Como se matam as democracias, por Luís Nassif

Na Faria Lima, um grupo de porta-vozes, principais responsáveis pelo apoio a Flávio Bolsonaro, solta uma nota pedindo respeito à democracia e às leis.

Um dos principais responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff — o episódio que desorganizou definitivamente as instituições —, o jurista Miguel Reale Jr. anuncia voto em Lula para garantir a democracia.

Na época do impeachment, outro jurista, Oscar Vilhena, defendia o golpe sob o argumento de que só o impeachment restauraria as condições de governabilidade. Segundo ele, o impeachment cumpre três funções no presidencialismo: desincentiva o abuso de poder, desincentiva golpes porque oferece saída constitucional, e qualifica o debate público. E como encararia o fato de o impeachment tirar o poder de uma presidenta inequivocamente honesta para entregá-lo a Eduardo Cunha, Michel Temer e outros políticos que se enlamearam na corrupção? 

“O fato de que parte dos políticos responsáveis por tomar a decisão foi flagrada no mesmo escândalo que conspurca o Executivo. PT e PMDB, agora em litígio, são sócios nesse projeto de poder. Os custos de conviver com uma ou outra decisão serão enormes, mas imperativos”.

Dois anos depois, caía a ficha:

“Depois de uma eleição vencida com enorme irresponsabilidade fiscal, um impeachment liderado por Cunha, a ascensão ao poder do velho ‘centrão’, mestre das trapaças, a condenação de um importante líder e a erosão da autoridade do Supremo, é impossível negar que nossa democracia esteja conspurcada. O fato, porém, é que temos a oportunidade nas eleições de 2018 de depurá-la”.

Agora, escreve na Folha que a última oportunidade para a democracia brasileira são as eleições de 2026. E aponta Lula como a última esperança.

Um liberal autêntico, sem pecado, sem culpa, que ajudou na erosão da democracia em nome de interpretações falsas para o impeachment.

Sob encomenda

Fora do linguajar supostamente civilizado do jurisdiquês, a imagem corriqueira era a de que Cunha e Temer eram os canos pelos quais escorreria o esgoto do PT.

O auge da hipocrisia jurídica ocorreu em um evento da Associação dos Advogados de São Paulo, na qual Vilhena expôs essa joia do parecer sob encomenda. Na época, escrevi no Jornal GGN, explicando seu malabarismo jurídico:

”Não é a oposição que não se conforma em ter perdido as eleições de 2014 e não tem paciência para aguardar 2018; é o governo (que ganhou as eleições de 2014) que não tem a grandeza de tirar o time de campo, sabendo que poderá voltar em 2018. Em vez disso, tenta cooptar aliados com práticas clientelistas.”

Ou seja, apresenta como premissa do modelo brasileiro a fragilização do poder do Executivo. E, depois, afirma que o esforço do Executivo para garantir a governabilidade denota falta de desprendimento.

Uma falsa elite

As democracias morrem quando sua suposta elite econômica, jurídica e midiática não consegue enxergar além da primeira curva da esquina. Ignorantes, por trás de sua falsa erudição, não se dão conta de que um organismo político aviltado jamais voltará ao normal, mesmo que passe a turbulência.

Mesmo Lava Jato, impeachment, tragédia da eleição de Bolsonaro, as lições foram aprendidas.

Não houve reação quando teve início a Lava Jato 2, movimento nitidamente desenhado atrtavés da CPI do INSS e dos inquéritos do INSS e caso Master. Pelo contrário, os jornalões, puxados por O Globo, seguidos pelo Estadão e pela Folha, foram os arautos da grande manipulação.

O maior estrategista da ultradireita, Steve Bannon, defendia duas técnicas de influenciar a opinião pública: a microsegmentação e a saturação. E apenas uma resistência: o papel da imprensa corporativa.

Os princípios que se extraem de Bannon:

  • O objetivo não é convencer, é saturar. Quando há notícia, boato e escândalo demais, o público perde a capacidade de distinguir o relevante do ruído, e o cansaço favorece quem não quer prestar contas.
  • A atenção da imprensa é o recurso escasso. Cada novo fato, ainda que falso ou irrelevante, consome tempo de checagem e desloca o assunto que importava.
  • A imprensa é tratada como adversária política. Se ela é “a oposição”, sua checagem vira ato partidário, e a desconfiança do público atinge o mediador, não só a mensagem.
  • Velocidade vence precisão. A correção chega depois, com alcance menor, e o ciclo seguinte já começou.
  • Cultura antes de política. Pela máxima que ele repete, a política é downstream da cultura. Daí a aposta em plataformas próprias, que contornam a imprensa tradicional.

Havia só uma adaptação ao Brasil. Bannon via a imprensa como adversária porque ela focava objetivamente nos fatos. No Brasil, nem isso houve; o grande lixão foi justamente a imprensa corporativa. Coube a ela o trabalho deletério – e fundamental – de abarrotar o noticiário com falsas ênfases no caso Fábio Luiz, nos ataques sistemáticos ao Supremo Tribunal Federal, escondendo os pecados óbvios de Flávio Bolsonaro. Um ou outro editorial crítico a Flávio não compensava e enxurrada de denúncias falsas sobre Fábio Luiz.

Agora, estamos a poucos dias do dia mais importante da vida nacional. E os grandes vendilhões do templo voltarão à sua pregação libertária inútil, que só serve para lustrar sua vaidade.

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