levantamento expôs uma metrópole que crescia sem atender a quem a construía. O livro de 2025 mede o que mudou desde então e o que permaneceu.
Quem faz
O DCM é um veículo independente com uma história de defesa da democracia e dos direitos sociais. A FESPSP pesquisa desde 1933 a cidade em que está instalada; foi dela, ainda nos anos 1930, o levantamento pioneiro sobre o padrão de vida dos trabalhadores paulistanos que deu origem aos parâmetros da cesta básica.
Serviço
- Seminário Cidades, clima e o futuro do Brasil: caminhos para a adaptação urbana
- Quando: 11 e 12 de novembro de 2026 (quarta e quinta-feira), das 19h às 22h
- Onde: Auditório da FESPSP, Rua General Jardim, 522, Vila Buarque, São Paulo
- Vagas: limitadas para o público presencial, com inscrição prévia
- Programação e inscrições: https://cidadeseclima.org/