EUA suspendem sanções sobre diesel russo após acordo entre Trump e Putin

Washington libera por seis meses transações com combustível produzido na Rússia enquanto preços do diesel pressionam economia norte-americana; Moscou promete enviar imediatamente mais de 300 mil toneladas e ampliar fornecimento nos próximos meses

Da Redação

O governo dos Estados Unidos suspendeu temporariamente parte das sanções que impediam operações com diesel produzido na Rússia, numa mudança significativa da política de pressão econômica adotada contra Moscou desde o início da guerra na Ucrânia. A decisão foi anunciada nesta sexta-feira (9), poucas horas depois de Donald Trump revelar que havia conversado com Vladimir Putin e acertado o envio emergencial de combustível russo para os mercados norte-americano e internacional.

O Departamento do Tesouro publicou a Licença Geral 135, que autoriza transações relacionadas à venda, entrega, descarga e importação de diesel de origem russa que, pelas regras anteriores, poderiam ser bloqueadas pelo regime de sanções. A autorização permanecerá válida até 7 de abril de 2027.

A medida é específica para o diesel. As demais sanções impostas a bancos, empresas, autoridades, investimentos e setores estratégicos russos continuam em vigor. Washington, portanto, não encerrou o regime de pressão econômica contra Moscou, mas criou uma exceção suficientemente ampla para permitir que o combustível russo volte a circular legalmente em operações que envolvam o sistema financeiro e comercial norte-americano.

Trump anunciou a decisão depois de classificar como “muito bem-sucedida” uma conversa com Putin. Segundo o presidente dos Estados Unidos, a Rússia fornecerá imediatamente mais de 300 mil toneladas métricas de diesel para os Estados Unidos e para o mercado mundial. Outros 500 mil toneladas deverão ser disponibilizadas em novembro e mais 1 milhão logo depois.

Trump afirmou ainda que Moscou poderá acrescentar aproximadamente 3 milhões de toneladas em um período posterior, dependendo das condições de funcionamento das refinarias russas.

Somadas, as quantidades mencionadas pelo presidente norte-americano poderiam chegar perto de 5 milhões de toneladas.

O acordo produz uma situação que seria difícil imaginar poucos meses atrás. Depois de anos tentando reduzir as receitas energéticas de Moscou, Washington passa agora a facilitar exportações russas porque enfrenta sua própria crise de oferta de combustíveis.

Preço do diesel muda cálculo de Washington

A principal razão apresentada pela Casa Branca é econômica.

O preço médio do diesel nos Estados Unidos chegou nesta semana a cerca de US$ 6,28 por galão, próximo dos maiores níveis já registrados no país. O combustível é essencial para caminhões, transporte de mercadorias, máquinas agrícolas, construção civil e sistemas de aquecimento, fazendo com que sua alta se espalhe praticamente por toda a economia.

Quando o diesel sobe, aumenta o custo para transportar alimentos, matérias-primas e produtos industriais. O efeito aparece posteriormente nos supermercados, nas lojas e nas cadeias de produção.

A crise energética foi agravada pela guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada em fevereiro. O conflito reduziu a oferta disponível no mercado internacional e aumentou a pressão sobre derivados de petróleo, principalmente diesel e combustível de aviação.

Ao mesmo tempo, ataques ucranianos contra refinarias russas diminuíram a capacidade de produção de Moscou. A Rússia chegou a restringir suas próprias exportações para preservar o abastecimento interno.

O resultado foi um mercado mundial com menos combustível disponível justamente quando a demanda permanece elevada.

Trump vinha tentando controlar a situação por outras vias. O governo pressionou aliados a liberar reservas emergenciais, flexibilizou regras para alguns tipos de diesel utilizados na agricultura e passou a discutir o uso da Lei de Produção de Defesa para ampliar a capacidade das refinarias norte-americanas.

Nenhuma dessas medidas conseguiu produzir uma redução rápida dos preços.

A aproximação com Moscou surge agora como solução emergencial.

Para Trump, o impacto doméstico é particularmente sensível porque os Estados Unidos realizam eleições legislativas em 3 de novembro. O controle do Congresso estará em disputa, e inflação e custo de vida permanecem entre os principais temas da campanha.

O próprio presidente apresentou o acordo com Putin como uma medida destinada principalmente a agricultores, pecuaristas e caminhoneiros norte-americanos.

A reação imediata do mercado mostrou a relevância do anúncio. Os contratos futuros de diesel negociados nos Estados Unidos chegaram a cair depois da divulgação do acordo, embora analistas tenham questionado se os volumes anunciados serão suficientes para provocar uma redução duradoura dos preços.

Sanções encontram limite na realidade energética

A decisão revela também uma contradição mais ampla da política de sanções.

Desde 2022, Estados Unidos e seus aliados procuraram limitar as receitas obtidas pela Rússia com petróleo e derivados, considerados uma das principais fontes de financiamento do Estado russo durante a guerra.

Washington proibiu importações de petróleo e gás russos e criou diferentes restrições às empresas e estruturas financeiras utilizadas para comercializar energia.

Nos últimos anos, entretanto, Moscou redirecionou grande parte de suas vendas para China, Índia e outros mercados asiáticos. O petróleo russo continuou circulando, frequentemente através de intermediários, novos sistemas financeiros e da chamada frota paralela de petroleiros.

A explosão dos preços causada pela crise no Oriente Médio mudou ainda mais o equilíbrio.

Quanto maior o preço mundial do petróleo e de seus derivados, maior tende a ser a receita obtida pelos produtores que continuam conseguindo vender.

É nesse cenário que o governo Trump enfrenta uma escolha difícil. Manter restrições máximas sobre o combustível russo pode aumentar a pressão econômica sobre Moscou, mas também reduz a oferta mundial e contribui para preços mais altos dentro dos próprios Estados Unidos.

A decisão desta sexta-feira mostra qual interesse prevaleceu neste momento.

Washington escolheu aumentar a oferta.

A medida também ocorre poucas semanas depois de Trump sancionar uma legislação que ampliou mecanismos de pressão contra o setor energético russo. O conjunto aprovado prevê punições contra bancos, autoridades, empresas e estruturas de transporte vinculadas às exportações de Moscou.

Agora, parte dessa arquitetura precisa ser temporariamente contornada para permitir que o diesel russo volte ao mercado.

Moscou ganha novo espaço econômico

Para a Rússia, a flexibilização cria uma oportunidade importante.

O país continua entre os maiores produtores e exportadores de petróleo do mundo e possui uma ampla indústria de refino. As sanções ocidentais dificultaram determinadas operações, mas não eliminaram a capacidade russa de vender energia.

Com a autorização norte-americana, empresas, operadores logísticos e instituições financeiras passam a ter maior segurança jurídica para participar de determinadas transações envolvendo diesel russo.

Isso pode ampliar a receita obtida pelas refinarias e facilitar o acesso a mercados que vinham evitando operações devido ao risco de punições dos Estados Unidos.

Putin confirmou que a Rússia está pronta para fornecer petróleo e derivados aos mercados norte-americano e mundial e afirmou que a ampliação da oferta poderá ajudar a economia global.

Kirill Dmitriev, um dos principais interlocutores econômicos do Kremlin com a administração Trump, também comemorou a retomada da cooperação energética.

A Ucrânia reagiu na direção oposta.

Volodymyr Zelensky criticou duramente o acordo e argumentou que a flexibilização permitirá que Moscou obtenha novos recursos enquanto a guerra continua. Para Kiev, qualquer aumento das receitas russas com petróleo e derivados fortalece indiretamente a capacidade do Kremlin de sustentar suas operações militares.

Essa é a mesma lógica que orientou as sanções desde 2022.

Trump, porém, passou a colocar outra prioridade na mesa: o preço pago pelo consumidor norte-americano.

Energia aproxima Washington e Moscou

O acordo sobre diesel também aparece em meio a sinais de retomada de contatos econômicos mais amplos entre Rússia e Estados Unidos.

Representantes dos dois governos vêm discutindo possibilidades relacionadas ao setor energético, incluindo o futuro dos gasodutos Nord Stream, que antes da guerra transportavam grandes volumes de gás russo para a Europa.

Autoridades e empresários norte-americanos chegaram a discutir a possibilidade de participação de investidores dos Estados Unidos em estruturas ligadas aos gasodutos.

Nada disso significa que as relações entre Moscou e Washington tenham sido normalizadas. As divergências sobre a Ucrânia continuam profundas, e as sanções permanecem em grande parte intactas.

Mas a energia começa a funcionar novamente como espaço de negociação.

Essa mudança é particularmente relevante porque, durante os primeiros anos da guerra, a estratégia ocidental procurava justamente reduzir a dependência da energia russa e limitar sua presença nos mercados controlados por empresas e instituições financeiras ocidentais.

A crise internacional de combustíveis mostrou que essa separação possui custos.

Quando o petróleo e o diesel se tornam escassos, a dimensão geopolítica entra em choque com a necessidade imediata de manter caminhões, máquinas agrícolas, fábricas e cadeias de abastecimento funcionando.

A Licença Geral 135 é resultado direto dessa colisão.

Washington não abandonou oficialmente sua política de sanções. Mas reconheceu, na prática, que precisa temporariamente do diesel russo circulando.

Para Moscou, o movimento quebra parte do isolamento construído desde 2022. Para Trump, oferece uma tentativa de reduzir os preços antes das eleições legislativas. Para a Ucrânia, significa que um dos principais instrumentos de pressão econômica sobre a Rússia começa a ser flexibilizado quando o custo das sanções alcança diretamente os consumidores norte-americanos.

O episódio mostra que a guerra energética deixou de ser apenas uma disputa sobre quem consegue punir economicamente o adversário.

Ela passou também a ser uma disputa sobre quem consegue suportar por mais tempo o preço dessas punições.

Artigo Anterior

Kassab diz temer tensão institucional em eventual governo Flávio e alerta contra impeachment de ministros do STF

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!