O segundo turno das eleições presidenciais de 2026 será decisivo para os rumos da política energética brasileira, segundo o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep).
Em seu boletim de outubro, o instituto aponta diferenças entre os projetos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro para o papel do Estado, da Petrobras e do mercado no setor energético.
O documento relaciona a disputa eleitoral à capacidade do Brasil de controlar seus recursos estratégicos, preservar a autonomia nacional e definir os rumos do próprio desenvolvimento. O Ineep também destaca os riscos associados às tensões da política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para o Brasil e a América Latina.
Na avaliação do instituto, a soberania energética depende de empresas públicas fortes, planejamento estatal e capacidade produtiva nacional. O boletim defende que o país utilize seus recursos naturais para ampliar o desenvolvimento econômico e tecnológico, reduzir vulnerabilidades externas e conduzir uma transição energética que não reproduza relações de dependência internacional.
Lula e Flávio Bolsonaro têm projetos distintos para o setor
O Ineep identifica diferenças entre as propostas dos dois candidatos para a organização do setor energético. Segundo o boletim, Lula defende o fortalecimento do planejamento estatal, da Petrobras, da segurança energética e de políticas de transição para uma economia de baixo carbono.
Já o projeto associado ao bolsonarismo prevê a retomada do Programa Nacional de Desestatização, com novas privatizações, maior abertura dos mercados e flexibilização regulatória.
Para o Ineep, a escolha entre esses caminhos envolve mais do que a gestão de empresas ou a exploração de recursos naturais. Está em discussão a capacidade do Estado brasileiro de coordenar investimentos, garantir o abastecimento interno e transformar as riquezas nacionais em desenvolvimento.
O instituto também chama a atenção para a dimensão geopolítica da disputa. O Brasil possui reservas de petróleo, minerais estratégicos, água e fontes renováveis de energia, como biomassa, sol e vento. A questão, segundo o boletim, é quem controlará esses recursos e quais interesses serão atendidos por sua exploração.
Nesse contexto, o documento cita as descobertas da Petrobras na Margem Equatorial como exemplo dos desafios relacionados à destinação das riquezas naturais brasileiras.
Privatizações e mudanças na política energética
O boletim recupera a trajetória recente do setor para sustentar sua análise sobre a importância da atuação estatal. Entre 2019 e 2022, a Petrobras privatizou 206 ativos, incluindo refinarias e subsidiárias como BR Distribuidora, Liquigás e Gaspetro.
O documento também menciona a privatização da Eletrobras nesse período. Na avaliação do Ineep, esse processo contribuiu, entre outros efeitos, para o aumento de preços e tarifas e para o agravamento da pobreza energética.
A partir de 2023, durante o terceiro governo Lula, as privatizações no Sistema Petrobras foram suspensas. O instituto também destaca a adoção de uma política de preços dos combustíveis que denomina de “abrasileiramento”, associada, segundo sua análise, à redução da volatilidade e ao aumento da previsibilidade para os consumidores.
O boletim aponta ainda a ampliação e a retomada de investimentos em áreas consideradas estratégicas, como refino, fertilizantes, biocombustíveis e transição energética. Essas iniciativas são apresentadas como instrumentos para reduzir a dependência externa de derivados de petróleo, fortalecer o abastecimento interno e ampliar a segurança energética.
O documento também menciona programas sociais, como o Gás do Povo, no enfrentamento da pobreza energética.
Investimentos da Petrobras voltam a crescer
Os dados reunidos pelo Ineep mostram mudanças na participação dos investimentos da Petrobras na formação bruta de capital fixo (FBCF) do Brasil, indicador utilizado para acompanhar os investimentos na economia.
De acordo com o levantamento, elaborado a partir de dados da Petrobras e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação da companhia atingiu 11,1% em 2009, maior percentual da série apresentada, e caiu para 2,8% em 2022, o menor patamar.
Entre 2003 e 2010, a participação média foi de 8,4%. No período de 2011 a 2015, ficou em 8,1%. A partir de 2016, o indicador entrou em trajetória de queda, passando de 5,7% naquele ano para 2,8% em 2022.
O movimento se inverteu a partir de 2023. Naquele ano, a participação dos investimentos da Petrobras na formação bruta de capital fixo chegou a 3,5%, avançou para 4,5% em 2024 e alcançou 5,4% em 2025. O dado de 2025 aparece identificado no gráfico do instituto como projeção da Petrobras.
Para o Ineep, a recuperação reforça a relevância da companhia para a formação de capital no país e para a dinâmica dos investimentos nacionais.
O instituto argumenta que a transição para fontes renováveis precisa ser acompanhada pelo desenvolvimento de tecnologia, indústria e capacidades produtivas nacionais. Sem essas condições, avalia o boletim, o Brasil corre o risco de substituir a dependência de combustíveis fósseis por uma nova dependência de equipamentos e tecnologias importados.
O documento também defende que a Petrobras seja considerada estratégica não apenas pela produção de petróleo, mas por suas capacidades financeiras, tecnológicas e industriais, que poderiam contribuir para a segurança do abastecimento e para os investimentos na transição energética.